quinta-feira, 28 de março de 2024

 FERREIRA DA SILVA (:::)


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    Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1532, de 1/11/1964: «PROBLEMAS LOCAIS. // Sempre que demandamos a Praça da República, o centro justamente considerado da nossa Vila, os nossos olhos fixam-se, involuntariamente, nas tristes e deploráveis ruinas do edifício no qual funcionou em tempos as escolas primárias, instituídas pelo benemérito Conde de Ferreira e onde a mocidade melgacense recebeu as primeiras luzes culturais. As paredes do edifício, erguidas ao alto, sem telhado, sem janelas e sem portas, lembram uma catástrofe ignorada, talvez um incêndio devastador, que houvesse reduzido o edifício escolar às tristes ruínas que ora apresenta. Terreno e edifício foram arrematados pela Caixa Geral de Depósitos Crédito e Previdência para ali ser construído um novo edifício, destinado a nele serem instalados os serviços daquele importante departamento de crédito oficial. Porém, passados mais de dois anos e não obstante as visitas do arquiteto encarregado da elaboração do projeto, não se vislumbra o início das respetivas obras de construção civil e o mostrengo, sem outra utilidade, passou a ser a lixeira da vila no qual a população vizinha faz os despejos domésticos e o rapazio a sua preferida instalação sanitária. Temos assim, no topo norte da face da Praça e jardim municipal, uma lixeira eventual onde são despejadas sobras e detritos constituídos por tudo quanto há de mais heterogéneo, nojento e anti-higiénico e a par, do outro lado, em estranha simetria, com a indecente e mal cheirosa instalação sanitária do ridículo jardim do Cardoso. Em pleno coração da Vila, na sua praça principal e a mais bonita, em contraste com as mimosas flores do ajardinado, duas autênticas excrescências, de aspeto nojento, sujo e fedorento, apresentam-se como deplorável limite do topo norte! Por várias vezes solicitamos a atenção do senhor Presidente da Câmara para a necessidade de promover, junto da Caixa Geral de Depósitos, a construção do edifício destinado aos seus serviços, sem que do nosso apelo nada de prático tenha resultado; identicamente temo-nos batido pela remoção do sanitário construído no jardim do Cardoso para outro lugar mais recatado e menos central, com a mesma falta de êxito. Não é ao senhor Presidente da Câmara que agora nos dirigimos, visto que, por esse lado, nada mais temos a esperar, salvo as boas promessas com que aquela autoridade tem sido iludida e frustrada nos seus desejos e solicitações. Desta vez tentaremos a intervenção de uma outra autoridade, do senhor Subdelegado de Saúde, ao qual estão afetos todos os problemas de sanidade concelhia e de saúde pública local. Parece-nos que ao senhor Subdelegado de Saúde compete chamar a atenção e insistir, junto de quem de direito, para aqueles dois focos de infeção, em ordem a provocar o seu aterro e demolição e a sanear os locais em que estão perigosamente implantados. Há que mudar urgentemente o nojento escarro que é o sanitário do jardim do Cardoso e de providenciar para que as ruínas do edifício das antigas escolas Conde de Ferreira deixem de constituir lixeira, de receber os despejos da população adjacente e de servir de sentina do rapazio. A continuação destes dois repugnantes recintos de sujidade, além de apresentar a Vila de Melgaço aos olhos dos visitantes como uma terra de incivilizados e de selvagens, põem em grave risco a saúde da população, em razão de constituir dois focos perigosíssimos de infeção e, quem sabe, a origem de grave epidemia que urge evitar com medidas preventivas. Diz um velho rifão: “mais vale prevenir do que remediar.” No caso vertente a sua aplicação não oferece dúvidas… // F.S.      

   

