quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico

                                                                Por Joaquim A. Rocha




17.º Capítulo

 
                       AS LAVADEIRAS



 
     Após uns dias sem se verem, os dois amigos retomam a conversa, como habitualmente à mesa de um Café na Baixa Lisboeta. O verão já se fora, e agora tinham de ficar na parte de dentro, respirando o ar impuro, poluído, motivado sobretudo pelo maldito fumo do tabaco. Não sei que dera aos portugueses, cada vez fumavam mais, agora até as raparigas e senhoras o faziam, mesmo na rua, numa exibição bacoca, parola, prejudicando a sua saúde e a dos outros! O efeito já se começava a notar, sobretudo nos dentes. O dinheiro para essa droga não sei aonde os iam buscar, pois cada maço custava os olhos da cara e a malta nova não tinha quaisquer rendimentos. É provável que fosse parte do dinheiro que os pais lhe davam para se alimentarem na cantina da Escola, eu sei lá!
     Alguns médicos iam aconselhando os jovens a deixarem de fumar, pois, o mais certo, era virem a sofrer do coração, cancro, e até os dentes perdem o protetor esmalte e tornam-se amarelados!       
     Depois de se cumprimentarem, Cândido dirigiu-se ao amigo com estas palavras simpáticas:
 
- Louvo a tua insaciável curiosidade relativamente à vida do soldado enquanto combatente nas matas africanas. Quanto às lavadeiras vou contar-te aquilo que sei. No que me diz respeito, eu entregava de facto a roupa a lavadeiras, mas jamais olhei para elas como potenciais amantes. Digo-te mais: sempre manifestei algum receio em ter relações de tipo íntimo com essas mulheres. Não por me achar superior, ou um anjo, mas sim por causa das doenças venéreas. Preferia a abstinência. Nesse tempo não distribuíam preservativos, mas sim umas bisnagas para se usarem após a cópula. A sua eficácia era diminuta, não ofereciam grandes garantias.
- Os seus colegas da altura não seriam assim tão castos… - tenta tirar nabos da púcara o jovem interlocutor.
- É provável que um ou outro, os mais aventureiros, quiçá os mais imprudentes, esquecessem os perigos que desse acto adviriam; arriscavam a sua saúde pelo simples prazer carnal – era com eles!
     As lavadeiras negras sempre me mereceram o máximo respeito e consideração. Trabalhadoras conscientes, procuravam servir o melhor possível, nunca tive queixa delas. Muitas dessas mulheres tinham uma caterva de filhos, provavelmente mães solteiras, dava-lhes as minhas rações de combate (carne de porco e de vaca, atum, sardinhas, chouriço, etc., tudo isso em latas de conserva), além de lhes pagar o preço de tabela.
- Que era baixo, suponho – quis saber Henrique.
- Tudo é relativo; se levassem muito caro também não lhe poderíamos entregar a roupa. Os nossos ordenados eram curtos, como sabes.
     Moravam quase sempre perto dos tropas e os seus rendimentos provinham exclusivamente desse trabalho. As inúmeras crianças aguardavam pacientemente que acabássemos de comer para depois requisitarem os restos, não os das marmitas, mas sim aquela comida que sobrava nas terrinas e caldeirões.      
- Depois da independência, essas crianças ficaram sem essa fonte de alimentos…
- É verdade; mas isso já não é problema nosso. Por outro lado, aquilo não se podia prolongar eternamente. Que estudem, que trabalhem, que se tornem independentes economicamente. Ninguém pode, nem deve, viver uma vida inteira à sombra do rancho dos militares: é aviltante, indigno de um ser humano. A igualdade entre as raças passa sem dúvida pela negação da subserviência. A mendicidade submerge a dignidade; o homem negro tem de compreender isso.
- Você exalta-se com facilidade!... – observa Henrique.
- Empolgo-me um bocado, é certo; mas a minha indignação é motivada pelo servilismo de alguns: sejam amarelos, brancos, negros, vermelhos, ou de outra qualquer cor ou raça. O ser humano deve emancipar-se; somos todos donos do planeta e, por isso, sem exceção, temos direito a nele residir com dignidade.
- Estou plenamente de acordo consigo, amigo Cândido. O planeta Terra é de todos os seus habitantes, mas nem todos pensam assim... Mas falava-me das lavadeiras…
- Como já te disse anteriormente, a maioria dos soldados, cabos, furriéis e sargentos, dava a sua roupa a lavar às lavadeiras africanas. Os oficiais, como ganhavam bem, contratavam, a maior parte deles, empregada doméstica; as esposas, quando casados, habitavam numa das cidades mais próximas do acampamento. Sabes que se contava uma história de adultério acerca de um destes casais, separados periodicamente devido à guerra?      
- Uma história de faca e alguidar, calculo!
- Mais ou menos. Queres ouvir?
- Quero, quero… – diz Henrique, eufórico.
- Pois bem: um oficial, suponho que alferes miliciano, foi mobilizado para a Guiné logo depois de ter rebentado a insurreição armada. Como era casado, e a mulher pouco mais de vinte anos teria, resolveu chamá-la para a sua beira, não fosse um gabiru rondar-lhe a porta. Arrendou uma casa numa pequena cidade, Mansoa, salvo erro, e espera ansiosa e pacientemente que a esposa chegue. Abraços e beijos, misturados com grossas lágrimas de alegria. Passava um dia ou dois em casa, quinze dias no mato, e o tempo ia assim decorrendo. Certo dia, ou melhor, certa noite, aparece de surpresa no lar. Metralhadora a tiracolo, fatigado, mete a chave à porta e entra. Ouve uns suspiros estranhos, pensou que a sua mulherzinha sonhava: «sonha comigo, possivelmente!» - sussurrou.
     Pousa a arma nas costas de uma cadeira e prepara-se para se descalçar. Os gemidos e ais aumentam de intensidade e ele fica confuso. Pega na arma, pé ante pé, e dirige-se para o quarto de dormir. Parece-lhe ser de lá que provêm os tais ruídos. Arreda a porta e o que os seus olhos veem, embora numa meio escuridão, são dois corpos nus, juntos, enleados, movendo-se, ora lenta, ora com frenesim. As suas bocas ora se beijam ora deixam escapar gritinhos de prazer e êxtase. O nosso homem ficou bloqueado, estupefacto, não querendo acreditar no que via: «Não, não estou aqui, deliro
     Ergue a arma e aponta: pum! Dispara todas as balas do carregador. O sangue dos amantes esguichou por todo o quarto, a cama ficou num poço de líquido vermelho, vermelho!
- Terrífico desfecho, esse! E o oficial, que fez a seguir? – pergunta Henrique, bastante comovido, quase não acreditando naquilo que ouvira.
- Há quem diga que ele se suicidou após esse acto. Uma outra versão diz que ele se entregou às autoridades militares, cujo tribunal o condenou a uma comissão em Angola ou Moçambique, onde morreu em combate.
- Se soubessem o nome dele, seria fácil seguir-lhe o rasto…
- Ninguém sabe, somente os militares, e esses abafaram o caso.
- Que ela lembra outras histórias similares, verídicas, isso lembra. E tomaram conhecimento, ao menos, do nome do alvejado, do amante da adúltera?
- Aí as coisas complicam-se. Há quem diga que se tratava de um rapaz negro, de vinte anos de idade, criado do casal, muito habilidoso na cozinha, sorridente, simpático, bem-parecido.
- Pelos vistos, também era exímio na cama…
- São apenas boatos. Se foi esse rapaz, fora batizado não havia muito tempo, a solicitação da senhora, por sinal bastante religiosa, muito temente a Deus.
- Então, se o moço recebeu o banho na pia batismal, o pecado era menor…
- Brinca, brinca, maroto!
- Contudo, apontam outros suspeitos?
- Também se falava em colegas: solteiros, com um clima quentíssimo, muito piripiri na comida, afrodisíaco por excelência, enfim! São apenas suposições. A verdade, verdadinha, só os altos graduados a souberam.
- Muito interessante essa sua historieta. E as…
- Já sei: as lavadeiras. Algumas delas estragavam uma camisa, umas calças, mas que se havia de fazer? Não possuíam os ferros de engomar que agora existem, a eletricidade, e a vapor, e não dominavam ainda todas as técnicas de tal mester. Mas também os preços que cobravam não eram de molde a exigir-lhes perfeição. Quanto ao resto, bem: algumas viram aumentar o rol de filhos, os mulatos, a cor que não pode negar a sua origem. São eles que atestam a passagem do homem branco pela terra dos negros. Até se dizia que uma dessas mulheres veio com seu filho a Portugal à procura do militar que lho arranjara… Tretas!
- Repugnava-lhe casar com uma mulher de cor negra?
- A essa pergunta não é fácil responder. Penso, no entanto, que seria um verdadeiro disparate um branco casar com uma negra do mato se tencionasse vir para Portugal. Sabes por quê? Porque ela não iria adaptar-se facilmente à vida europeia. E como apresentá-la aos pais? «Eis aqui a minha esposa. Não fala a nossa língua, não sabe o que é morar numa casa de pedra, como a nossa, com divisórias, ignora o que é uma casa de banho! Vivia em uma palhota de barro amassado, coberta de capim.» E depois? Seria uma confusão tremenda.
- Até podia dar certo – retruca Henrique.
- Desde que ele ficasse a residir em África, não digo que não. E isto que te estou a dizer nada tem a ver com racismo, mas sim com culturas, com maneiras de gerir a vida: os negros que residem na selva são muito infelizes quando se encontram longe de África, do seu meio natural.

