sábado, 12 de janeiro de 2019


Joaquim A. Rocha

 
MELGAÇO:

PADRES, MONGES E FRADES

 


 
 
 
*
 
 
Edição de autor

 

Ficha técnica

 

Título: Melgaço: Padres, Monges e Frades

 

Autor – Joaquim Agostinho da Rocha

 

Capa – desenho de Luís Filipe Gonzaga Pinto Rodrigues

 

Desenhos – Luís Filipe Gonzaga Pinto Rodrigues

 

Execução gráfica –

 

Tiragem –

 

Depósito legal –

 

ISBN –

 

Data de edição – Janeiro de 2019

 
Correio eletrónico: joaquim.a.rocha@sapo.pt

Blogue: Melgaço, Minha Terra

 Telemóvel: 965815648

 

Obras do autor


Obras a publicar




 

Poemas do Vento

Sonetos do Sol e da Lua

Quadras ao deus dará

Escritos Sobre Melgaço

Entre Mortos e Feridos (romance)

Lembranças Amargas (romance)

Gentes de Melgaço: A a Z (biografias)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

A Minha Vida em Imagens

A minha religião e outros escritos

Auto da Palina

(Frágeis Elos (2.ª edição) 

 

Obras publicadas

 

Livros

 
Frágeis Elos (uma história familiar)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço (I e II volumes)

Lina – Filha de Pã (romance)

Os Meus Sonetos e os do frade

(Os Novos Lusíadas  - 2018)

Melgacenses na I Grande Guerra

(em parceria com Walter Alves)

 

Separatas

 

A Origem de Algumas Famílias Melgacenses

A Febre Tifoide e os seus Protagonistas

Tomás das Quingostas (200 anos do seu nascimento)

A Provável Origem de Melgaço e Paderne

 

Prefácios nos seguintes livros de José A. Cerdeira e do Dr. Augusto César Esteves:

 

Tomaz das Quingostas (JAC)

O Buraco da Serpe (JAC)

A Adversidade por Madrasta (JAC)

O Sonhador dos Montes da Aguieira (JAC)

               Nas Páginas do Notícias de Melgaço (ACE)

 

Colaborações

 

No Boletim dos Serviços Sociais da CGD

No Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço

No jornal «A Voz de Melgaço»

No jornal «Fronteira Notícias»

Artigo sobre o santuário da Peneda no livro Lugares Sagrados

 de Portugal I, editado pelo Círculo de Leitores em 2016.

  

 

 

 

Introdução

 

    A igreja católica já tem muitos séculos de vida, mas no sítio chamado Melgaço deve-se ter instalado, salvo erro, na segunda metade da Idade Média. Como o país designado Portugal surgiu no século XII, e Melgaço já dele faz parte, será a partir desse século XII que eu incluirei os padres que aí exerceram a sua atividade. No entanto, temos de ter em conta que primeiro surgiram os mosteiros, antes da nacionalidade, mas até esses, o de Fiães e o de Paderne, foram construídos em terrenos pertencentes ao condado portucalense e mais tarde (em finais do século XII, salvo erro) ao termo de Valadares, com o estatuto de coutos, estes com os seus imensos privilégios. Diz-se que os seus abades eram senhores poderosos, com muita autoridade, seja na área da justiça, seja no espiritual. Somente no século XIX, devido a uma grande reforma administrativa, é que essas duas freguesias (Paderne e Fiães) passaram a pertencer ao termo de Melgaço, aumentando o pequeno concelho, de apenas oito freguesias, para dezoito: Alvaredo, Castro Laboreiro, Chaviães, Cousso, Cristóval, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Paderne, Paços, Parada do Monte, Penso, Prado, Remoães, Rouças, São Paio, Vila (SMP). Quanto ao convento dos franciscanos, dedicado à Senhora da Conceição, sito no lugar das Carvalhiças, SMP, esse foi fundado já no século XVIII, a pedido de alguns melgacenses. Todos eles foram encerrados a 30/5/1834, por um decreto de Joaquim António de Aguiar (o Mata Frades), assinado pela rainha D. Maria II.