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1533, de 8/11/1964: «VIDA CARA. // O problema da carestia do custo de vida foi objeto de demorada explanação na conferência de imprensa, convocada por S. Ex.ª o senhor Ministro da Economia, antes da sua partida em visita ao país vizinho. As causas da elevação dos custos dos géneros e mercadorias indispensáveis ao consumo humano são numerosas e complexas, destacando-se de entre elas os excedentes da procura dos produtos, os rendimentos dos investimentos industriais, as despesas militares, a importação, as remessas de fundos dos emigrantes e o volume da entrada de turistas. As exigências e dificuldades da vida moderna requere a adoção do sistema intervencionista, na produção, transformação e distribuição dos bens de consumo, com as consequentes verificações, planificações, intromissões burocráticas e fiscalização ativa, das medidas e disposições decretadas pelos departamentos da organização corporativa. A nossa política abandonou os velhos conceitos da liberdade e enveredou pelos meandros da economia dirigida, subordinada inteiramente ao condicionamento das atividades industriais e comerciais, à limitação da expansão e permuta dos produtos da atividade agrícola. O comércio, encarado na sua função económica, deveria constituir uma operação em ordem a levar as utilidades do produtor ao consumidor acrescidas de um lucro, resultante da diferença entre a compra e a venda dos produtos ou serviços. Esta função é obviamente importante porque valoriza a maior parte dos produtos, adquirindo-os e transportando-os dos campos, das fábricas e nas fontes de produção para os levar aos mercadores, onde a concorrência e a luta de interesses os reduz a valores acessíveis. Ora, o grau de barateamento dos bens de consumo, dentro da economia liberal, era fixado pela concorrência e esta, sujeita à influência salutar da lei natural da oferta e da procura. O dinamismo da vida atual e a complexidade do abastecimento público levou a administração a substituir as leis da concorrência e da luta de interesses por organismos controladores da distribuição, por especialidades de produtos e de fixação dos preços de custo e de venda. É evidente que as causas atrás referidas, dos excedentes da procura dos produtos conduz, diretamente, a outra espécie de comércio, da sua natureza mais complexa – o comércio de especulação – e este, em grande parte, é a origem do alteamento dos preços e portanto do aumento do custo de vida. Temos, assim, um excesso de consumo que determina a procura dos produtos em grau superior às quotas de distribuição fixadas pelos organismos económico-corporativos, e o diferendo dessa procura, a despeito das medidas tomadas pela fiscalização das diversas intendências e dos riscos que comporta, determina o açambarcamento e especulação. Temos como certo que, um maior número de instrumentos de distribuição, interessando mais e mais o comércio local, eliminaria, ou ao menos reduziria, a ganância do lucro exagerado e combateria eficazmente a especulação e os pequenos trusts monopolistas organizados contra os consumidores. Nisto poderiam intervir utilmente os municípios, chamados pelo Bem Público a uma colaboração do género da que indica o Sr. Ministro para a descentralização industrial. A um maior número de agentes distributivos corresponderia uma maior procura de bens de consumo nos centros de produção e uma mais intensa luta de interesses, conducente a uma mais efetiva concorrência e, portanto, à moderação do justo lucro nas transações efetuadas. Exemplificando: temos notado que o comércio das carnes verdes é deficiente e não satisfaz as necessidades da população, por insuficiência de abate e violação das tabelas oficialmente estudadas e estabelecidas. Por outro lado, sabemos que certos indivíduos de reconhecido crédito e competência profissional se propõem abrir ao público novos talhos, em ordem a modificar, se não a terminar as deficiências dos atuais talhantes, tendo sido impedidos no seu bom propósito por virtude da recusa das autoridades ao respetivo licenciamento. Esta recusa de licença para a abertura de novos estabelecimentos não está certa e parece-nos arbitrária e antieconómica. A concorrência, neste caso, consideramo-la salutar visto que originaria uma melhor escolha de gado destinado pelos Serviços Pecuários ao abate, uma maior quantidade de carne à venda durante a semana e um forçado condicionamento tarifário das qualidades expostas, segundo a tabela oficial. Não percebemos onde pretende conduzir-nos estranha recusa a que aludimos, tanto mais quando é certo que, além das vantagens apontadas, o próprio município e o Estado beneficiariam das taxas, licenças e contribuições que oneram, legalmente, os estabelecimentos deste género ou modalidade comercial. Ou não será assim?! Não vemos nenhum inconveniente, antes pelo contrário, de colaborar desta forma na campanha contra o aumento do custo de vida em que o senhor Ministro da Economia está empenhado.» // F.S.         

 

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1534, de 15/11/1964: «PARCA IMPLACÁVEL. // Dobram os sinos a finados… O som cavo das badaladas sobre o bronze anuncia um acontecimento triste. Vestem de crepes os corações dos verdadeiros melgacenses. Está de luto o nosso coração. Morreu o Dr. Henrique da Rocha Fernandes Pinto! Transpôs o pórtico macabro da morte; iniciou a caminhada misteriosa da qual jamais alguém regressou! O Dr. Henrique Pinto, como entre nós era fraternalmente tratado, morreu novo, com sessenta e seis anos apenas, quando tanto havia a esperar da sua inteligência viva e fulgurante, do seu acrisolado amor a esta linda terra, do seu dinamismo construtivo e ativo, da sua grande cultura literária e profissional, e da sua generosa e amiga atuação, dentro do meio social em que viveu. Tolerante, compreensivo e justo, a sua esclarecida inteligência e lúcida visão dos problemas (…) perante a razão dos outros ou conduzia, habilmente, a opinião alheia até ao seu pensamento, pela persuasão e pela argumentação clara e serena, quando seguro do seu ponto de vista. Como colaborador de “O Melgacense”, antecessor do “Notícias de Melgaço”, afirmou-se um crítico distinto e apreciado, tendo os desmazelos e deficiências locais sido objeto de uma campanha construtiva e alegre, em prosa e em versos satíricos, que divertiram os melgacenses chamando-os à realidade dos factos e angariando-lhe grande número de leitores e admiradores. Homem do foro de relevo, patrocinou muitas e importantes questões, nos tribunais da capital, onde se revelou um advogado consciente e probo, operoso e leal, persistente e tenaz, estudioso e sabedor, sempre atento à evolução doutrinária e aos preceitos e normas regulamentares do direito. Teve a felicidade de ver os seus filhos muito bem lançados na vida e desfazia-se em carinhos delicados e amorosos aos filhos dos seus filhos e esposa, que tanto amava. Com o passamento do Dr. Henrique Pinto perdeu Melgaço um dos seus mais altos valores morais e intelectuais, um dos seus mais fervorosos defensores e amigos; encarnando as necessidades imediatas da terra, desenvolveu uma crítica notável ao imobilismo local, instruindo e catequisando com o seu franco sorriso, a sua bonomia prazenteira e a sua cativante sinceridade. A despeito do seu estado de saúde inspirar sérios cuidados e nos deixar vivamente apreensivos na última visita que lhes fizemos, no seu solar da Calçada, esperávamos que ainda desta vez resistisse à gravíssima crise que o matou e envolveu em inconsolável luto, família, parentes, amigos e todos os que tiveram a dita de o conhecerem e com ele conviveram. Querido e bom Amigo! A sua perda deixa no nosso coração um grande vazio, cercado por uma triste grinalda de profunda saudade. Aqui lhe tributamos a dolorosa homenagem da mais sentida despedida e no maior recolhimento, tristeza e emoção, lhe dizemos o nosso comovido e último Adeus.» // F.S.         