domingo, 6 de janeiro de 2019

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha


desenho de Rui Nunes



Quando eu era rapaz

Mandavam-me aos recados:

Ao vinho, ao pão, ao talho,

Em troca de rebuçados.


*

Quando eu era criança


Gostava de dizer não;

Trazia-me dissabores,

Mas também satisfação.

*

Quando eu era “petit”


Tinha o gosto da leitura;


Lia Hergé e Salgari,

Romances de aventura.

*

A rapariga de agora


Pensa que o mundo se acaba:

A vida, sonho, devora,

É um vulcão sem a lava.

 *
As raparigas de hoje


Beijam, beijam, sem parar;

Se param um bocadinho

É prò cigarro fumar.

*

O padre da minha aldeia

Gosta muito das patrícias;


Dá-lhes hóstias de manhã,

À noite faz-lhes carícias.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

LEMBRANÇAS AMARGAS
(romance)

Por Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes


Capítulo XXVII
 
Nas rotundas escabrosas também há encontros
 

     Depois dessa pouco amistosa conversa, desse diálogo tempestuoso, eu fiquei convencido de que perdera a minha amada para todo o sempre. Passei a viver ainda mais triste, mais próximo da solidão e da amargura. Os meus irmãos encontravam-se em Lisboa, e os meus avós maternos já tinham falecido. Os avós paternos, esses nem sequer os conhecera! Mas eis senão quando, de saco às costas, surge em cena o meu avô. O destino prega-nos destas partidas: um avô e um neto de costas voltadas, ignorando a existência um do outro, aproximam-se como o metal se aproxima do íman. Este é um dos momentos mais emocionantes de toda a minha história – dois corações sangrando, embora por motivos diferentes, batem ao ritmo de uma angélica música. Este quadro dar-vos-á a visão de um futuro humano melhor, onde a compaixão supera e vence o desprezo, a sede de vingança. Como agentes secretos de uma qualquer novela policial, abeirem-se desta sofredora gente:


- Aquele que ali vai é o teu avô Meliças, o coitado anda a pedir esmola.