     As freguesias, ao longo dos anos, tiveram de se ir organizando, construíram-se igrejas e capelas, alojamento para os sacerdotes, enfim, criou-se o mínimo de condições para que os religiosos conseguissem sobreviver e trabalhar no seu múnus com alguma dignidade. A côngrua (imposto que, por meio de contribuição ou derrama paroquial, se dava a curas e párocos para viverem, nas freguesias onde não havia os dízimos eclesiásticos) ia dando para o dia-a-dia, mas nas freguesias mais pobres os párocos passavam algumas necessidades, valendo-se quantas vezes do recurso a uma horta, que cultivavam, ou alguém por eles, para compensarem a falta de dinheiro a fim de comprarem certos produtos, como arroz, azeite, carne de vaca, ou vitela, etc. É certo que os paroquianos davam aquilo que podiam, mas sendo gente pobre não lhes era possível ajudar mais.

     A maior parte dos sacerdotes até meados do século XX provinham dos meios rurais. Os seus pais desejavam que alguns dos seus rapazes fugissem ao trabalho duro e ingrato da agricultura; com algum esforço, vendendo, se fosse necessário, um campito, lá conseguiam que eles ingressassem no seminário. Ali teriam alimentação, estudavam, e se conseguissem terminar o curso, eram normalmente colocados em uma freguesia como párocos. Aqueles que abandonavam a carreira eclesiástica sempre teriam hipótese de arranjar um emprego em um qualquer ministério do Estado, na banca, nos seguros, etc…

     A questão dos padres que se apaixonaram por raparigas e nelas geraram filhos, isso, quanto a mim, não é nada que cause espanto, pois um padre é um homem, com desejos, com necessidades, com paixões. É certo que juraram perante os livros sagrados, o seu Deus, os seus superiores, a lei canónica, que se manteriam castos. Na altura, com vinte e poucos anos de idade, sem experiências mundanas, na idade da ilusão, tudo se promete; o pior é quando um moço, bem-falante, bem vestido, comparado com a maior parte dos habitantes locais, que só mudava de roupa ao domingo, se apresenta perante um conjunto de  pessoas, entre elas raparigas bonitas e casadoiras, desejosas de serem beijadas, abraçadas por um jovem da idade delas. A maioria dos padres resiste a essa tentação, agarra-se à sua fé, teme o castigo divino, pede a todos os santos que o protejam, mas há sempre uma minoria que se deixa levar pelo desejo. A consequência surge-nos à vista: a rapariga fica grávida, vai ser mamã… Os vizinhos logo perguntam: - quem é o pai? As reações variam: uns acham normal, é mais um miúdo, ou miúda, filho, ou filha, de pai incógnito; outros, os mais beatos, ficam irritados, para eles esta situação é intolerável, pois os padres são ministros de Cristo, têm de ser exemplares, não devem cometer pecados dessa gravidade. O grande argumento do Papa e seus conselheiros para não deixarem casar os sacerdotes é o seguinte: os religiosos, sendo solteiros, com autonomia, sem responsabilidades familiares, podem dedicar aos crentes vinte e quatro horas por dia; se fossem casados, com filhos, esse tempo seria inevitavelmente dividido, repartido entre crentes e família, logo a eficácia, a prontidão, seria por vezes nula. Decidir sempre foi difícil. Neste caso concreto, o que se ganharia de um lado, perder-se-ia por outro. Quanto a mim, embora leigo nestas matérias da religiosidade, a solução, ou parte dela, seria encontrada através da abertura de Seminários para raparigas, e o casamento de todos aqueles religiosos que o quisessem realizar. Se algumas mulheres estudassem para “madres” (padres do sexo feminino), o número de religiosos aumentaria exponencialmente, e as crianças que nascessem de “madres” ou padres, seriam legitimadas, teriam um lar, seriam como outras quaisquer crianças. Desapareceria o ferrete: «és filho de um padre», como se isso seja algum crime hediondo.
     Enfim, as coisas vistas por este prisma parecem relativamente fáceis, mas a Igreja Católica, como acima se disse, tem muitos séculos de existência, tem as suas leis, elaboradas por grandes pensadores, os seus princípios, e não vai ser fácil introduzir novos conceitos, novos rumos, a uma instituição conservadora por natureza. O risco é sempre relativo, mas existe. As mudanças são quase sempre dolorosas.