 

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1535, de 22/11/1964: «VINHO NOVO. // «Por portaria n.º 20879, de 31 de Outubro último, foi adiada para 1 de Janeiro do ano próximo, em relação aos vinhos da campanha vinícola que vai iniciar-se, a data fixada no artigo (---), do decreto-lei n.º 31565 de --/10/1941. Sendo (…) elevadas as existências nas adegas dos produtores vinícolas da colheita do ano findo de 1963, e tendo em atenção as perspetivas da colheita do ano em curso, muito inferior àquela, o vinho novo não poderá transitar nem ser vendido e exposto à venda nos estabelecimentos da especialidade antes do dia 1/1/1965. A proibição abrange não só os vinhos novos propriamente ditos, mas também a exposição à venda da mistura dos vinhos das colheitas de 1964 com os vinhos da colheita de 1963. Segundo lemos, mercê de vários fatores conhecidos, os vinhos desceram, no início da última vindima, a um nível de preço que na generalidade não compensa a despesa do seu tratamento, colheita e fabrico. De então para cá a cotação dos vinhos pouco oscilou, muito embora se registe uma maior procura, notando-se mesmo uma ligeira tendência para a subida, o que de certo modo vem colocar num plano mais animador a valorização dos vinhos novos. Esta tendência poderá deixar de acentuar-se em virtude da deficiente fermentação, resíduos sacarinos e acidez volátil dos vinhos novos, cuja vindima foi feita em geral sob um tempo variável, antes ou depois das chuvadas, os quais, não sendo convenientemente tratados, oferecem um magnífico ambiente bacteriano e consequentemente um meio favorável ao desenvolvimento da “volta”; a periculosidade desta situação levará os vinicultores a desfazerem-se dos seus vinhos antes que a doença, a fartura e a má qualidade origine dificuldades na sua comercialização. Ao que nos foi dito, a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes aconselha os produtores a não se precipitarem, contribuindo com o pânico para um mais acentuado aviltamento de preço do vinho e promete intervir, pelos meios ao seu alcance, para a normalização dos preços, fomentando o armazenamento, exportação e a destilação, em condições aceitáveis. Uma coisa é certa: os perigos e riscos da venda dos vinhos da atual colheita, à compita com a venda dos vinhos da colheita anterior, ou a mistura de vinhos de ambas as colheitas, antes de 1/1/1965, determina a aplicação de coimas e vexames pelas respetivas brigadas de repressão. No interesse dos viticultores há que pugnar pelo esgotamento dos vinhos velhos antes da venda dos vinhos novos. É óbvio que a venda dos vinhos novos prejudica a venda dos vinhos velhos, porque estabelece uma concorrência desleal e perigosa e cria nos apreciadores o gosto e o hábito de preferirem aqueles. Bem sabemos que nas casas de venda de vinho ao copo se fornece vinho novo há muito tempo, quase imediatamente ao termo das vindimas, mas esta prática, além de nociva à saúde dos clientes em razão da falta ou insuficiência do desdobramento e correção do produto, está sujeita a pesadas multas que nenhum comerciante deseja. No nosso concelho ainda há, em regime de manifesto, mais de uma centena de pipas de vinho velho e, apenas este, deve ser objeto de comercialização e venda ao copo nas tabernas. Há que ter isto em consideração antes que a repressão imponha a situação legal e determine, a par das multas, a selagem das vasilhas e apreensão dos vinhos expostos à venda. Por agora nada mais temos a dizer quanto à ilegalidade da exposição à venda de vinhos da colheita deste ano. As brigadas de fiscalização e de repressão não deixarão de visitar, dentro de breves dias, este concelho e de proceder em conformidade do que determina a portaria n.º 20879. Não queiramos dar o mau exemplo de viver à margem da lei. Aos viticultores cumpre regularizar os seus manifestos, afeiçoando-os às exigências reais quanto aos vinhos novos, determinar-lhes o grau de acidez volátil e torna-los conserváveis, corrigindo a densidade por meio de verificação periódica e esperando a eliminação do açúcar residual de teor acima do normal, responsável pela sua desfavorável conservação. Os vinhos mal fermentados devem ser tratados pelo sulfuroso em doses de três a cinco gramas por hectolitro e a densidade pelo ácido tartárico, fazendo descer o ph a 3,4. Perder os vinhos por falta de cuidado, abandonando-os à sua sorte, é esquecer os trabalhos e o volume dos gastos desde a nascença até ao envasilhamento. E hoje, semelhante desleixo não é admissível. // F.S.         

 

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1536, de 6/12/1964: «RESTAURAÇÃO. // Com a perda do jovem rei D. Sebastião, na batalha de Alcácer Quibir, desastrosa aventura a que o moço monarca foi arrastado pelos seus ardentes ímpetos juvenis e pelos maus conselhos de alguns imprudentes e exaltados cortesãos, surgiu o gravíssimo problema da sucessão e, consequentemente, da garantia da independência de Portugal. Aclamado o cardeal D. Henrique, com 66 anos de idade, sem quaisquer simpatias e sem probabilidades de descendência direta, de entre os próximos sucessores apresentou-se como o mais ativo pretendente ao trono o rei de Espanha, D. Filipe II, que veio a ser o 1.º Filipe da nossa História. O Diabo do Meio-Dia, como na Europa foi conhecido, não perdeu tempo na preparação da sua aclamação visto que, após a morte do rei “Desejado” mandara a Portugal como seu representante, e delegado, o traidor português Cristóvão de Moura, desde há anos ao seu serviço pessoal. A ação deste português degenerado em ordem a criar adeptos para Castela foi enorme e, como hábil agente de Filipe II, serviu-se largamente da intriga, de promessas rendosas e do suborno para conseguir, como conseguiu, a adesão de fidalgos, clérigos e jurisconsultos à causa do rei de Espanha. Receoso do agente de Castela, o velho cardeal decide reunir as cortes de Lisboa e de Almeirim, onde Febo Moniz declara que a escolha do rei pertence ao povo e violentamente protesta contra a nomeação de um rei estrangeiro. Entretanto morre o cardeal, seguindo-se o interregno que concluiu pelo inevitável, não resultando a aclamação em Santarém de D. António, prior do Crato, e Filipe II de Espanha é jurado rei de Portugal nas Cortes de Tomar. Assim terminou o período da decadência que rematou pela perda do nosso país como nação independente e a sua entrega a um soberano estrangeiro. À felonia e à traição de alguns aristocratas manobrados por Cristóvão de Moura e alentados pela dúbia atitude de um rei débil e velho, durante sessenta horríveis anos a nossa pátria ficou submersa no escuro do fero jugo do domínio espanhol. Só passados esses tristes anos de sujeição, com Cristóvão de Moura Governador de Portugal e o título de vice-rei, grande parte da nobreza e do clero estadeando a sua miserável traição na corte de Madrid, é que outros fidalgos, estes bem portugueses, com o concurso da massa popular, decidiram, numa gloriosa manhã, acabar com o pesado e ignóbil jugo estrangeiro e redimir a pátria, imolada às ambições, ao suborno e às benesses fartamente alimentadas e distribuídas pelo poderio e o ouro castelhano. No passado 1.º de Dezembro comemorou a gente portuguesa os 324 anos que nos separam dessa ignominiosa data e em patrióticas manifestações revelou inteira compreensão de quanto vale um povo, livre da tirania e da dominação dos que não são da sua raça. O governo dos Filipes jamais conseguiu dominar a alma do povo e sem povo não é possível governar.