- A pedir esmola? Não era caseiro em Cendre?

- Deve-lhe ter morrido a mulher, o maroto do filho anda lá pelas Espanhas, o mais certo é ele nunca mais o ter visitado, sozinho e velho não podia tomar conta daqueles campos todos, não daria conta do recado.

- E agora pegou num saco e toca a mendigar!

- É o fim de todos aqueles que trabalham as herdades dos outros: quando já não prestam, quando já não têm forças para arrancar do solo o tão desejado fruto, são atirados fora, como lixo imprestável, como cinzas de um fogo que se extinguiu.

- Vou chamá-lo.

- Se quiseres, fá-lo; mas olha que eles foram muito maus para nós. Tanto ele como a velha puseram-me de rastos, chamaram-me o que o demo não ousou chamar à sua própria mãe, que andava a encaminhar mal o filho, nunca vos quiseram ver!

- Temos de perdoar; não perdoou Cristo a quem o matou?

- Isso é verdade, mas nós somos humanos e ele era o filho de Deus, o redentor.

- Coitado, vai tão triste, aquelas barbas brancas, derreado pelo peso dos anos e possivelmente pelos desgostos: sem filho, sem mulher, sem netos; nem um pouquinho de felicidade ou esperança brilha naqueles olhos mortiços.

- Se tivessem deixado o Olavo casar comigo, outro galo lhe cantaria agora, que eu nessa altura estava disposta a ter juízo, a respeitá-lo, nunca gostei tanto de outro homem como dele; mas não, escorraçaram-me como se eu fosse uma vadia, só porque era mais velha do que o teu pai e porque era mãe solteira. Isso doeu-me imenso, eu não era um bandalho, trabalhava, dia e noite, as coisas até me estavam a correr bem. De repente tudo desaba: os pais dele contra mim, e ele a desaparecer com uma galega! Nunca lhes perdoarei, estragaram irremediavelmente a minha vida. Se quiseres, chama-o, um bocado de pão e um caldo quente não se nega a ninguém, nem a um inimigo.


*


- Senhor Agostinho, senhor Agostinho, chegue aqui.

- Quem me chama?!

- Eu, o filho da Matilde.

- Ai, meu filho, vejo e ouço mal. Matilde? Não conheço, há muitos anos que não vinha à Vila, trabalhei longo tempo em Cendre, nas terras do senhor Louredo.

- Está com fome?

- Que pergunta! Há muitas horas que o meu estômago não sabe o que é ter uma migalha de pão, que Deus lhe pague em dobro tudo que me der.

- A minha mãe foi buscar pão e caldo, não somos gente farta, damos o que temos.

- Aqueles que pouco têm são os que mais oferecem; os ricos, salvo alguns, santas pessoas, são avarentos, nem os restos da sua comida dão, deitam tudo aos animais. 

- Sei que tem um filho, que sabe dele?

- Nada, absolutamente nada, mas porque me pergunta isso e como sabe que este pobre de Cristo tem um filho?

- A minha mãe disse-me quem o senhor é, falou-me nele, que foi há muitos anos para a Espanha com uma galega. Pelos vistos nunca mais deu sinal de si.

- Essa rapariga chamava-se Mariquita, filha duns galegos de Tui que viviam ali perto da fronteira com Portugal; foram-se embora e jamais quiseram saber dos velhos pais.

- O seu Olavo antes de ir para a Espanha fez dois filhos numa mulher portuguesa.

- O que eu e a minha falecida lhe ralhámos para a deixar; era muito mais velha do que ele, já tinha tido filhos antes, dois tinham-lhe morrido, mas ainda tinha dois vivos. Ele até queria casar com ela, nós não deixámos, parecia filho dela!

- Mas esses rapazes, vocês nunca os viram?

- Quando eram muito pequenitos ainda cheguei a vê-los, depois essa mulher saiu de lá, parece que veio aqui para a Vila, para casa dos pais, nunca mais lhe pus os olhos em cima.

- Já tem aqui o seu caldo; coma-o enquanto está quentinho.

- Obrigado, santinha, que Deus lhe dê saúde e sorte.

- Sorte não ma deu, não, umas vezes por minha culpa, outras vezes por culpa dos outros.

- Essa voz, e essa cara, ai os meus olhos, estão velhos e doentes e já me enganam.

- Não o enganam, não; eu sou a Matilde, aquela que vocês destruíram.

- Então este aqui é meu neto!

- É seu neto, é, mas não se orgulha disso.

- Oh meu Deus! Tanto mal eu te fiz, Matilde; perdoa a este velho. Meu neto, perdoas ao teu avô?

- Não sei se poderei fazê-lo; vocês magoaram muito a minha mãe, espezinharam-na, barraram-lhe os caminhos da felicidade e da ventura. Toda a nossa vida a partir daí tem sido um calvário, um Gólgota, a cruz tem sido demasiado pesada para os nossos frágeis ombros; a ferida ainda sangra nos nossos corações. Sabe por acaso o que é viver sem pai, com uma mãe destroçada, sem apego à vida? Não sabe? Pois fique a saber que a nossa vida é feita de tristeza, de angústia, de desânimos, por vezes até a fé em Deus nos abandona.