     Neste livro não constarão todos os padres, frades, monges, que exerceram a sua atividade em Melgaço, fossem ou não naturais do concelho. Não foi uma deliberação fácil de tomar: o motivo principal é eu não ter tempo para encontrá-los a todos. Investigo há cerca de quarenta anos, tenho editado alguns trabalhos, uns mais elaborados, outros mais ligeiros, mas a investigação é morosa e cara. Os monges de Fiães e de Paderne que me perdoem, mas não vão aqui figurar. Outros investigadores poderão prosseguir neste caminho agora iniciado.
     Algumas pessoas poderão interrogar-se: - que raio de interesse tem o assunto deste livro? Bem, o livro é composto por pequenas biografias de padres e de frades, homens religiosos que batizavam, casavam, confessavam os crentes, acompanhavam funerais, doutrinavam crianças, jovens e adultos, a fim de se tornarem bons cristãos, intervinham, e intervêm, na vida quotidiana da comunidade. Nem todos foram, ou são, exemplos de virtude, alguns erraram, como todos nós; mas o seu papel na sociedade não é de somenos. Ajudaram a criar um modelo de sociedade, para o bem e para o mal. Quase que a ninguém, nem mesmo aos incréus, passará pela cabeça um dia ver uma freguesia, sobretudo no norte e centro de Portugal, sem um pároco. É certo, que hoje em dia existem milhares de religiões espalhadas por todo o planeta, a oferta religiosa é enorme, mas o catolicismo ganhou raízes, adaptou-se à maneira de viver e sentir das populações, já faz parte do tecido social, construindo pontes entre o humano e o divino, embora este, para alguns, emane do primeiro.      

     Gostaria de ver as biografias mais desenvolvidas, mas não foi possível; os documentos são escassos, e aqueles que existem são pouco abundantes em dados biográficos. A imprensa em Melgaço só surgiu no século XIX, e a maior parte dos jornais dessa altura foram destruídos ou, pela sua fragilidade, não podem ser consultados. Os arquivos municipais são recentes, o espaço dos antigos edifícios camarários era por norma exíguo, por isso, milhares e milhares de documentos foram destruídos pela incúria dos homens. Enfim, temos de aproveitar o que restou, e conservar os que se vão produzindo, para que no futuro se possa conhecer o passado.       


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Preço: 10 euros
 
 
Preço: 10 euros
 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico

                                                                Por Joaquim A. Rocha




17.º Capítulo

 
                       AS LAVADEIRAS



 
     Após uns dias sem se verem, os dois amigos retomam a conversa, como habitualmente à mesa de um Café na Baixa Lisboeta. O verão já se fora, e agora tinham de ficar na parte de dentro, respirando o ar impuro, poluído, motivado sobretudo pelo maldito fumo do tabaco. Não sei que dera aos portugueses, cada vez fumavam mais, agora até as raparigas e senhoras o faziam, mesmo na rua, numa exibição bacoca, parola, prejudicando a sua saúde e a dos outros! O efeito já se começava a notar, sobretudo nos dentes. O dinheiro para essa droga não sei aonde os iam buscar, pois cada maço custava os olhos da cara e a malta nova não tinha quaisquer rendimentos. É provável que fosse parte do dinheiro que os pais lhe davam para se alimentarem na cantina da Escola, eu sei lá!
     Alguns médicos iam aconselhando os jovens a deixarem de fumar, pois, o mais certo, era virem a sofrer do coração, cancro, e até os dentes perdem o protetor esmalte e tornam-se amarelados!       
     Depois de se cumprimentarem, Cândido dirigiu-se ao amigo com estas palavras simpáticas:
 