      Congregados em volta de D. João, Duque de Bragança, os conspiradores de D. Miguel de Almeida, D. Antão Vaz de Almada, D. António de Mascarenhas, Jorge Melo, Pero Mendonça, Padre Nicolau da Maia, o Juiz do Povo, a gente da Casa dos 24, D. Rodrigo da Cunha, João Pinto Ribeiro e outros, conseguem estabelecer o plano da Revolução que restituiu a independência à pátria e deu realidade às admiráveis palavras de D. Luísa de Gusmão quando junto de seu marido vaticinou: “mais vale morrer reinando do que acabar servindo.” Os conjurados, divididos em dois grupos, vencem a resistência da guarda palaciana e descobrindo dentro de um armário o cobarde e tirano Miguel de Vasconcelos, valido da condessa de Mântua, prendem-no e atiram-no por uma janela ao Terreiro do Paço, onde o povo vibrava de entusiasmo aos gritos de “Viva a Liberdade”. Com a detenção da duquesa de Mântua estava ganha a revolução e, ao fim da tarde, a normalidade em Lisboa era completa. O movimento restaurador foi o heroico contributo de valentes portugueses, fidalgos, clero e povo, e de nobres mulheres, simbolizadas em D. Filipa de Vilhena e outras, que armaram seus filhos cavaleiros para a gloriosa Revolução Nacional. Bem anda a mocidade das escolas em festejar ruidosamente esta data sacrossanta, a mais bela da nossa história, pois que simboliza e representa a vontade indomável de um povo, que não se submete a tiranos, nem a carrascos, e que confia na eternidade da pátria livre.» // F.S.   


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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1537, de 13/12/1964: «A CAPELA DO CEMITÉRIO. // Data de alguns anos a deterioração do teto da capela do nosso cemitério municipal sem que da parte de quem compete se tenha providenciado, ou tomado quaisquer medidas, em ordem a reparar e a esconder aquela vergonha. Por dever piedoso temos acompanhado ao cemitério muitos melgacenses nossos amigos e conhecidos que cessaram a sua missão na vida e iniciaram a ignota caminhada da qual jamais alguém regressou. O recinto destinado pelos homens a sepultar os seus semelhantes é naturalmente um local triste, onde os vivos entram com respeito e emoção, possuídos de um vago sentimento que, independentemente dos sentidos, dá a conhecer as suas sensações internas. Ali apodrece e se reduz a nada o invólucro material dos entes queridos e lá se perpetua a memória daqueles que o nosso coração recorda com pungente saudade. No alinhamento das sepulturas, jazigos e cenotáfios erigidos à sombra protetora da cruz, o nosso olhar percorre, com infinita amargura, as campas e os monumentos que marcam a passagem dos mortos e os nossos lábios ciciam, baixinho, sentidas orações pelo seu eterno descanso. À nossa lembrança afloram tristes recordações dos que nos pertencem por laços de sangue, e de sentimentos de amizade, e o nosso espírito sublima-se para além da ruína física dos que ali evocam o martírio da nossa alma dorida e aguardam o Juízo de Deus. Porém, a par da saudade e dos pensamentos profundos que dominam o nosso espírito, sempre que entramos no recinto sagrado onde repousam os nossos parentes e amigos, um outro sentimento se revela de ordem exterior, que afeiçoa o sentido da vista às decorações floridas que perfumam e engalanam as lápides tumulares. // As flores, os arbustos e os esmerados cuidados de conservação e alindamento dos túmulos e mausoléus, tornam menos sombria e menos triste a última morada em que a vida se encerrou e onde estão sepultados os entes que tão caros nos foram. Esta pobre homenagem prestada aos que aguardam as reações químicas da decomposição; este contraste entre a alegria, a beleza das plantas e a tristeza das lousas tumulares; este alindamento das sepulturas carinhosamente tratadas interior e exteriormente pelas mãos piedosas dos vivos, realça a monstruosidade da capela erigida ao cimo da avenida central, onde Cristo crucificado preside aos responsos em honra dos que são abatidos no livro do destino. No aspeto exterior, uma ligeira limpeza e o branqueamento das negras paredes, tornaria mais acolhedora a merencória ante câmara dos mortos e um conjunto de obras interiores inadiáveis e indispensáveis daria à casa de Cristo um asseio digno do seu amor pela humanidade e do significado dos atos litúrgicos dos serviços religiosos. É revoltante e desprestigiante o estado a que deixaram chegar o teto da capela, em que hediondos buracos quase ocultam as superfícies lisas e descobrem o telhado em ruína, incapaz de vedar as águas pluviais e constituindo uma ameaça perigosíssima de desmoronamento e de derrocada, suscetíveis de atentar contra a imunidade dos cadáveres e da segurança dos acompanhantes. A capela, como o cemitério, está sob a administração municipal e à nossa Câmara compete olhar pela sua conservação e beneficiação. Não é legítimo nem decente deixar cair aos bocados o templo, na convicção de que os mortos não reclamam, os vivos se mantêm indiferentes às reparações de ordem material e a imagem de Cristo se mantém inerte, sobre o madeiro da cruz, de sangue derramado na face, a assistir de olhar melancólico às tropelias e ingratidões dos homens pelos quais sofreu e morreu. Sabemos que a Câmara já tem verba orçamentada para as obras que a capela exige e a dignidade dos edis e a segurança pública impõe. Será desta vez? Assim o esperamos.» // F.S.           

