domingo, 28 de dezembro de 2025

 POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha




128

 

MELGAÇO, TERRA LUSITANA

 

Tens nome de divindade,

habitas solo sagrado;

és terra fertilidade,

és paraíso encantado.

 

Tens dezoito freguesias,

entre si rivalizando;

Castro, lá nas serranias,

Remoães o chão beijando.

 

Fiães tem o seu mosteiro,

 o seu presunto famoso;

tem vento por companheiro,

e tem seu povo orgulhoso.

 

Alvaredo, mãe das vinhas,

cachos de oiro a dizer:

«eis-nos aqui, madurinhas,

pró alvarinho nascer.»

 

Cristóval, mesmo à pontinha,

com Cevide lá no fundo,

em beleza é rainha,

das freguesias do mundo.

 

Paços evoca nobrezas,

palácios senhoriais;

condes, duques e princesas,

 trovadores e jograis.

 

Chaviães namora o rio,

faz olhinhos à Galiza;

e seja inverno ou estio

na sua barca desliza!

 

Lamas, na serra erguida,

com seu parque deslumbrante,

é a “Terra Prometida”

do nosso veraneante.

 

Paderne, não sei que diga,

tão majestosa e imponente; 

para a ver, não há fadiga,

é pérola do ocidente.

 

Cousso, por não ter vaidade,

esconde a sua beleza;

mas é bela de verdade,

apesar da singeleza.

 

Cubalhão não tem história

(que lh’importa, se é bela);

recordando, de memória,

faz-nos lembrar Cinderela!

 

A Gave é joia escondida

entre montanhas sem fim;

por granitos protegida,

é suave, de cetim!

 

Parada, com seus gaiteiros,

e um rancho, que dança bem,

é um povo de folgueiros,

quanta alegria eles têm!

 

Penso, é a porta aberta,

para quem do sul caminha;

é uma janela indiscreta,

mostra tudo, tão asinha!

 

Prado: campos, rio, monte,

santuário de beleza;

Oásis verde, alva fonte,

refúgio da natureza!

 

Rouças está sempre em festa,

duas santas lá festeja:

uma é rica, mas modesta,

a pobre não tem inveja!

 

São Paio observa a Vila,

com tanto contentamento;

também ela se perfila

nas terras em crescimento.

 

A Vila é já um jardim,

todo o ano engalanado;

tem o cheiro do jasmim,

um olhar enamorado.

 

Todo o concelho é beleza,

nele escolher é traição;

vence Suíça, ou Veneza,

em qualquer competição!

 

Tem serra, montes amigos,

os rios maravilhosos;

tem os castelos antigos

os monumentos briosos.

 

Tem isso tudo e o povo,

tem tradições e história;

tem o velho e tem o novo,

tem a fama e tem glória.

 

1993


UM CASAMENTO FALHADO

 

Uma história verdadeira,

para ficar na lembrança,

em modos de brincadeira,

aconteceu lá pra França.

 

A Maria e o António,

entre beijos e sorrisos,

prometeram matrimónio,

cravos, rosas e narcisos.

 

Ele, jovem inexperiente,

ela, bem madurecida,

disseram a toda a gente:

«isto vai durar a vida

 

Marcou-se o dia da boda,

escolheu-se o santuário,

convidou-se a gente toda,

 falou-se com o vigário.

 

Começam a chover prendas,

em dinheiro e objetos;

tantas e tantas oferendas,

chegariam ‘té aos netos!

 

Mas certo dia nevoento

o António ouviu dizer

que algo no casamento

está por esclarecer!

 

Ele pensava, coitado!

«Tudo que ela tem

quando eu estiver casado

é dela… e meu também

 

Mas a Maria, esperta,

não pensa dessa maneira;

e fazendo-lhe uma festa

diz, audaz e prazenteira:

 

«Ó amor, que tão bem mima,

a vida é como a nora:

quando a julgamos em cima

vai pra baixo sem demora!

 

Por isso, minha ternura,

caso com separação;

junto a mim terás fartura,

longe de mim ganha o pão

 

O rapaz foi para casa

no assunto meditando:

«se ela fosse uma brasa,

meu coração empolgando»!

 

Mas não! É velha e relha,

com pele de elefante;

estreita como uma quelha,

enorme como um gigante!

 

Uma mulher tão vivida

(até já foi ao Brasil)

não terá aqui guarida,

ou eu não me chame Anil.

 

Dava minha juventude

em troca de bem-estar;

que afrontosa atitude:

- vai, Maria, bugiar

 

A noiva não sabe nada

e de orgulho ufana;

pede caleche alugada,

com parelha lusitana!