- Louvo a tua insaciável curiosidade relativamente à vida do soldado enquanto combatente nas matas africanas. Quanto às lavadeiras vou contar-te aquilo que sei. No que me diz respeito, eu entregava de facto a roupa a lavadeiras, mas jamais olhei para elas como potenciais amantes. Digo-te mais: sempre manifestei algum receio em ter relações de tipo íntimo com essas mulheres. Não por me achar superior, ou um anjo, mas sim por causa das doenças venéreas. Preferia a abstinência. Nesse tempo não distribuíam preservativos, mas sim umas bisnagas para se usarem após a cópula. A sua eficácia era diminuta, não ofereciam grandes garantias.
- Os seus colegas da altura não seriam assim tão castos… - tenta tirar nabos da púcara o jovem interlocutor.
- É provável que um ou outro, os mais aventureiros, quiçá os mais imprudentes, esquecessem os perigos que desse acto adviriam; arriscavam a sua saúde pelo simples prazer carnal – era com eles!
     As lavadeiras negras sempre me mereceram o máximo respeito e consideração. Trabalhadoras conscientes, procuravam servir o melhor possível, nunca tive queixa delas. Muitas dessas mulheres tinham uma caterva de filhos, provavelmente mães solteiras, dava-lhes as minhas rações de combate (carne de porco e de vaca, atum, sardinhas, chouriço, etc., tudo isso em latas de conserva), além de lhes pagar o preço de tabela.
- Que era baixo, suponho – quis saber Henrique.
- Tudo é relativo; se levassem muito caro também não lhe poderíamos entregar a roupa. Os nossos ordenados eram curtos, como sabes.
     Moravam quase sempre perto dos tropas e os seus rendimentos provinham exclusivamente desse trabalho. As inúmeras crianças aguardavam pacientemente que acabássemos de comer para depois requisitarem os restos, não os das marmitas, mas sim aquela comida que sobrava nas terrinas e caldeirões.      
- Depois da independência, essas crianças ficaram sem essa fonte de alimentos…
- É verdade; mas isso já não é problema nosso. Por outro lado, aquilo não se podia prolongar eternamente. Que estudem, que trabalhem, que se tornem independentes economicamente. Ninguém pode, nem deve, viver uma vida inteira à sombra do rancho dos militares: é aviltante, indigno de um ser humano. A igualdade entre as raças passa sem dúvida pela negação da subserviência. A mendicidade submerge a dignidade; o homem negro tem de compreender isso.
- Você exalta-se com facilidade!... – observa Henrique.
- Empolgo-me um bocado, é certo; mas a minha indignação é motivada pelo servilismo de alguns: sejam amarelos, brancos, negros, vermelhos, ou de outra qualquer cor ou raça. O ser humano deve emancipar-se; somos todos donos do planeta e, por isso, sem exceção, temos direito a nele residir com dignidade.
- Estou plenamente de acordo consigo, amigo Cândido. O planeta Terra é de todos os seus habitantes, mas nem todos pensam assim... Mas falava-me das lavadeiras…
- Como já te disse anteriormente, a maioria dos soldados, cabos, furriéis e sargentos, dava a sua roupa a lavar às lavadeiras africanas. Os oficiais, como ganhavam bem, contratavam, a maior parte deles, empregada doméstica; as esposas, quando casados, habitavam numa das cidades mais próximas do acampamento. Sabes que se contava uma história de adultério acerca de um destes casais, separados periodicamente devido à guerra?      
- Uma história de faca e alguidar, calculo!
- Mais ou menos. Queres ouvir?
- Quero, quero… – diz Henrique, eufórico.
- Pois bem: um oficial, suponho que alferes miliciano, foi mobilizado para a Guiné logo depois de ter rebentado a insurreição armada. Como era casado, e a mulher pouco mais de vinte anos teria, resolveu chamá-la para a sua beira, não fosse um gabiru rondar-lhe a porta. Arrendou uma casa numa pequena cidade, Mansoa, salvo erro, e espera ansiosa e pacientemente que a esposa chegue. Abraços e beijos, misturados com grossas lágrimas de alegria. Passava um dia ou dois em casa, quinze dias no mato, e o tempo ia assim decorrendo. Certo dia, ou melhor, certa noite, aparece de surpresa no lar. Metralhadora a tiracolo, fatigado, mete a chave à porta e entra. Ouve uns suspiros estranhos, pensou que a sua mulherzinha sonhava: «sonha comigo, possivelmente!» - sussurrou.