 

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1538, de 20/12/1964: «1964 NATAL. // Tudo se prepara para receber vivamente a visita do simpático barbaças do Pai Natal que, de botas (…) de cano alto e (…) encarnado à moscovita (?), orlado de arminho alvinitente, descerá pela abertura da chaminé para anunciar a boa (…) do Orto e deixar o seu cartão de Boas Festas. Neste ano, como nos outros anos, os nossos lares serão iluminados pela luz reveladora do mistério da vida que enche de esperança as almas e liga a humanidade por generosos sentimentos de simpatia, de ternura e de amor fraternal. A festa de natal não é uma festa como as outras; crianças e adolescentes, adultos e velhos, estremecem de comoção e de comunicativa alegria e a ceia em comum (…) e aperta por indissolúveis laços os ramos saídos do comum tronco e deixa no rastro das nossas existências uma recordação forte que jamais se apaga. Quem se esqueceu das ricas representações dos presépios, da missa do galo, à meia-noite, da árvore do natal armada dentro dos lares, profusamente iluminada, de onde pendem brinquedos e prendas que enchem de alegria e de alvoroçada curiosidade a petizada e imprime uma nota única de carinho e de amor familiar, de excecional boa disposição e de inapagável lembrança em novos e velhos? E quantos de nós não esperaram confiantes o alvorecer do dia 25 para procurar nas cinzas quentes da lareira, ao canto da chaminé ou do fogão, as oferendas do Menino Jesus ou do Pai Natal, depositadas no sapatinho que os nossos sonhos infantis nos levaram ali a depor, na esperança de ver satisfeitos os anseios realizados?! Na véspera da natividade do Senhor, dia de Consoada, as nossas alegrias íntimas recordam-nos que todos somos irmãos e que a tolerância e a fraternidade humana desenvolve no nosso coração sentimentos de benevolência, de generosidade, e de piedade pelos que sofrem e olham o futuro com descrença e com pouca fé. E porque o dia de natal se reveste de um alto significado para toda a humanidade, aproveitemos a acalmia desta quadra festiva para dar uma achega à construção do edifício da paz e com sincera e devota amizade desejar a todos os homens de boa vontade uma era de felicidades, de sossego e de fraternidade. O cartão de boas-festas do Notícias de Melgaço tem o som de um clarim de modo a ser ouvido por amigos e inimigos, simpatizantes ou adversários, isentos ou apaixonados, aos quais a todos deseja um feliz natal e que em seus lares haja paz, bondade e prosperidade.» // F.S. 

 

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1539, de 27/12/1964: «PELO HOSPITAL. // Todos os hospitais do país, sejam do Estado ou sob a administração direta de Misericórdias, têm prestado um serviço, mais ou menos perfeito, de socorros individuais, servido por um corpo clínico devotado e pessoal de enfermagem especializado. Chamam a este serviço hospitalar “o banco” e a ele recorrem quantos têm necessidade de um tratamento urgente, a qualquer hora do dia ou da noite. Nas cidades, onde os serviços do “Banco” estão primorosamente montados, com médicos e enfermeiros atentos, esforçados e competentes, o movimento de doentes é enorme, em virtude do número de acidentes e lesões orgânicas inesperadas, de ferimentos resultantes de rixas, de desastres de viação, etc., e as ambulâncias gritam constantemente os “claxons” (sirenes ou buzinas) lúgubres, em doidas correrias através das ruas, no transporte de doentes ao “Banco” do hospital. Ali, depois de um exame mais ou menos superficial, e de um primeiro curativo, o doente recolhe à sua casa por se tratar de caso de menor importância ou fica internado na enfermaria respetiva em caso considerado grave. De qualquer forma, o doente é cuidadosamente examinado e medicado, ou simplesmente tratado, em caso simples de desinfeção e tratamento ligeiro a cargo do pessoal de enfermagem. Mas não sai do “Banco” do hospital sem um primeiro e adequado tratamento, o que está ao alcance do mais tosco bestunto. O doente que procura o “Banco” tem necessidade de recorrer aos seus serviços ou, de contrário, não incomodaria o ripanço das enfermeiras de serviço e, como é óbvio, não iria lá para regressar pelo mesmo caminho sem qualquer tratamento e alívio das suas dores ou sofrimentos. No nosso hospital parece que as coisas se veem por outro ângulo, por um prisma diferente do que é geralmente adotado pelos outros hospitais. Vem isto a propósito de um caso passado há dias, com as queimaduras provocadas por água fervente na face de um empregada, servente em casa de um dos beneméritos do nosso hospital e seu mesário, quando inadvertidamente tentava tirar determinado molusco de uma panela de pressão. Pois a referida empregada, de nome Augusta Nazaré Táboas, tendo sofrido queimaduras na cara e, naturalmente, aflita com dores, recorreu ao nosso hospital para ali lhe fazerem um primeiro tratamento que, aliás, se limitaria a uma conveniente desinfeção primitiva e, possivelmente, a qualquer outro de efeitos análgicos. Recebida pelas senhoras que ali desempenham, devida ou indevidamente, funções de encarregadas de enfermagem e vigilantes do “Banco”, estas, depois de revelarem total insensibilidade, praticaram a crueldade de a despedirem sem lhe fazerem tratamento, informando-a de que o senhor Doutor sabia de uma pomada já experimentada com bons resultados! Qual doutor? Esta indicação foi dada em abstrato; do hospital o caminho mais curto é o da farmácia local onde se dirigiu e lhe venderam, efetivamente, uma pomada qualquer que lhe fez bem! Está isto certo?! Então as chamadas enfermeiras, vigilantes ou lá que demónio são, negam os seus serviços aos doentes que ao hospital recorrem e despedem-nos para um hipotético doutor a quem, nem ao menos, chamam pelo nome de batismo?! Temos outro caso relativo a uma dentada canina, mas esse fica para um próximo comentário. Por agora, perguntamos ao reverendo provedor e restante Mesa, se aprovam esta estranha atitude das responsáveis pela vigilância do hospital?! Como bilhete de passagem, para um outro mundo, não conhecemos nada melhor. Os doentes devem ser tratados quando ali acorrem e, no caso de exigirem a presença do médico, a elas cumpre reclamar a sua presença e não despedi-los barbaramente!» // F.S.      