- Eu pensava que estava a defender a felicidade do meu filho.

- Do seu filho? E os seus netos? Não são eles sangue do seu sangue?

- Muito mal fazemos aos outros por egoísmo, pensando só em nós próprios; como eu estou arrependido, mas agora é tarde, sei que serei severamente castigado por Nosso Senhor Jesus Cristo, não perdoará os meus erros e pecados, aliás já estou a padecer agora.

- Onde é que vive, onde dorme?

- Não possuo nada; nem casa, nem amigos, nem família, sou um desgraçado, vivo na extrema penúria, fico por aí, debaixo de um qualquer alpendre, eu que trabalhei mais de sessenta anos, desde os sete anos de idade que peguei numa enxada a cavar campos, nunca fui a uma escola, os meus pais eram muito minguados de tudo, tínhamos de ganhar para o nosso sustento.

- Quem eram os seus pais?

- Não conheceram. Eu sou de Mondim, vim muito novo para esta terra, na esperança de melhorar a minha vida, depois encontrei aquela que foi minha esposa durante estes anos todos; coitada, agora deixou-me, o Senhor chamou-a à sua excelsa presença.

- Nunca mais voltou à sua terra de nascimento?

- Não; as viagens são muito caras, para cá vim a pé, andei dias e dias, pelo caminho ia pedindo esmola, ajudava aqui e ali, até cheguei a ser rapaz de circo! Coitado de quem precisa.

- Então nunca mais viu os seus pais?!

- Nem pais, nem irmãos; eles nem sequer sabiam onde eu estava, como não sei escrever…

- Deveria ter pedido a alguém que o fizesse por si.

- Para lhes dizer que era miserável, que trabalhava como um mouro todos os dias para ter na mesa um caldo de couves e farinha grosseira?

- Vivemos num país de gente pobre.

- Alguns têm muito, à custa de quem labuta, e quando chegamos a velho enxotam-nos como a moscas incómodas.

- Mamã: poderíamos arranjar-lhe um cantinho na nossa casa, o que lá vai lá vai, é meu avô.

- Tens um coração de oiro, meu filho; concordo, mas só até tu ires para a tropa, depois terá de arranjar outro lugar.

- Não chore, avô; nós os pobres temos de ser solidários uns com os outros; é a única maneira de resistirmos aos poderosos.

- Tu és um santo, meu neto; e tanto mal vos fiz. Vais com certeza ganhar o céu graças aos teus generosos atos.         

domingo, 30 de dezembro de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
 
ROUBOS
 

     Quantas vezes eu ouvi dizer que em Melgaço nada se passava de interessante. Contudo, nas suas dezoito freguesias, ao longo do ano, algo ia acontecendo: casamentos, batizados, óbitos, roubos, agressões, festas, mortes por afogamento, incêndios, etc., tudo como nos outros concelhos do país. Muitas dessas notícias não apareciam no jornal devido em parte à carência de jornalistas profissionais. Normalmente havia dois jornais no termo de Melgaço, mas com meia dúzia de páginas, cujos textos eram escritos por amadores, alguns até com apenas quatro anos de escolaridade. Aparecia por vezes um ou dois professores do ensino primário que tinham jeito para a escrita: raridades.     

(1934) - FERNANDES, Baltazar. Filho de Francisco António Fernandes e de Maria Clemência Vilas, lavradores, residentes em Barro (ou Bairro) Pequeno, freguesia de Penso. Neto paterno de Luís Manuel Fernandes e de Maria Luísa Fernandes, de Casal Maninho; neto materno de Manuel Luís Vilas e de Maria Joaquina Alves, de Pomar. Nasceu em Penso a 2/5/1873 e foi batizado dois dias depois. Padrinhos: Vicente Vaz e sua esposa, Maria Emília Esteves Cordeiro, rurais, da Casa do Campo. // Casou com Ermelinda de Faro. // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 233, de 27/5/1934: «A noite passada (17 de Maio) roubaram aos senhores Baltazar Fernandes, Libério Esteves, e Manuel Esteves Reguengo, o milho que tinham em três moinhos sitos nos limites do lugar de Pomar. Apresentada a queixa hoje de manhã ao senhor regedor, esta autoridade passou buscas em duas casas do lugar de Mós, não tendo encontrado o milho furtado àqueles senhores, porém, numa delas encontrou, dentro de uma caixa, um saco com cesto e meio de espigas. Interrogados os donos da casa, disseram que lhas tinha emprestado uma pessoa do lugar das Lages, a qual confirmou esta declaração, tendo por isso o senhor regedor abandonado as investigações. Com espanto de todos, essa pessoa das Lages veio agora dizer que não lhe tinha dado nenhumas espigas, e uma filha de um dos queixosos viu passar esse indivíduo junto da sua casa, pela uma hora da noite, com um grande saco às costas. O senhor regedor comunicou o caso superiormente. Oxalá venha a saber-se quem não teve pejo de ir roubar, principalmente, um dos queixosos, que tem os filhos com fome.» // Morreu na freguesia de Penso a 2/5/1953. // Com geração.   


 
            
 (1935) - No ano de 1935 havia uma quadrilha que roubava galinhas (NM 290, de 10/11/1935).
 