     Pousa a arma nas costas de uma cadeira e prepara-se para se descalçar. Os gemidos e ais aumentam de intensidade e ele fica confuso. Pega na arma, pé ante pé, e dirige-se para o quarto de dormir. Parece-lhe ser de lá que provêm os tais ruídos. Arreda a porta e o que os seus olhos veem, embora numa meio escuridão, são dois corpos nus, juntos, enleados, movendo-se, ora lenta, ora com frenesim. As suas bocas ora se beijam ora deixam escapar gritinhos de prazer e êxtase. O nosso homem ficou bloqueado, estupefacto, não querendo acreditar no que via: «Não, não estou aqui, deliro
     Ergue a arma e aponta: pum! Dispara todas as balas do carregador. O sangue dos amantes esguichou por todo o quarto, a cama ficou num poço de líquido vermelho, vermelho!
- Terrífico desfecho, esse! E o oficial, que fez a seguir? – pergunta Henrique, bastante comovido, quase não acreditando naquilo que ouvira.
- Há quem diga que ele se suicidou após esse acto. Uma outra versão diz que ele se entregou às autoridades militares, cujo tribunal o condenou a uma comissão em Angola ou Moçambique, onde morreu em combate.
- Se soubessem o nome dele, seria fácil seguir-lhe o rasto…
- Ninguém sabe, somente os militares, e esses abafaram o caso.
- Que ela lembra outras histórias similares, verídicas, isso lembra. E tomaram conhecimento, ao menos, do nome do alvejado, do amante da adúltera?
- Aí as coisas complicam-se. Há quem diga que se tratava de um rapaz negro, de vinte anos de idade, criado do casal, muito habilidoso na cozinha, sorridente, simpático, bem-parecido.
- Pelos vistos, também era exímio na cama…
- São apenas boatos. Se foi esse rapaz, fora batizado não havia muito tempo, a solicitação da senhora, por sinal bastante religiosa, muito temente a Deus.
- Então, se o moço recebeu o banho na pia batismal, o pecado era menor…
- Brinca, brinca, maroto!
- Contudo, apontam outros suspeitos?
- Também se falava em colegas: solteiros, com um clima quentíssimo, muito piripiri na comida, afrodisíaco por excelência, enfim! São apenas suposições. A verdade, verdadinha, só os altos graduados a souberam.
- Muito interessante essa sua historieta. E as…
- Já sei: as lavadeiras. Algumas delas estragavam uma camisa, umas calças, mas que se havia de fazer? Não possuíam os ferros de engomar que agora existem, a eletricidade, e a vapor, e não dominavam ainda todas as técnicas de tal mester. Mas também os preços que cobravam não eram de molde a exigir-lhes perfeição. Quanto ao resto, bem: algumas viram aumentar o rol de filhos, os mulatos, a cor que não pode negar a sua origem. São eles que atestam a passagem do homem branco pela terra dos negros. Até se dizia que uma dessas mulheres veio com seu filho a Portugal à procura do militar que lho arranjara… Tretas!
- Repugnava-lhe casar com uma mulher de cor negra?
- A essa pergunta não é fácil responder. Penso, no entanto, que seria um verdadeiro disparate um branco casar com uma negra do mato se tencionasse vir para Portugal. Sabes por quê? Porque ela não iria adaptar-se facilmente à vida europeia. E como apresentá-la aos pais? «Eis aqui a minha esposa. Não fala a nossa língua, não sabe o que é morar numa casa de pedra, como a nossa, com divisórias, ignora o que é uma casa de banho! Vivia em uma palhota de barro amassado, coberta de capim.» E depois? Seria uma confusão tremenda.
- Até podia dar certo – retruca Henrique.
- Desde que ele ficasse a residir em África, não digo que não. E isto que te estou a dizer nada tem a ver com racismo, mas sim com culturas, com maneiras de gerir a vida: os negros que residem na selva são muito infelizes quando se encontram longe de África, do seu meio natural.

