quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SONETOS DO SOL E DA LUA

Por Joaquim A. Rocha


 


MILAGRES

 

Jesus transformou a água em vinho,

Tasqueiro converteu vinho em água;

Dalila transforma alegria em mágoa,

Um valente leão em cordeirinho.

 

E até um regato ou o rio Minho,

No verão autêntica frágua,

Deslizando como uma frágil tábua,

Afoga no seu leito o passarinho.

 

E eu, sonhando sonhos maus, ruins,

Cavalgando estrela escaldante,

Montado em dragões, anjos-serafins,

 

Percorro, no colo da vil amante,

Ao som de concertinas, cornetins,

Espaço de Júpiter, deus tonante.

 

*

 

UMA VIDA ASSIM

 

Colhi sonhos no auge da ilusão,

Perfumes que o tempo desfez um dia;

Sonhos pueris, de intensa magia,

Mais leves do que um simples balão.

 

Restou, no meu pequeno coração,

Um simulacro de dor, apatia;

Nos meus olhos laivos de agonia,

No meu peito sementes de paixão.

 

Continuo a viver, independente,

Sem quaisquer obrigações, sem contrato,

Livre como todas as aves do céu.

 

Passeio de continente em continente,

Deixando fragmentos do meu retrato,

Daquilo que fui, sem jamais ser eu.

 

 

GUINÉ-BISSAU

 

Pisei território de bravos fulas,

De balantas, papéis, nalus, manjacos;

Montam vacas, substituindo mulas,

Não vestem calças, meias, nem casacos.

 

Andam descalços sobre as faúlas,

Não borrifam perfumes nos sovacos,

Não sabem ler jornais, livros ou bulas,

Nem apreciam cheiros de tabacos.

 

Na selva, nos braços da natureza,

Mandingas, brames, f’lupes, bijagós, 

Comem arroz, óleo e peixe seco…

 

A floresta inteira é a sua mesa,

Moinhos de vento sem vela e mós,

Alimentam galinha, porco, meco.



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