  

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1540, de 3/1/1965: «NOVO ANO. // A marcha intérmina do tempo marcou mais uma etapa na vida humana. O ano de 1964 passou à história, encerrou o seu ciclo sem grandes saudades, mas também sucessos violentos e estremeções catastróficos. No dealbar de 1965, que iniciou o seu percurso no dia consagrado à Fraternidade Universal, há palavras a formular e esperanças a acrescentar a todos quantos nos leem. A toda a humanidade que se espalha e vive freneticamente no planeta terrestre, em luta incessante de aspirações, justas ou não, de anseios possíveis ou irrealizáveis, de ambições políticas ou sociais, de conflitos económicos ou ameaças de guerra, caberia bem ouvir e aprender o verdadeiro significado e o valor precioso e inesperado do conceito da Paz, ditado a todos os homens de boa vontade, de espírito bem formado e bafejados por sentimentos de bondade e de amor. A toda a humanidade cabe o dever de afastar para longe a ventania do desentendimento e da supremacia da força e proclamar a compreensão e a discussão pacífica dos problemas que dividem os povos e atentam contra a sua tranquilidade e cooperação geral. No momento em que os homens justos meditam no futuro da humanidade e em que generosamente, alheios a raças e a credos fazem preces pelos que gemem a dor e a miséria da vida; na hora em que os homens se sublimam à radiosa força da verdade e da justiça e dignificam a sua existência considerando e tomando como conceito indiscutível que o homem é irmão do outro homem, temos de confiar no futuro, confiar e pugnar no futuro que a Declaração Universal dos Direitos do Homem proclamou e o seu preâmbulo confirma: «O respeito pela dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis, constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no Mundo; o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a atos de barbárie que subverteram a consciência da Humanidade, e que o advento de um mundo futuro onde os seres humanos sejam livres para falar e crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta aspiração do homem; é essencial que os direitos do homem sejam protegidos por um regime de direito para que o homem não se veja obrigado em último extremo a revoltar-se com a tirania e opressão; é essencial fomentar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; é de considerar que na carta dos povos das Nações Unidas foi proclamada de novo a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e valor da pessoa humana, na igualdade dos direitos dos homens e das mulheres, e que se declaram resolvidas a favorecer o progresso social e instaurar melhores condições de vida dentro de uma maior liberdade; é ainda de considerar que os Estados membros se comprometeram a assegurar em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efetivo dos direitos do homem e das liberdades fundamentais; é também de considerar que uma conceção comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para obter plenamente esse compromisso e se declarou como ideal comum a alcançar para todos os povos e nações a fim de que todos os indivíduos e órgãos da sociedade, tendo constantemente no espírito a Declaração Universal dos Direitos do Homem, se esforcem por meio do ensino e da educação, por desenvolver o respeito dos direitos e liberdades a assegurar, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e aplicação universais e efetivas, tanto entre os povos dos Estados membros, como dos territórios coloniais sob a sua jurisdição. Que mais será preciso que a rigorosa aplicação dos salutares princípios da Declaração Universal dos Direitos do Homem à qual Portugal deu o seu concordo e assinatura, para que no novo ano em curso instauremos a Justiça Social e o aniquilamento dos ódios racistas, políticos, económicos e o espírito de agressividade, em ordem a transformarmos o átomo, as crenças, as aspirações, os anseios, as ambições e todos os diferendos humanos em uma obra comum de Paz, de Igualdade e de Fraternidade?!» // F.S.  

 