(1936) - AZEVEDO, Laurinda. Filha de José Joaquim Rodrigues de Azevedo e de Maria Luísa Bernardes, artistas, moradores no lugar de Barro (ou Bairro) Grande. Neta paterna de António José Rodrigues de Azevedo e de Marcelina Rosa de Araújo; neta materna de Constantino Bernardes e de Maria José Gonçalves. Nasceu em Penso a 30/4/1903 e foi batizada na igreja a 6 de Maio desse ano. Padrinhos: Eduardo José de Magalhães, proprietário, da Casa do Crasto, e Maria Esteves, jornaleira, do lugar das Lages, solteiros, ambos de Penso. // A 25/7/1917 fez exame do 1.º grau e obteve a classificação de ótima; era aluna da professora Amélia Emília Curvo Semedo (Jornal de Melgaço n.º 1168). // Em 1936 queixou-se à autoridade administrativa por lhe terem roubado de casa uma fieira, uma cruz, um travessão, uma aliança, pulseira, uma imagem da Senhora da Conceição, tudo em ouro, e 100$00 em dinheiro; foi presa, como suspeita, Maria, de 16 anos de idade, solteira, de Barro Grande, Penso, acabando por confessar que fora a autora do roubo, e seu pai, Laurentino Nóvoas, encobridor (Notícias de Melgaço n.º 324). // Casou a 14/2/1942 com Manuel Secundino Alves, natural de Valadares, Monção, de quem enviuvou a 30/9/1963. // Faleceu no lugar de Barro Grande, onde morava, a 4/10/1979, e foi sepultada no cemitério de Penso. // Lê-se na sua campa: «Estarás sempre nos nossos corações





quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





              MACRÓBIOS


      Costumamos dizer: «vale mais morrer de velho do que quando somos novos». Contudo, desde quando surgiu no planeta terra esta estranha e especial espécie, à qual deram o nome de humanos, a vida - entre o nascimento e a morte - é demasiado curta, mas se comparada com outras espécies, é uma das mais longas. Apesar dessa realidade, nós gostaríamos de durar mais, e se possível com saúde. O envelhecimento é natural, mas é difícil de aceitar. Eu invejo os deuses, porque eles jamais perecem. Vivam no céu, no olimpo, onde quer que eles estejam, conservam-se sempre jovens e ativos. Não têm doenças, não engordam, estão sempre elegantes e bonitos. Nós ficamos sem dentes, sem cabelo, as rugas surgem sem serem desejadas. Enfim, teremos de nos resignar. Talvez um dia, quem sabe, possamos dominar o tempo, ou chegarmos a um planeta distante, onde não se morra.     


AFONSO, Emília Augusta. Filha de José Afonso, soldado da guarda-fiscal, natural de Cousso, e de Mariana de Jesus Gomes, natural de Prado. Neta paterna de Francisco Afonso e de Maria Luísa Gonçalves; neta materna de Manuel Narciso Gomes e de Maria Josefa Martins. Nasceu em Prado a 14 de Setembro de 1894 e foi batizada na igreja a 23 desse mesmo mês e ano. Padrinhos: Joaquim Afonso, natural de Cousso, e Maria Augusta Afonso, irmã da neófita, solteira. // Faleceu na freguesia de Monserrate, Viana do Castelo, a 4 de Fevereiro de 1987, com noventa e dois anos de idade.

 *

ALVES, Glória de Lurdes. Filha de António Xavier Alves (Soqueiro da Bouça Nova), natural de São Paio, e de Filomena Albina de Castro, natural de Prado, onde moravam. Neta paterna de João Alves e de Maria do Carmo Fernandes; neta materna de Vitorino José de Castro e de Carolina Rosa Alves. Nasceu em Prado a 5/10/1908 e foi batizada na igreja paroquial a 13 desse mesmo mês e ano. Padrinhos: Manuel Joaquim Domingues, casado, do lugar do Pinheiro, Paderne, e Maria de Jesus Domingues dos Santos, casada, de Remoães. // Casou a 6/10/1930 com o sargento, ou oficial, da marinha de guerra, Manuel dos Santos Morais, de Vila Flor, Trás-os-Montes. O marido sofreu um acidente que lhe afetou a vista, sendo colocado na reserva. Assim, passaram a residir em Bouça Nova, onde mandaram construir uma vivenda. // Em 1951 o seu marido emigrou para o Brasil. // Em Setembro de 1952, no navio “Serpa Pinto” (onde seguiu também o melgacense Manuel Igrejas) embarcou a Glória de Lurdes e os seus três filhos. Pensavam ficar cinco anos, mas acabaram por ficar o resto da vida. // Ela morreu nesse país, viúva, a 21/7/2000 (VM 1144), com 91 anos de idade.  

 *

ALVES, Prazeres de Lurdes. Filha de Libório Alves, natural de Alvaredo, e de Maria Cândida Gonçalves, natural de Prado, moradores no lugar do Souto. Neta paterna de Luís António Alves e de Ana Esteves; neta materna de João Caetano Gonçalves e de Teresa de Jesus Dias, todos jornaleiros. Nasceu em Prado a 15/2/1908 e foi batizada na igreja paroquial a 20 desse mesmo mês e ano. Padrinhos: António Rodrigues, do lugar de Queirão, Paderne, e Leopoldina Alves, solteira, natural de Paços. // Faleceu na freguesia de Paços a 29/5/1999, com noventa e um anos de idade.     


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha




                    Em nossos dias, século XXI, quase ninguém,  a não ser os mais idosos, carregam consigo uma alcunha. Perdeu-se essa tradição. Havia pessoas que as aceitavam, mas também havia aquelas pessoas que se irritavam quando as tratavam pela alcunha. O meu objetivo ao publicar este poema é tentar manter estas alcunhas vivas, de uma maneira engraçada, esperando não ofender ninguém.     