domingo, 6 de janeiro de 2019

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha


desenho de Rui Nunes



Quando eu era rapaz

Mandavam-me aos recados:

Ao vinho, ao pão, ao talho,

Em troca de rebuçados.


*

Quando eu era criança


Gostava de dizer não;

Trazia-me dissabores,

Mas também satisfação.

*

Quando eu era “petit”


Tinha o gosto da leitura;


Lia Hergé e Salgari,

Romances de aventura.

*

A rapariga de agora


Pensa que o mundo se acaba:

A vida, sonho, devora,

É um vulcão sem a lava.

 *
As raparigas de hoje


Beijam, beijam, sem parar;

Se param um bocadinho

É prò cigarro fumar.

*

O padre da minha aldeia

Gosta muito das patrícias;


Dá-lhes hóstias de manhã,

À noite faz-lhes carícias.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

LEMBRANÇAS AMARGAS
(romance)

Por Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes


Capítulo XXVII
 
Nas rotundas escabrosas também há encontros
 

     Depois dessa pouco amistosa conversa, desse diálogo tempestuoso, eu fiquei convencido de que perdera a minha amada para todo o sempre. Passei a viver ainda mais triste, mais próximo da solidão e da amargura. Os meus irmãos encontravam-se em Lisboa, e os meus avós maternos já tinham falecido. Os avós paternos, esses nem sequer os conhecera! Mas eis senão quando, de saco às costas, surge em cena o meu avô. O destino prega-nos destas partidas: um avô e um neto de costas voltadas, ignorando a existência um do outro, aproximam-se como o metal se aproxima do íman. Este é um dos momentos mais emocionantes de toda a minha história – dois corações sangrando, embora por motivos diferentes, batem ao ritmo de uma angélica música. Este quadro dar-vos-á a visão de um futuro humano melhor, onde a compaixão supera e vence o desprezo, a sede de vingança. Como agentes secretos de uma qualquer novela policial, abeirem-se desta sofredora gente:


- Aquele que ali vai é o teu avô Meliças, o coitado anda a pedir esmola.

- A pedir esmola? Não era caseiro em Cendre?

- Deve-lhe ter morrido a mulher, o maroto do filho anda lá pelas Espanhas, o mais certo é ele nunca mais o ter visitado, sozinho e velho não podia tomar conta daqueles campos todos, não daria conta do recado.

- E agora pegou num saco e toca a mendigar!

- É o fim de todos aqueles que trabalham as herdades dos outros: quando já não prestam, quando já não têm forças para arrancar do solo o tão desejado fruto, são atirados fora, como lixo imprestável, como cinzas de um fogo que se extinguiu.

- Vou chamá-lo.

- Se quiseres, fá-lo; mas olha que eles foram muito maus para nós. Tanto ele como a velha puseram-me de rastos, chamaram-me o que o demo não ousou chamar à sua própria mãe, que andava a encaminhar mal o filho, nunca vos quiseram ver!

- Temos de perdoar; não perdoou Cristo a quem o matou?

- Isso é verdade, mas nós somos humanos e ele era o filho de Deus, o redentor.

- Coitado, vai tão triste, aquelas barbas brancas, derreado pelo peso dos anos e possivelmente pelos desgostos: sem filho, sem mulher, sem netos; nem um pouquinho de felicidade ou esperança brilha naqueles olhos mortiços.

- Se tivessem deixado o Olavo casar comigo, outro galo lhe cantaria agora, que eu nessa altura estava disposta a ter juízo, a respeitá-lo, nunca gostei tanto de outro homem como dele; mas não, escorraçaram-me como se eu fosse uma vadia, só porque era mais velha do que o teu pai e porque era mãe solteira. Isso doeu-me imenso, eu não era um bandalho, trabalhava, dia e noite, as coisas até me estavam a correr bem. De repente tudo desaba: os pais dele contra mim, e ele a desaparecer com uma galega! Nunca lhes perdoarei, estragaram irremediavelmente a minha vida. Se quiseres, chama-o, um bocado de pão e um caldo quente não se nega a ninguém, nem a um inimigo.


*


- Senhor Agostinho, senhor Agostinho, chegue aqui.

- Quem me chama?!

- Eu, o filho da Matilde.

- Ai, meu filho, vejo e ouço mal. Matilde? Não conheço, há muitos anos que não vinha à Vila, trabalhei longo tempo em Cendre, nas terras do senhor Louredo.

- Está com fome?

- Que pergunta! Há muitas horas que o meu estômago não sabe o que é ter uma migalha de pão, que Deus lhe pague em dobro tudo que me der.

- A minha mãe foi buscar pão e caldo, não somos gente farta, damos o que temos.

- Aqueles que pouco têm são os que mais oferecem; os ricos, salvo alguns, santas pessoas, são avarentos, nem os restos da sua comida dão, deitam tudo aos animais. 

- Sei que tem um filho, que sabe dele?

- Nada, absolutamente nada, mas porque me pergunta isso e como sabe que este pobre de Cristo tem um filho?

- A minha mãe disse-me quem o senhor é, falou-me nele, que foi há muitos anos para a Espanha com uma galega. Pelos vistos nunca mais deu sinal de si.

- Essa rapariga chamava-se Mariquita, filha duns galegos de Tui que viviam ali perto da fronteira com Portugal; foram-se embora e jamais quiseram saber dos velhos pais.

