terça-feira, 18 de dezembro de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

                                                                        Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
Casa da Portela de Paderne
 
CASA PIA
 
     A Casa Pia de Lisboa foi fundada em 1780, no reinado de Maria I, pelo Intendente da Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique. Ali eram (e são) recolhidas crianças órfãs, pobres, abandonadas, as quais terão oportunidade de aprender uma profissão, tirar um curso, tornar-se uma pessoa digna. Acontece que algumas delas não conseguem esses objetivos, mas a culpa é de todos e de ninguém. De Melgaço foram para lá uns quantos rapazes, e pelo menos dois deles, irmãos, de apelido Rodrigues, alcançaram êxito. Ambos licenciados, um, engenheiro, foi há uns anos atrás Secretário de Estado dos Transportes, e depois disso tem ocupado lugares importantes em grandes empresas nacionais; o outro é (foi) professor do Ensino Secundário em Lisboa.     
 
 

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CASA DO POMBAL
 
     Sita na freguesia de Remoães. O último titular desta Casa, outrora poderosa, foi Manuel Joaquim de Sousa e Castro Morais Sarmento, casado com Emília Correia Pimenta Feijó (esta senhora morreu a 13/10/1894 e o viúvo a 18/10/1902); a sua filha adotiva, Maria do Carmo Exposta, que casara em 1897 com Luís José de Sousa Pinto, herdou tudo depois da morte do tal Manuel Joaquim. Lentamente os bens foram desaparecendo, e hoje essa Casa fidalga é uma sombra do passado (ver “Padre Júlio Apresenta Mário”, p.p. 134 a 137).
 
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CASA DA PORTELA DE PADERNE
 
 A esta Casa pertenceu o Dr. Vitoriano da Glória Ribeiro de Figueiredo e Castro (1860-1951), por ser filho de Lourenço José Ribeiro Codesso de Figueiredo e Castro e neto de Jerónimo José Codesso Soares de Figueiredo e Costa (ver Casa da Azenha). // Esta Casa, em finais do século XX e inícios do século XXI, tem servido de modesto restaurante. Na parede ainda se pode observar o quadro a óleo do deão Manuel Soares da Costa, provavelmente um dos antigos proprietários. 

eclesiástico e fidalgo
 
 

 

 

 

 

 





 
 

 
 
 
 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de OS LUSÍADAS de Camões)
 




Primeira Parte

11


Doença destruiu parte do povo,

Poucos sobreviveram à chacina;

Em nome de um deus e mundo novo

Matam lacaios, chefe, concubina…

Os que restaram foram para o covo,

Cumprindo penas, sua cruel sina.

E assim, privados da sua liberdade,

Transformam-se em noivos da saudade.

 12
 



E para quê, senhores, tanto castigo…

Que mal fizera aquela pobre gente?

Naquele sítio não havia mendigo,

Nenhum ser maltratado ou indigente;

Todos tinham sopa e persigo,

Um sorriso nos lábios de contente.

Para quê destruir quase uma nação,

Tratá-la, como fatal maldição?

13

Mais tarde vieram os jesuítas,



No alforge a evangelização;

Gente fanática, vis parasitas,

Esmagando virtude, sã razão.

Por palavras, cem mil vezes reditas,

Impuseram nova superstição.

E pra que a coisa parecesse digna

Tornaram a fé dos outros maligna!

14

E assim se foi criando um país,



Dezenas de vilas, grandes cidades;

Mil capelas, a igreja matriz,

Grossas riquezas, e cem mil maldades.

Explorou-se com ganas e perfis,

O café tornou-se rei das vaidades.

Muitas escolas, e até colégios,

Surgiram, e os muitos privilégios.  

15

Pra produzir açúcar, engenhos mil,



De África levaram os escravos;

Gente da Europa foi para o Brasil

Em busca de ouro, rosas e cravos.

De todo o lado, jovem, ou senil,

Queria pertencer ao grupo dos nababos.

Por fim, a descoberta da borracha,

Criou ricos, alguns só por laracha.
 
 
 
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PARA VENDA

10 euros


10 euros



Nota: a este preço, acrescem os portes . 
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

LINA - FILHA DE PÃ

romance
 
Por Joaquim A. Rocha


legionário



8.º Capítulo

  

     O tribunal de Melcarte andava numa azáfama: delegado do Procurador da República, advogados, copista, oficial de diligências, outros funcionários, todos eles se movimentavam a fim de preparar o julgamento mais importante desde que havia tribunal no concelho. Apareceram quatro jornalistas, todos da província do Minho: de Monção, Valença, Viana do Castelo e Braga; queriam registar tudo para a posteridade. O “Notícias de Melcarte” abordava o assunto com ironia, o seu redator-chefe achava graça àquela história, e os leitores já não sabiam se deviam levar a coisa a sério ou a brincar! 

