domingo, 11 de setembro de 2016

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





VISITAR MELGAÇO EM JUNHO

 

     Hoje em dia é facílimo ir de Lisboa a Melgaço. Entra-se na camioneta no Campo Pequeno e depois de cinco, seis horas de estrada está-se a beber uns copos com os familiares e amigos. O mês seis é ótimo para passear. Nem frio, nem calor excessivo. Julho e Agosto são meses quentes e incomodativos. Eu só vou à terra no verão por causa das festas da cultura e também para rever os companheiros de infância que vêm de França e de outros países. Como num verdadeiro ritual cíclico (graças ao meu irmão e minha cunhada, que nunca se cansam dessas coisas) no domingo, dia 12, percorremos quase todo o concelho. Eu conto como foi: saímos da vila logo a seguir ao almoço e fomos à Peneda (este povoado administrativamente pertence aos Arcos de Valdevez e pelo coração pertence a Melgaço). Ao longo do caminho paramos algumas vezes para admirar essas paisagens únicas. Haverá, no mundo inteiro, paisagem mais linda? Quando lá chegamos vimos pessoas a subir e a descer o íngreme escadório, talvez pagando velhas promessas, talvez por curiosidade. (quem estiver interessado em conhecer a história da Peneda leia o livro do padre Bernardo Pintor «Santuário da Senhora da Peneda – uma joia do Alto Minho»; nele se descreve o aparecimento da santa e a construção das capelas) (*). Aqueles enormes rochedos soltos, sobranceiros à igreja e ao hotel, assustam. Como é possível estarem ali, há séculos, sem cair? Voltamos para trás e rumamos a Castro Laboreiro. Nesse mesmo dia abria ao público uma loja de artesanato, com artefactos castrejos em miniatura: peças de vestuário (mantela, colete, peúgas, polainos de burel branco, mandil), tamancos (alabardeiros), masseiras, arcaz (caixas para guardar roupas e centeio), camboeira (onde se colocam as broas de pão), mochos (escabelos, ou escanos), etc., e também presunto e fumeiro de Castro Laboreiro, além do famoso pão de Castro, a mil escudos cada quilo! Cada broa pesava dois quilos, portanto dois mil escudos! O dono da loja (natural de Castro Laboreiro mas construtor civil em Viana do Castelo) explicou-nos que os preços altos se deviam sobretudo à escassez de mão-de-obra e à falta de centeio. Dirigimo-nos depois ao lugar de Alcobaça, Lamas de Mouro, e entramos numa estrada inacabada que vai dar a Fiães e Cristóval; esta via ladeia sempre o rio Trancoso e oferece-nos também uma das mais belas paisagens do Alto Minho. Do nosso lado esquerdo pastavam tranquilamente ovelhas, cabras, e algumas vacas. Fica-se boquiaberto pela maneira como estes animais se seguram, pois o rio fica lá em baixo, a uns bons 150 ou 200 metros. Trata-se de uma proeza, porque estamos perante um declive bastante acentuado. O gado olha-nos com espanto, pois não está habituado a ver automóveis por essas bandas.

     Nas esplanadas dos Cafés de São Gregório encontravam-se algumas pessoas cavaqueando e saboreando bebidas refrescantes. Com a saída da Guarda-Fiscal, e o fim do contrabando, este sítio, talvez o maior lugar da freguesia de Cristóval, pelo menos em número de habitantes, ressentiu-se deveras. Terão de inventar novas atividades, pois de outro modo ser-lhes-á muito difícil sobreviver.               

     Descemos a Cevide, lugarejo onde outrora existiu um quartel da Guarda-Fiscal e vinte a trinta fogos, mais ou menos cem habitantes (**), e extasiamo-nos com as suas belezas naturais. É precisamente aí que o rio Trancoso desagua no rio Minho e este penetra em território português. Cevide hoje praticamente não tem população! Cinco ou seis idosos teimam em acabar os seus dias neste cantinho parasidíaco, na terra onde nasceram e na qual viveram provavelmente os seus melhores anos. O seu rendimento já não advém da agricultura, nem do pequeno contrabando, como antigamente, mas sim de pensões de aposentação. Visitei o antigo moinho, silencioso e em ruínas. Ali perto, sobre o Trancoso, aparece a nossos olhos uma ponte metálica, ainda a cheirar a tinta. Não há muito tempo que eu apelava às autoridades camarárias para reconstruírem a velha ponte que tanta falta fazia a portugueses e galegos. Pois bem, ela aí está, mas pasmem: paga, segundo me disseram, pelos espanhois!

     Estava-se a fazer tarde, apesar dos dias de Junho não terem fim, e embora contrariados – Cevide não cansa – lá fomos a caminho da vila, pelos Casais, outra povoação maravilhosa, mesmo juntinho ao rio. Subimos à Senhora de Lurdes e depois foi sempre a andar… As muitas, e belas, fotografias que a gente foi tirando ao longo do trajeto apenas se poderão ver no mês de Agosto próximo, pois a minha máquina fotográfica ficou em Lisboa; é minha sina esquecer-me sempre de qualquer coisa!

     Percorri também, mas agora a pé, as ruas da sede do concelho e verifiquei, com pesar, que os erros cometidos, no que diz respeito a nomes, persistem. Que pena! Parece que ninguém se interessa. Aceitam as críticas mas não retificam. Assim, lá continua o Largo Policano em vez de Largo do Cine Pelicano, Rua Fonte da Vila em lugar de Rua da Fonte da Vila, etc. Por mais que procurasse, não consegui encontrar nenhuma rua com o nome do Dr. Augusto César Esteves, o que muito me espanta, visto que a sua obra historiográfica, acerca do nosso concelho, é importante; além disso, foi fundador dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, Presidente da Câmara Municipal, e interveio, sempre que pôde fazê-lo, a favor do progresso da sua e nossa terra.

        Outro reparo: colocaram uma placa informativa com a seguinte indicação: -> IGREJA DA MATRIZ. Assim mesmo! Quanto eu sei, foi sempre conhecida por Igreja Matriz – vai mudar de nome?! Em termos filológicos é grave, pois ficamos com a ideia de que a igreja pertence à matriz, como a outra ali perto pertence à Misericórdia. Ora o que acontece, salvo melhor opinião, é que essa igreja é a matriz, isto é, a igreja principal. Se não sabem, porque não consultam o dicionário? Diz-nos este: «Matriz – diz-se da igreja que tem jurisdição em relação a outras igrejas ou a todas as capelas de uma dada circunscrição 
       

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1012, de 1 e 15/8/1994.

 

/// (*) Pode também ler (e ver) o meu artigo sobre o santuário da Peneda, inserto no livro «Lugares Sagrados de Portugal, I», páginas 198 a 203, inclusive, publicado em 2016 pelo Círculo de Leitores. 
 

/// (**) Em 2016 viviam ali meia dúzia de pessoas! Mário Olímpio Máximo Monteiro tenta tornar conhecido esse lugarzito, um mini paraíso terrestre, entalado entre dois rios, Trancoso e Minho, sobretudo através do marco número 1, onde começa Portugal, mas hoje os turistas preferem as cidades e as praias.

 

 

 

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