A BRIGA DAS ALCUNHAS

 

 

Certo dia, no Terreiro,

Já lá vai um ror de anos,

Ouvi tocar o sineiro,

Como em briga de ciganos.

 

Era num dia de feira,

Com gente de todo o lado;

Vendia-se pão e seira,

doce mel e gordo gado.

 

Qual não foi o meu espanto

Ao ver o que acontecera:

Chorava, em alto pranto,

O taberneiro Chiquera.

 

O culpado era o Furão

Por bater no desgraçado;

Mas, justiceiro, o Pivão,

Corre com ele a machado.

 

Pataneca, imaculada,

Grita louca, furiosa;

Mas a Toupeira, vistosa,

Dá-lhe uma grande dentada.

 

Vinha da caça o Chivinho,

Com uma lebre à cintura;

E um coelho velhinho,

Sem pelo nem dentadura.

 

Arma logo chinfrineira

Ao ver a mulher na liça;

Dispara prà Peneireira

E acerta no Chouriça.

 

A prima deste, tal fera,

Chicoteia o cretino;

Mas nisto surge a Chaufera

A bengalar o Sabino.

 

Queixava-se da zurrapa,

Da falta de qualidade;

«que o vendesse ao Papa,

Ou a Sua Majestade

 

O engraçado Tenente,

Sempre a levar e a rir,

Não esquecera Creciente,

Onde aprendera a fugir.

 

O Funga tramava uma,

Mas agora já sem farda;

«seria digna dum puma,

Dum professor d’Estugarda.»

 

  Era traquinas, o Pirata,

Jogava com a ilusão:

«Por que andava Batata

Nos braços de São João?!»

 

Surge então o Patarrica,

a cavalo da velhice;

armado em mestre do Bica,

mais chato do que o Chatice.

 

O coitado Choramingas

Até já metia dó;

Então emana o Seringas

Injetando o pobre Cró.

 

Vinham a sair da missa

O Truta e o Tringuelheta;

Logo atrás vinha a Preguiça

A conversar com o Nêta.

 

Dizia ele. -«vê se topas

O que te quero dizer…»

Nisto apareceu a Estopas,

Mais feroz que Lucifer.

 

No meio do burburinho

O Peido atira-se ao chão;

Mas o bom do Ferreirinho

Confundiu-o com um cão.

 

O Pito-Cego – constava –

Não era nada de medos;

Mas o Diabo tramava

A peleja com Seis-Dedos.

 

O Pinga, que era maroto,

E conhecia o terreno,

Calhou-lhe o Russo no loto,

o Cavenca e o Sereno.

 

Veio de longe o Pega

Pra dizer umas graçolas;

Mas logo ali, Boca-Negra,

Lhe atira com o Caçolas.

 

O Cataluna, mavioso,

- já bebera um quartilho –

Chama prà briga o Quinchoso

Que traz com ele o Ceprilho.

 

E para que o povo veja

Que não era brincadeira

Chegou o mação Carqueja,

Mestre Xinto e o Maceira.

 

E o Garage, com dolo,

De conluio c’o Azeiteiro,

Queria gozar a Caciolo

Que socava o Trauliteiro.

 

Nisto apareceu o Barrenhas

- com o Lucas e o Olé –

O fortalhaço do Zenha

A arremedar o Caré.

 

Diz ao Lucas: «anda, bota,

Uma malga especial»;

Mas o diacho do Cota

Pôs-lhe no vinho algum sal.

 

Trazia pedras o Pessêgo,

Que lhas dera seu avô;

Atirou-as ao Borrego,

À Pandeireta e ao Rô.

 

O Carrocinha inspirado

Desenvolvia lindo mote;

Mas com raiva, o Malhado,

Atirou-lhe com o Pote.

 

O Merda-Seca, sem bojo,

Lutava com Caganitas;

Às costas tinha o Pé-Nojo,

Às pernas tinha o Cabritas.

 

O famosíssimo Ringo

- montado num cavalito –

Dançava o tringo-lingo,

Brincava c’o Pirolito. 

 

Zé Pipotes, dito cujo,

- não lhe toquem que derrete –

Dava empurrões ao Corujo

E ao pobre Vinte-e-Sete. 

 

O Caga-Bichas, coitado,

Depois de levar do Pona,

Fugiu lesto para Prado

Às costas da Cavalona.

 

Veio a Ratinha e o Trancas

Botar água na fervura;

O brutamontes do Chancas

Confundiu-os com um cura.

 

Escondeu-se num portal,

De velho e nobre solar;

Mas o rico Carvalhal

Não o deixou lá ficar.

 

Teria de apanhar sova

Mas Lobisome (que sorte)

A pedido da Cristova

Levou-o prò polo norte.

 

Pensais que isto são tretas,

E que a chuva não molha;

Perguntai-o à Baetas,

Ou ao bravíssimo Trolha.

 

Entra em cena o Minoca,

Mais o gigante Pirilau;

Pra surrar o Pata-Choca

E o poderoso Rau-Trau.

 

Mas o excelente Ná

- aspirando brilharetes –

Insulta o Caga-na-Pá,

Dá dois berros ao Piretes.

 

Eram já mil, aos magotes,

Tudo para ali amontoado;

Aos saltinhos, o Pinotes,

A cambar vinha o Cambado.

 

Já se fala em hospital

- em ambulância, e tudo!

Mas eis que chega a Sical

Com a nora do Cacudo.