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1541, de 17/1/1965: «ALOJAMENTO DE EMIGRANTES. // Em extensos e bem elaborados relatórios as autoridades francesas e agentes da Ação Social têm tratado o problema do alojamento dos trabalhadores estrangeiros estudando as suas causas e propondo algumas interessantes soluções em ordem a reduzir ou eliminar, por escalonamento, a vergonha e a miséria dos bairros de lata, construídos na ilharga da sua capital. Nesses bairros, conhecidos por “bidonvilles”, vivem na mais torpe promiscuidade os portugueses emigrados que fornecem a mão-de-obra aos empreiteiros e às empresas de construção civil francesas, contratadas para erigir prédios de habitação, comerciais e industriais, incluídos nos respetivos planos de urbanização. Uma das maiores dessas cidades de lata (bidonvilles) situa-se em Champigny, encruzilhada da emigração lusitana, onde estão acampadas dez mil pessoas, portuguesas de origem, sem as mínimas condições de higiene e de conforto, em plena promiscuidade de sexos e de miseráveis condições de alojamento e de assistência moral e social. A comunidade portuguesa é tida em França como um dos núcleos de trabalho estrangeiro menos exigente, sujeitando-se a acampamentos imundos, sem, ou com, deficientíssimas instalações sanitárias, o mesmo sucedendo com cozinhas e dormitórios; as comunidades portuguesas e italianas… // A maior parte destes emigrantes oferecem uma mão-de-obra relativamente barata e realizam um trabalho duro, em execução e em horário, gastando as suas melhores energias e lesando a saúde física, na mira de amealharem um pecúlio razoável que lhes permite estabelecer vultuosas pensões à família, dando-lhes a ilusão de um alto nível de vida, de que esta é a primeira a interpretar mal e a exibir nas terras de sua naturalidade e aqueles, a esbanjar imoderada e inconscientemente, nos curtos períodos de visita à terra bem-amada, esquecidos dos sacrifícios feitos para o ganhar e juntar… Pois, a despeito dos enormes sacrifícios do nosso emigrante, da ilusória prosperidade que aparentam, inclusive de um trem de vida que já nem o automóvel dispensa, o seu reingresso nos locais de trabalho faz-se nas mesmas condições de desconforto e de miséria física onde a existência continua, a doença mina e os francos chovem. Mais previdente, a Sociedade Nacional de Construções para os Trabalhadores Estrangeiros (SONACOTRA) que, como é evidente, tem interesse em velar pela resistência física dos seus operários, propõe-se construir uma camarata-hotel, nos terrenos de uma comuna limítrofe, nas proximidades de Champigny e estuda a possibilidade de colocar alguns dos três mil apartamentos atualmente em acabamento à disposição de famílias portuguesas suficientemente evoluídas. Outra camarata de duzentas e cinquenta camas para celibatários e quarenta e sete habitações familiares vão ser construídas num terreno de cerca de um hectare, na Rue du Docteur Bring, antigo caminho de La Land, pelo F.A.S. (Fundo de Ação Social para o Alojamento dos Trabalhadores Estrangeiros). A França está disposta a examinar a situação dos núcleos portugueses de trabalho, as condições físicas, morais e sociais em que atualmente vegetam, agora que a mão-de-obra lusitana já pode entrar legalmente ao abrigo do acordo estabelecido entre os dois países. A Prefeitura do Sena marcou para o dia quinze uma reunião de trabalho consagrada ao problema do estágio dos portugueses no belo país gaulês, em especial destinada a acabar de vez com os vergonhosos “bidonvilles” de Champigny. Os nossos emigrantes serão, desta forma, parcialmente beneficiados, adquirindo alojamento condigno à sua condição humana. É evidente que tão numerosa colónia de emigrantes não pode ser rapidamente dotada de quarto e habitação sendo certo que esta será distribuída, em primeiro lugar, às populações mais evoluídas. Mas as medidas que aquelas Organizações se propõe tomar muito contribuirão para a valorização física do nosso emigrante e para o estabelecimento de um melhor clima moral e social. É com a maior satisfação que registamos a melhoria da situação que se aproxima e todos teremos de agradecer à grande e generosa nação que proclamou os mais altos ideais de liberdade e fraternidade e que, depois de assegurar a manutenção dos nossos trabalhadores, se esforça por tornar mais digna e mais justa a sua situação residencial.» // F.S.       

 

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         Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1542, de 24/1/1965: «PISTA DA MORTE. // Já em tempos abordamos o problema do excesso de velocidade dos veículos motorizados que utilizam a faixa de rodagem da Rua do Rio do Porto como autêntica pista de corridas e de provas desportivas as quais, cedo ou tarde, terminarão por gravíssimos desastres de viação e, possivelmente, com a morte dos atropelados. Não há dúvida de que a Rua do Rio do Porto, sobretudo no troço que vai da pensão do senhor Manuel Alves até à estrada nacional, depois de um forte declive entra numa curva perigosa, sem visibilidade e estreita, que se presta aos mais inesperados acidentes e não permite velocidade superior àquela que o Código das Estradas estabelece para os veículos em trânsito dentro das povoações. Os veículos que esta artéria utilizam: caminhões, caminhetas, autos ligeiros, motos, “cociolos” (lambretas), bicicletas, etc., entram na rampa com grande velocidade que a inclinação da própria ladeira aumenta, parecendo levar tudo na sua frente, sem o mínimo cuidado e respeito pela segurança alheia, de peões e dos que caminham em sentido contrário. Sucede até que os autores destas criminosas e loucas correrias, não raras vezes, encontram estacionados no começo da curva, junto à oficina de ferreiro que ali está estabelecida, um ou mais veículos que vedam ou estreitam, demasiadamente, a faixa de rodagem, tornando perigosíssimas as manobras da ultrapassagem. Só por estranho acaso, ou pela vigilância e proteção de Deus, não se registaram ainda desastres graves, tanto resultantes de colisão entre os veículos mecanizados como de atropelamento de peões, sobretudo das crianças que normalmente passam na referida rua a caminho das suas casas, vindas da escola, ou de qualquer recado ou missão de que as mães as encarregam. Porém, Deus não está sempre atrás da porta a velar pela segurança alheia e o acaso, é… o acaso e, por isso mesmo, meramente acidental. Temos a impressão, até mesmo o pressentimento, de que alguns acontecimentos lutuosos estarão para suceder, agora que o trânsito aumentou desmedidamente com os carros ligeiros guiados por rapazes nossos conterrâneos regressados de França, com deficiente prática de condução, e por furgonetes e outros veículos de feirantes e proprietários inexperientes, com cartas de fresca data. Não é por injustificado receio que damos este alarme, mas com a plena convicção de que se torna urgente remediar os perigos apontados, adotando as medidas preventivas e repressivas legais que estão em uso nas outras povoações, com bons ou, pelo menos, satisfatórios resultados. À Câmara e à G.N.R. compete aprovar e pôr em execução as necessárias providências. À primeira, aprovando a indispensável postura municipal sobre a sinalização das vias públicas em referência, com caráter permanente, por forma bem visível e a distância que permita evitar qualquer acidente e no qual se indique o sentido do percurso e a velocidade máxima, de harmonia com a intensidade do tráfego e do que dispõe sobre o assunto o Código da Estrada. À segunda, é das suas atribuições e competência a fiscalização da referida postura e o levantamento dos autos para punição dos infratores. Para este assunto que reputamos urgentíssimo resolver, chamamos a boa atenção do senhor Presidente da Câmara e antecipadamente lhe prestamos os nossos agradecimentos em nome da população da Rua do Rio do Porto e dos melgacenses que normalmente ou acidentalmente por ela transitam. É preciso [e absolutamente indispensável], que aquela artéria deixe de ser pista de corridas de velocidade, de correrias de loucos sem noção de responsabilidades, de exibições espetaculares e estúpidas, de incapazes armados em ases do volante e, talvez, em pista da morte para quem por ali passar pacificamente a tratar da sua vida.» // F.S.   