     Os dias foram passando, e por fim marcou-se o dia do julgamento. A sentença foi relativamente leve para o crime cometido. Dois anos de prisão, com pena suspensa, e seis meses deportada para fora do concelho. O juiz tivera em conta o facto de a Lina ter tratado bem a criança, de se ter portado como verdadeira mãe, de não ter cometido crimes nos últimos três anos, enfim, pesou também o facto de ser mãe da filha de um magistrado.

     Deram-lhe a possibilidade de escolher a terra para onde iria. Escolheu Monção. Ficava a pouco mais de vinte quilómetros de Melcarte e lá conhecia algumas pessoas. Não lhe seria difícil sobreviver.

    Até achou piada àquela sentença: iria conhecer outra gente, teria várias aventuras, arranjaria um novo amante, mais novo e giro do que o castrejo, já a dar sinais de senilidade, e nada de crianças: davam muito trabalho e chatice. Não criara, a bem dizer, a dela, quanto mais cuidar as crianças dos outros. Essa odisseia já passara, agora viriam mais. Ela ainda se sentia com energia suficiente para enfrentar novos desafios. O demo pedia-lhe mais acção e ela estava ali para satisfazer os seus desejos e tolices.

     Quando chegou a Monção foi procurar as tais pessoas que ela conhecia. Perguntou-lhes se podia ficar lá em casa – seria por pouco tempo.

 

- Ó mulher: nós aqui não temos espaço para ti, a casa é muito pequena; mas o nosso vizinho, o senhor Acúrsio, ficou viúvo há pouco tempo e anda à procura de uma criada, vamos lá ter com ele.

- O que é que ele faz? – perguntou a Lina, tentando colher informações que no futuro lhe poderiam ser preciosas.

- Tem uma oficina de latoeiro, também trata de canalizações, é funileiro, enfim… tem muito trabalho e agora vive sozinho.

- E os filhos? – pergunta a recém-chegada cheia de curiosidade.

- O casal teve dois rapazes, mas emigraram ainda novos para o Brasil e nunca mais deram notícias. Devem ter morrido por lá; dizem que o Brasil tem um clima muito doentio.

- Vamos então ter com o velho, pode ser que me contrate.

 

     O senhor Acúrsio ficou radiante com o aparecimento da Lina. Andava a tomar as refeições nas tascas, sempre fritos, aquele cheiro a vinho, ele que não era muito de bebidas, aquele ambiente de gente sem educação, cada palavra sua asneira, “carvalhos” a torto, e a direito, sempre a cuspir no chão, borrachos e andrajosos. Precisava de uma mulher em casa, que tratasse da roupa e da comida, que limpasse tudo. Gostava de asseio. Ele pagar-lhe-ia um ordenado justo, não poderia dar muito, não era rico, mas a empregada não se arrependeria de trabalhar para ele.

     A Lina aceitou o emprego. Mas, à medida que o foi conhecendo, a sua simpatia para com ele foi esmorecendo: muito regrado, beato, não perdia uma missa, rezava antes das refeições, agradecia ao seu Deus ter-lhe concedido a graça de existir, de poder usufruir de todas as coisas belas do mundo. Enfim, começara já a preparar o caminho para o céu; caso lá chegasse, instalar-se-ia sob a colcha divina e ali permaneceria até à consumação dos tempos!

      Não a requestava, não a desejava, nem sequer reparava nas suas bonitas pernas, nos seus redondinhos seios, como os patrões anteriores, respeitava-a como se fosse uma autêntica senhora, a ela que já se deitara com dezenas de homens! Estava em presença de um santo. Às tantas atreveu-se a perguntar-lhe:

 

- Senhor Acúrsio: o senhor nunca traiu a sua esposa?

- Que pergunta, Lina, que pergunta! Eu alguma vez iria fazer uma coisa dessas! O casamento é sagrado; Cristo nunca me perdoaria uma traição desse tamanho. Entre mim e a Zenilda havia amor, respeito e dedicação. Eu vivia para ela e ela para mim.

- E agora? Ela já morreu…

- Antes de partir, para ir ter com o Senhor, eu prometi-lhe que jamais meteria outra mulher na minha enxerga e na minha vida. E promessas são para cumprir. Esta vida é curta; a outra, a que iremos viver depois, é longa, eterna, e por isso devemos levar a nossa alma limpa de pecados.

- E o diabo não o tenta, senhor Acúrsio?