 

Cessa a luta, a gente bebe,

Mesmo sem presunto e pão;

Abençoada tal sede,

O vinhinho de Galvão.

 

Já rompiam madrugadas,

Ouvia-se coaxar o sapo;

E, na ressaca, o Geadas,

Agredia o Olharapo.

 

A Mantana traz garrote

Para calar o Mindelo;

A correr vem o Mascote

Com um terrível cutelo.

 

Cria-se outra confusão,

alguém ficou sem um olho;

fora o de Cousso, Leão,

arrancara-o ao Zarolho.  

 

Vale tudo nesta luta,

E sem levar ninguém fica;

Tanto apanhava o Truta

Como a santa da Penica.

 

De faca em riste, o Molete,

Andava num pára-arranca;

Pra evitar o Pistolete

Vai de encontro ao Carranca.

 

Movia-se o magno Noia,

Num vai vem sem destino;

Ouvindo pragas da Zoia

E risadinhas do Nino.

 

Trazia o ferro o Farruco

Para ameaçar o Castilha;

 Mas o sabichão do Cuco

Põe-lhe à frente o Garrilha.

 

A Balaca vinha alegre

Depois duma desfolhada;

Embirrou com o Bisegre

E com a Maria Cambada. 

 

O Pelsa só pelas costas

É que ameaça o Lili;

Mas leva coça do Tostas,

Do Carriço e do Mi.

 

De repente, num instante,

Como dono de um rebanho,

Surge o fraco Arrogante,

Trazendo ao colo o Pianho.

 

O Manco, que vinha coxo,

- recordações de Espanha –

Pediu ajuda ao Zé Mocho

Pra se livrar da Pianha.

 

  O irrequieto Alemão

Oriundo doutras greis,

Desafia o Macarrão,

O Polinhas e o Leis.

 

Não contava com o Pi

- Gabardine à “Colombo” –

Mais ágil que Bruce Lee  

Mais astuto do que o Pombo.

 

O Pachorrego e o Pandulho

Fugiam para uma esquina;

Mas a endiabrada Palina

Rebentou-lhes c’o bandulho.

 

O Nelo, levando o Gorro,

Foram prà taberna beber;

Mas o dono, que era Zorro,

Espadagou-os sem querer.

 

Nobre Praça, o Terreiro,

Transformado num Ourique;

Pelo chão vê-se o Tendeiro,

O Marmita e o Alambique.

 

O Pito, amparado ao Cobra,

Caminha devagarinho;

Assobiando uma trova

Que compusera o Nelinho.

 

O Rato, guerreiro mor,

Defendia o Carlota;

Dominava o Ferrador,

Depois de cucar o Tota.

 

O Piroliscas, suado,

Depois de mui pelejar,

Importunava o Morgado,

Aflito para mijar.

 

Mas enfim, chega o Mareco,

Com uma grande caminheta

- onde levava asno e reco –

Transportou Noca, Niceta…

 

Alguém lhes chamou azelhas

- filhos de Alá e de Meca –

Dizem que foi o Pardelhas,

Ou o santinho do Neca.

 

Era noite, e o Serôdio,

Com seu corpo tão dorido,

Diz aos outros: «basta d´odio,

Não batam mais no Zé Q’rido.»

 

Eis que chega da Sorbonne

O Chucha e o Cascalheiro;

E um filho da Tiborne,

O Besteira e o Cieiro.

 

Vinham bater no Virou,

No Graixa e no Marroto;

Mas o Valsas não deixou,

Nem o teso do Canhoto.

 

Impôs-se logo o Anaco,

O Cartucho e o Ganchola;

Juntou-se-lhes o Pataco,

O Louvado e o Grandola.

 

Como vingança, o Colhudo,

Atacou o Caganitas;

Do Louridal veio o Mudo,

Para desancar o Chitas.

 

E já mais para a tardinha

- quase na hora da ceia –

Apareceu o Cerinha,

E o Breguês da cadeia.

 

Levaram tantinha coça,

Tanto pontapé no bucho,

Quem lhes valeu foi o Bruxo

- escondeu-os numa choça.

 

A Maria do Registo

Acusava o Brasileiro

De ter batido no Cristo

E insultado o Tripeiro.

 

O Diós, muito aguerrido,

Encrespava o Carapisso;

Mas furioso, o Querido,

Põe-lhe ao rabo o Ouriço.

 

O Sem Orelha, catita,

Cantava com a Mamona;

E o Pequeno, e Matita,

A comerem da Rabona.

 

O Requitau mais o Morte

Chamaram o Taxista;

Não tiveram muita sorte,

Já o chumbara o Cambista.

 

O Chencho trouxe um cabrito,

Mas sua carne era dura;

Rilhou-a o Perotito,

Mais o Castanha Madura.

 

Caga Mula e o Tringlês

- já fartos de tanta espera -

Cada um, por sua vez,

Surraram o Cafetera.

 

O Sacho levou da Lola,

Do Pepe, da Peneireira;

Por sorte veio a Bicheira

Que lhes deu cabo da tola.

 

O Lilo mais o Fungão,

O Ipa e o Manecas,

Derrotaram o Ganão,

O Cachimbo e o Carecas.

 

O Vigário, já sem boia,

Pedia ajuda ao Manechas;

Veio com pau o Ramboia,

Com achas surgiu o Mechas.

 

O Canhona e o Bordão

Fugiram para o coreto;

Estava lá Capelão,

A-do-Moinho e Soreto.

 

Esmoreciam com fome

O Pedrinha e o Zebumba;

De repente a Ana Home

Empurrou-os prò Catumba.