- O seu Olavo antes de ir para a Espanha fez dois filhos numa mulher portuguesa.

- O que eu e a minha falecida lhe ralhámos para a deixar; era muito mais velha do que ele, já tinha tido filhos antes, dois tinham-lhe morrido, mas ainda tinha dois vivos. Ele até queria casar com ela, nós não deixámos, parecia filho dela!

- Mas esses rapazes, vocês nunca os viram?

- Quando eram muito pequenitos ainda cheguei a vê-los, depois essa mulher saiu de lá, parece que veio aqui para a Vila, para casa dos pais, nunca mais lhe pus os olhos em cima.

- Já tem aqui o seu caldo; coma-o enquanto está quentinho.

- Obrigado, santinha, que Deus lhe dê saúde e sorte.

- Sorte não ma deu, não, umas vezes por minha culpa, outras vezes por culpa dos outros.

- Essa voz, e essa cara, ai os meus olhos, estão velhos e doentes e já me enganam.

- Não o enganam, não; eu sou a Matilde, aquela que vocês destruíram.

- Então este aqui é meu neto!

- É seu neto, é, mas não se orgulha disso.

- Oh meu Deus! Tanto mal eu te fiz, Matilde; perdoa a este velho. Meu neto, perdoas ao teu avô?

- Não sei se poderei fazê-lo; vocês magoaram muito a minha mãe, espezinharam-na, barraram-lhe os caminhos da felicidade e da ventura. Toda a nossa vida a partir daí tem sido um calvário, um Gólgota, a cruz tem sido demasiado pesada para os nossos frágeis ombros; a ferida ainda sangra nos nossos corações. Sabe por acaso o que é viver sem pai, com uma mãe destroçada, sem apego à vida? Não sabe? Pois fique a saber que a nossa vida é feita de tristeza, de angústia, de desânimos, por vezes até a fé em Deus nos abandona.

- Eu pensava que estava a defender a felicidade do meu filho.

- Do seu filho? E os seus netos? Não são eles sangue do seu sangue?

- Muito mal fazemos aos outros por egoísmo, pensando só em nós próprios; como eu estou arrependido, mas agora é tarde, sei que serei severamente castigado por Nosso Senhor Jesus Cristo, não perdoará os meus erros e pecados, aliás já estou a padecer agora.

- Onde é que vive, onde dorme?

- Não possuo nada; nem casa, nem amigos, nem família, sou um desgraçado, vivo na extrema penúria, fico por aí, debaixo de um qualquer alpendre, eu que trabalhei mais de sessenta anos, desde os sete anos de idade que peguei numa enxada a cavar campos, nunca fui a uma escola, os meus pais eram muito minguados de tudo, tínhamos de ganhar para o nosso sustento.

- Quem eram os seus pais?

- Não conheceram. Eu sou de Mondim, vim muito novo para esta terra, na esperança de melhorar a minha vida, depois encontrei aquela que foi minha esposa durante estes anos todos; coitada, agora deixou-me, o Senhor chamou-a à sua excelsa presença.

- Nunca mais voltou à sua terra de nascimento?

- Não; as viagens são muito caras, para cá vim a pé, andei dias e dias, pelo caminho ia pedindo esmola, ajudava aqui e ali, até cheguei a ser rapaz de circo! Coitado de quem precisa.

- Então nunca mais viu os seus pais?!

- Nem pais, nem irmãos; eles nem sequer sabiam onde eu estava, como não sei escrever…

- Deveria ter pedido a alguém que o fizesse por si.

- Para lhes dizer que era miserável, que trabalhava como um mouro todos os dias para ter na mesa um caldo de couves e farinha grosseira?

- Vivemos num país de gente pobre.

- Alguns têm muito, à custa de quem labuta, e quando chegamos a velho enxotam-nos como a moscas incómodas.

- Mamã: poderíamos arranjar-lhe um cantinho na nossa casa, o que lá vai lá vai, é meu avô.

- Tens um coração de oiro, meu filho; concordo, mas só até tu ires para a tropa, depois terá de arranjar outro lugar.

- Não chore, avô; nós os pobres temos de ser solidários uns com os outros; é a única maneira de resistirmos aos poderosos.

- Tu és um santo, meu neto; e tanto mal vos fiz. Vais com certeza ganhar o céu graças aos teus generosos atos.