 

O vestido cor da selva

(próprio duma princesa)

deslizará pela relva,

num delírio de beleza.

 

Os convidados chegando,

padrinhos aperaltados;

os sinos já repicando,

os agouros sepultados.

 

Todo o mundo impaciente,

esperando António Anil;

«rapaz novo e inocente»,

cheirando inda a Abril.

 

Os minutos vão passando,

o noivo não aparece;

o dia vai desmaiando,

a noiva reza uma prece.

 

O padrinho, brincalhão,

(personagem duma farsa),

diz, com grande vozeirão,

mas com gestos duma garça:

 

«Apesar do acontecido,

não percamos a vontade;

não podes ter um marido?

Sê irmã de caridade

 

Compraram um lindo bolo,

champanhe correu a rodos;

a noiva cantou a solo,

mas alegrou-os a todos.

 

E tanta gente do norte:

«que sejas feliz um dia;

não arranjaste consorte,

qu’importa, ficas pra tia

 

As prendas que recebeu

não pôde ficar com elas;

e tanto que ela perdeu:

dinheiro, tachos, panelas…

 

Tudo isto foi verdade,

eis a cópia dum convite;

não o conto por maldade,

mas sim a modo de chiste.

 

Outubro de 1993 

 

130

 

MINHA TERRA

 

Fenícios deram-te o nome,

os celtas a fortaleza;

romanos deram-te a língua,

lusitanos a destreza.

 

Suevos deram-te a espada,

os visigodos a guerra;

os mouros deram a enxada

a ti, minha linda terra.

 

Henriques deu-te foral,

a carta de autonomia;

integrou-te em Portugal,

reino que então nascia.

 

Quando veio o Bolonhês

do estrangeiro distante,

deu-te foral outra vez,

por sinal mais agravante.

 

Libertou-te o grande Mestre

no tempo da Inês brava;

viste-te livre da peste,

 da Ordem de Calatrava!

 

Conheceste a agonia

no tempo dos três Filipes;

mas por mera bizarria

voltaste aos acepipes!

 

O povo deu-te a virtude,

os céus eterna beleza;

a honradez, atitude,

os rios deram-te a mesa.

 

Bela joia dos Braganças,

foste liberal senhora;

viveste de mil mudanças,

tiveste tudo em penhora!

 

Festejaste o nosso Abril,

brindaste à democracia;

rejeitaste o velho vil,

aceitaste o novo dia.

 

És terra de Portugal,

minha raiz de lembrança;

correste com todo o mal,

És nossa fé e esperança!

  

1994

  

131

 

TERRA MELGACENSE

 

Herdaste de teus avós

o perfil duma rainha;

a leveza duma noz,

a perfeição d’andorinha.

 

Herdaste a igreja matriz,

Transformada em relicário;

a igreja Pastoris,

a Senhora do Rosário.

 

Um altaneiro castelo,

muralhas de grande porte;

o mais nobre e o mais belo

dos monumentos do norte.

 

Tens a capela da Orada

(monumento nacional);

uma santa venerada

em Espanha e Portugal.

 

O mosteiro de Paderne

(tesouro medieval);

de porte sempre solene,

um estilo sem igual.

 

És nascente cristalina,

água pura, sem sabor;

és ainda uma menina,

mas velha como o amor.

 

Tens o castelo de Castro,

sombra guerreira d’antanho;

“navio” alto, sem mastro,

d’invulgar tipo e tamanho.

 

Possuis a mais bela lenda

que já se ouviu contar;

é lição pra que se aprenda

a este rincão amar.

 

Tens o convento dos frades,

edifício secular;

a joia dos velhos padres,

onde os noivos vão casar.

 

A Misericórdia erguida

para ajudar os sem pão;

a cadeia, já esquecida,

para prender o vilão.

 

E tens os teus emigrantes,

arautos do teu passado;

com os livros nas estantes,

nas rudes mãos o cajado.

 

Tens o rio ali tão perto,

presente da natureza;

mas nem o olhas decerto,

nem lhe gabas a beleza.

 

Dá-te a truta, dá-te o sável,

o salmão e a lampreia;

a enguia bem amável,

dá-te o jantar e a ceia.

 

Tens as águas minerais,

portadoras de milagres;

feliz mistura de sais,

picando, não sendo agres.

 

E tens a maior riqueza,

que é o teu povo, a nação;

que chora a tua tristeza

e sente a tua emoção.

 

1994


// continua...





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