- Como tenta a todos. Belzebu é nosso inimigo, só nos quer mal. Persegue-nos, e é por isso que nós lhe devemos resistir, praticando o bem, sendo bons, frequentando a igreja, rezando aos santos, não nos deixando cair em tentação.     

- E o prazer? Não tem desejos carnais?

- Eu já estou velho; a energia que me resta gasto-a em coisas mais importantes, no trabalho, por exemplo, nem sequer penso nessas coisas.

- O senhor Acúrsio ainda está para as curvas; vai ver que ainda arranja uma mulher para lhe aquecer os pés no inverno. 

- Cruzes, abrenúncio! Que Deus me proteja.

 

     A conversa prolongou-se, mas o idoso resistia heroicamente a todas as tentações. A virtude, para ele, era um bem que não se desbaratava.

     Lina chegou à conclusão que por esse caminho não ia lá. No coração do velho só havia amor, bondade, compreensão; a sensualidade, o ódio, a inveja, a vil intriga, estavam ausentes, distantes, daquele ser quase perfeito. O preço que praticava na sua oficina era diminuto, só ganhando o suficiente para sobreviver; quando aparecia alguém que era considerado pobre, ele apenas cobrava os custos do material utilizado – o seu trabalho era gratuito.   

    «Por enquanto vou-me aguentando por aqui; mas preciso de arranjar melhor» - diz de si para si a perversa mulher. «Agora tenho de ir a Melcarte, mas se me apanham vou para a prisão, como fazer 

     De facto, Lina tinha umas contas a ajustar com a prima do senhor Manuel, e não deixaria por mãos alheias o castigo. A mulher morava sozinha, era viúva, e seria relativamente fácil dar-lhe umas cacetadas no lombo. «Não se rirá de mim por mais tempo» - prometeu a ela própria. O problema residia agora na maneira de ir à Vila de Melcarte sem levantar quaisquer suspeitas. Quanto a transporte, estava assegurado: a camioneta vinha todos os dias, de manhã e de tarde, buscar os passageiros ao comboio. Iria de manhã e viria à tardinha. O pior é que a conheciam, sobretudo depois do famoso caso do parto suposto. Pensou maduramente no assunto e encontrou a solução. A Legião Portuguesa nessa altura ainda era respeitada por muitos portugueses. O regime corporativista criara essa força miliciana em 1936, e imensos homens – funcionários públicos, artistas-artesãos, lavradores, operários… – aderiram, vestindo a farda verde, julgando-se mais importantes do que na realidade eram. Pois bem: um legionário monçanense andava-se a fazer a ela. Iria pô-lo à prova: conseguia-lhe uma farda, que ela adaptaria ao seu corpo. Um bigode postiço, o cabelo cortado à rapaz, e ei-la pronta a passear-se pela sua terra natal sem ser incomodada por ninguém; provavelmente até iria jantar a uma tasca e não lhe cobrariam um tostão. Um dia encontra-o na rua e diz-lhe:

 

- Hipólito, já reparei que te interesso, os teus olhos não mentem, são um livro aberto, e tu também me interessas, mas primeiro tens de provar que gostas mesmo de mim, não é só o ir para a cama comigo. Para esse efeito já tenho o meu patrão.

- Pensava que ele não era teu amante! O santinho, hem!

- Deita-se comigo, mas não faz nada: é um velho eunuco. Só quer conchego. Coitado! Mal pode com as pernas. Naquele corpo já não circula a seiva. Tu sim, és novo, forte, um poço de energia… o verdadeiro rei da capoeira; mas só me terás… quando eu quiser. E para isso tens de me ajudar.

- Em que te posso ser útil?! É só pedires.

- Arranja-me uma farda da legião; já sei que tens a chave do armazém de fardamentos e armas.

- Fazes ideia do risco que eu corro se descobrem? Ainda me tomam por comunista, a mim, que os persigo incansavelmente, que tento acabar com a sua maldita raça. Só se for à noite. E para que diabo queres tu uma farda de legionário?! Vais “caçar” alguém?! – perguntou, a rir.

 

     Ela narrou-lhe toda a história, à sua maneira, fazendo-se passar por vítima, e o lorpa acreditou em tudo que ela lhe foi contando. Ele então solicitou-lhe:  

 

- À meia-noite estás ali perto do armazém. Quando te der sinal, avanças. Esperemos que nada corra mal. Tens de me prometer uma coisa: se te apanharem não me comprometes.

- Prometido. Podes crer que ninguém descobrirá a tramoia! Nem o próprio demónio!