 

O Galego, bom cristão,

Tirar fotos era vê-lo;

Fotografou o Tirão,

E o elegante Morelo.

 

Ali perto, o Soqueiro,

Convencia o Cabano

A cascar no Brigadeiro,

Socarem o Veterano.

 

De repente o General,

Com um chapéu na cabeça;

Tira fotos ao Pardal,

 Ao Pesetas e ao Peça.

 

Veio o Quingostas da cova

Matar o Cirurgião;

Mas El Cura de La Grova

Tirou-lhes a arma da mão.

 

O Músquel, muito cansado,

Encostara-se ao Bé;

Mas este, algo irritado,

Atirou-o prò Borné.

 

Veio o Braga com ementas

- era somente escolher -

O raio do Ferramentas

Antes preferia beber.

 

Trauliteiro trouxe pão,

O Vila Verde a canja;

Comeu Dois, o Abelhão,

Inda sobrou para o Granja.

 

Terminada a farta ceia

O Ronha botou discurso;

Mas o Lopes da Assembleia

Chamou-lhe cara de urso.

 

Até o animoso Froulas

Saiu ferido das refregas;

O pobre, já sem ceroulas,

Foi dormir à Das Adegas.

 

Já não era a vez primeira

Que se juntavam a Pica,

A Sancha e a Marinheira,

Contra Violas e Zica.

 

O Chantre, Cantra, Facadas,

Andavam sempre de moca; 

Por temerem os Calçadas,

O Peleila e o Noca.

 

Mas daí não vinha o mal,

Como dizia o Feitor:

«Eu temo é o Cabanal,

E o bravo Serrador

 

O Guenaro e o Lisboa

Temiam o Dente d’Ouro:

«comia quase uma broa,

Um presunto e um touro

 

O Botas, o sonhador,

Mais o Carlô e o Mundo,

Atiravam Capador

Para o buraco mais fundo.

 

O distinto Bate a Asa,

No regaço da Marchanta,

Tinha o peito já em brasa,

O coração na garganta.

 

O Bicho Fino era fino,

Mais hábil do que o demo;

Soube burlar o destino,

Ulisses e Polifemo.

 

Deu-lhes a cheirar a puça:

Ao Perinhas, Lampião,

E até à pobre Russa,

Jucas e Tabelião.

 

Robialac trouxe tinta

Para o Pintor pintar;

Um quadrinho com pinta

Para o Rifa o rifar.    

 

O Casanova e o Manetas

Disputavam a Joana;

Mas o chato do Pesetas

Trocou-a pela Betrana.

 

E por fim o Santo Amaro,

Que já bebera um litro,

Apoia-se no Guenaro,

E no fraco Amparito.

 

Terminou aquele inferno,

Peço perdão aos lesados;

À Pitinha e ao Inverno,

Cortiças e Rabiados.

 

Peço à Grila estimada

Mil perdões se a ofendi;

Mal lhe fez o de Parada

Que a cortou sem bisturi.

 

Aos animais da capoeira,

Aos melros e seus afins,

Aos Rolas e Gavieira,

Aos Caixas e Cornetins.

 

Aqueles que não lembrei

Dou-lhes um abraço longo;

O Barrelas, Tecla frei,

O bem trajado Valongo.

 

O Carrapito, esquecido,

Jamais me perdoará;

O Bôlas, de bom ouvido,

O passado olvidará.

 

A Chirela, pedinchona,

À liberdade tão presa,

Foi modelo prà Madona

E prà Diana princesa.

 

Falemos da Cuba bela,

Do Cabra de Cavaleiros,

Do Chona e do Capela,

E dos austeros Lareiros.

 

Do filósofo Carola,

À Picholas ancorado,

Mostrando negra pistola,

De belo punho cromado.

 

O Pelé e o Garrincha,

Fizeram fintas singelas!

Deslubraram Zé Canelas,

Os Varandas e o Guincha.

 

Como esquecer o Mijanços,

Que a terra foi visitar;

Para gozar uns descansos

Teve muito que lutar.

 

O Batatinha, infeliz,

Levou coça da Latona;

Podia fugir, não quis,

Entre as saias da Mijona.

 

Eu esquecer-me do Grelo?

Do Várzea ou do Pé d’Anjo?

Da Mortinha, Garabelo,

Papa Figos, do Marmanjo?

 

Do Lascas aventureiro?

E do bom Papa-Café?

Do Cá t’Espero porreiro?

Do Pica Três e do Mé?

 

E para ti, sem alcunha,

Aqui fica registado:

«escapas por uma unha

Mas não durmas descansado

 

Podes ser até Rajá,

Rei dos reis, Imperador;

Se eu quiser és Fungagá,

Zé do Burro, Pinga-Amor.

 

Podes ser Joana d’Arc,

Do Egipto, faraó;

Não te livras que te marque

Com o meu ferrete em Ó.

 

Posso chamar-te Fadista,

Ou mesmo Zé dos Anzois;

Remendão e Anarquista,

Um Arranja Guarda-Sóis.

 

Se todos batem no Sério,

Que o socorra o Misérias;

Que anda no presbitério

Em busca do pobre Lérias.

 

O pobrezinho Rabicho

Ficou muito magoado;

Mas o seu primo, o Nicho,

Vingou-se no Rabiado.

 

Pra acabar com a contenda

Vou chamar o Mata-Três,

Pode ser que Perrim aprenda

A lidar com o Tringlês.

 

E agora, na despedida,

vou dar um murro em mim;

assim é gozar a vida:

bater e levar sem fim.