   

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1543, de 31/1/1965: «MORTE DO GIGANTE. (Winston Churchill). // NOTA: em virtude de este artigo, embora interessante, não tratar de assuntos do concelho de Melgaço, resolvi não o inserir neste livro.   

                  

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     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1544, de 7/2/1965: «SUBORDINAÇÃO OU INDEPENDÊNCIA?! // O egoísmo dos responsáveis pelas atividades comerciais de Melgaço, a sua desconfiança da vida coletiva, e o horror à disciplina, à unidade e à orientação comum, criaram no mais importante setor da vida económica uma situação subordinada e, na verdade, muito estranha e deprimente, à qual julgamos que é tempo de pôr termo. Não sabemos como, nem porquê, compreendeu-se no âmbito do Grémio do Comércio do vizinho concelho de Monção a disciplina das atividades comerciais do nosso concelho, isto, ao que parece, em virtude dos comerciantes não se terem agrupado e requerido, como seria lógico, a constituição do seu Grémio concelhio. Em resultado desta desprestigiante subordinação o setor comercial do nosso concelho foi obrigatoriamente agremiado no Grémio do Comércio de Monção que processa e cobra os respetivos recibos em nome do “Grémio do Comércio de Monção e Melgaço”, em quanto que a placa indicativa da respetiva sede social menciona, ostensivamente, “Grémio do Comércio de Monção”. Quer dizer: para receber as quotas dos associados, ou agremiados, o grémio é de ambos os concelhos, em quanto que para assinalar o edifício da sede social é apenas e tão-somente dos nossos vizinhos! Está isto certo? Parece que sim, visto que Melgaço se manteve à margem da organização corporativa do seu comércio e se deixou integrar, sem protesto ou reparo, no Grémio de Monção! Nos termos do decreto-lei n.º 24715, de 3/12/1934, que institui o regime jurídico da organização facultativa das atividades comerciais, a organização corporativa destas, quando não se efetue ao abrigo do disposto no decreto-lei n.º 13049 (?), de 23/9/1933, pode realizar-se por iniciativa dos interessados que exerçam a sua atividade no mesmo ramo de comércio, desde que se agrupem em termos de reunir, pelo menos, 30% (?) do número total das formas existentes no seu concelho e representem 50% pelo menos do valor médio das transações dos respetivos ramos na área concelhia. A constituição do Grémio é requerida a S. Ex.ª o Ministro das Corporações por intermédio do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência Social, usará a denominação de Grémio Concelhio do ramo respetivo e o valor médio das transações será calculado pelos quantitativos fixados nas Secções de Finanças para fins de tributação fiscal nos últimos dois anos. A sede do Grémio será instalada na sede do concelho em edifício arrendado para tal fim, que reúna as necessárias condições. Estes grémios são considerados como elementos primários da Organização Corporativa da Nação, instituída no Estatuto do Trabalho Nacional e na Constituição Política da Nação, gozarão de personalidade jurídica, representam todos os elementos do mesmo ramo de comércio, estejam ou não inscritos, ajustam os contratos coletivos de trabalho, tutelam os interesses que representam e no que respeita a ação técnica e económica, devem observar a orientação traçada pelo Governo ou dos vários Ministérios aos quais incumbe ordenar superiormente as atividades económicas. Os estatutos, depois de aprovados, serão publicados no Boletim do Instituto Nacional do Trabalho e conterão, obrigatoriamente, as disposições estabelecidas no cap. IV do art.º 14.º do decreto-lei n.º 24715, já citado, sendo a direção eleita em Assembleia Geral dos agremiados eleitores até fins de Janeiro do ano em que a eleição se deva realizar. Temos para nós por indispensável e urgente terminar com mais esta anómala subordinação de Melgaço ao concelho de Monção, por a considerarmos incongruente, desprestigiante e fora de toda a razão. Já que os melgacenses tem por norma, ou não tratar ou tratar tardiamente dos assuntos do seu interesse individual ou concelhio, os elementos constitutivos do setor comercial, como sócios fundadores, em número e importância económica legalmente suficiente, acompanhados dos meios de prova necessários e de dois exemplares dos estatutos, em papel selado, deveriam pedir a constituição do seu Grémio e adquirir a independência que a importância, o progresso e o valor do seu comércio justificam. Ao tratarmos deste magno problema de indiscutível interesse local mantemo-nos, como sempre, na primeira fila dos defensores de tudo quanto é de direito e legitimamente interessa ao concelho, e não deixaremos sem reparo e sem protesto esta triste sina da falta de bairrismo pelo que é nosso que conduz em linha reta aos interesses e prestígio dos nossos previdentes vizinhos. Diga-se de passagem que Monção não tem culpa: a culpa, a verdadeira responsabilidade, cabe aos melgacenses.» // F.S. // continua...  

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