SONETOS DO SOL E DA LUA
Por Joaquim A. Rocha
MILAGRES
Jesus
transformou a água em vinho,
Tasqueiro converteu vinho em água;
Dalila
transforma alegria em mágoa,
Um
valente leão em cordeirinho.
E
até um regato ou o rio Minho,
No
verão autêntica frágua,
Deslizando
como uma frágil tábua,
Afoga
no seu leito o passarinho.
E
eu, sonhando sonhos maus, ruins,
Cavalgando
estrela escaldante,
Montado
em dragões, anjos-serafins,
Percorro,
no colo da vil amante,
Ao
som de concertinas, cornetins,
Espaço
de Júpiter, deus tonante.
*
UMA
VIDA ASSIM
Colhi
sonhos no auge da ilusão,
Perfumes
que o tempo desfez um dia;
Sonhos
pueris, de intensa magia,
Mais
leves do que um simples balão.
Restou,
no meu pequeno coração,
Um
simulacro de dor, apatia;
Nos
meus olhos laivos de agonia,
No
meu peito sementes de paixão.
Continuo
a viver, independente,
Sem
quaisquer obrigações, sem contrato,
Livre
como todas as aves do céu.
Passeio
de continente em continente,
Deixando
fragmentos do meu retrato,
Daquilo
que fui, sem jamais ser eu.
GUINÉ-BISSAU
Pisei território de bravos fulas,
De balantas, papéis, nalus, manjacos;
Montam vacas, substituindo mulas,
Não vestem calças, meias, nem casacos.
Andam descalços sobre as faúlas,
Não borrifam perfumes nos sovacos,
Não sabem ler jornais, livros ou bulas,
Nem apreciam cheiros de tabacos.
Na selva, nos braços da natureza,
Mandingas, brames, f’lupes,
bijagós,
Comem arroz, óleo e peixe seco…
A floresta inteira é a sua mesa,
Moinhos de vento sem vela e mós,
Alimentam galinha, porco, meco.
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