 

     À meia-noite daquele dia lá estava ela atenta à chamada do Hipólito. De repente viu um braço a fazer-lhe sinais. Era ele. Avançou resolutamente em sua direção. Ele abriu a porta, deixou-a entrar, e depois voltou a fechá-la. Era preciso ter mil cuidados, pois estava a sua reputação em causa. Acendeu a luz, avançou para uns armários enormes e disse-lhe:

 

- Aqui estão os fardamentos: do outro lado estão as botas, os cintos, etc. Tens de experimentar os números mais pequenos, mesmo assim terás de lhe dar um jeito em casa; quanto às botas é que não sei se arranjaremos um par para o teu pé – vai ser muito difícil, pois o número mais baixo que há é o 37. Terás de vestir umas meias de lã, muito grossas. Experimenta esta farda.

 

     Ela despiu a camisola e a saia, que passou para as mãos do Hipólito, ficando apenas em cuecas e soutien. O homem ficou excitado, mas não lhe convinha agora entrar em maluquices, pois o risco era demasiado grande – tinham de sair dali o mais rápido possível, não faltariam outras ocasiões.

 

- Estas calças não me estão mal; com um jeitinho, ficam à minha medida. Vamos agora ver a camisa e o blusão.

 

   Experimentou algumas camisas e lá encontrou uma cujo número se aproximava da sua medida. Depois foi a vez do blusão. Após três ou quatro tentativas vãs lá achou um que se ajustava ao seu corpo. Quanto às botas, foi mais difícil a escolha, mas teve de optar por um par, o mais pequeno que ali se achava. Enrolou tudo bem enrolado numa manta que ali estava e diz ao homem:

 

- Vamos embora. Sei que te apetece fazer amor, leio nos teus olhos de garanhão, mas aqui não convém muito; por outro lado, tu estás um bocadinho nervoso e não te ias sair lá muito bem. Não te faltarão oportunidades.

 

     Saíram com todas as cautelas. Quando entrou na casa, o senhor Acúrsio ressonava. «Filho da mãe de velhorro; ressona que nem um urso», resmungou ela, pois o seu quarto ficava mesmo ao lado do dele. Antes de se deitar foi à cozinha, comeu umas bolachas, amornou um pouco de leite e bebeu-o: «para ficar mais aconchegada» - monologou.



 
 

 

 

 



 



 



 

 



 

 
 

 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

OS MEUS SONETOS
 
Por Joaquim A. Rocha







ATRAVÉS DO ESPAÇO


Deverei permanecer nesta Esfera,

Se para conquistar há infinito?!

Mata-me, destrói-me, esta espera,

A angústia de me saber ser finito.

 

Quero embarcar em louca quimera,

Romper pelo espaço sem atrito;

Iniciar inesquecível era…

Que o universo ouça meu grito.

 

Quero que a morte em mim não vingue,

Que em mim o destino se cumpra jamais;

Quero cortar as cordas deste ringue,
 

E transportar meus belos ideais

- Numa linguagem multilingue –

Pelos imensos astros siderais!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

GENTES DO CONCELHO DE MELGAÇO
 
FREGUESIA DA VILA (SMP)
 
Por Joaquim A. Rocha




ABREU, Tomaz José. Filho de Leão José Gomes de Abreu e de Maria Pereira da Costa Araújo. Neto paterno de Lourenço José Gomes de Abreu Coelho de Novais e de Bernarda Teixeira, solteira, moradora intramuros; neto materno de Domingos Tomaz Pereira de Araújo e de Sebastiana da Costa. Nasceu em SMP a 9/7/1770 e foi batizado na igreja a 13 desse mês e ano. Padrinhos: seu tio, João Manuel Pereira da Costa Araújo, e sua esposa, Ana Maria da Silveira. Testemunhas: Manuel Gomes e Pedro Gonçalves da Ribeira. // Ainda chegou a frequentar os estudos eclesiásticos, mas abandonou-os. // Foi escrivão do público e administrador do correio local. // Tomou parte ativa na conjuração melgacense de 9/6/1808. // Casou na Vila de Melgaço com Constança Teresa, filha de Manuel António de Araújo e de Maria Gonçalves, residentes na Rua Direita, SMP. // Moraram na Calçada. // Enviuvou a 13/3/1811. // Por ser liberal, foi preso pelos capangas de D. Miguel e encerrado nas cadeias do castelo de Lamego, onde morreu em Dezembro de 1832 «aonde se acharia preso por crime de constitucional», escreveu o padre que elaborou o seu assento de óbito. O dia certo da sua morte não se sabia. Escreveu mais o padre-cura Manuel Joaquim Quintela: «… e para constar fiz aqui esta lembrança aos 4/2/1833          

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LIVROS PARA VENDA
 
 
10 euros
 
 
10 euros
 
 
Os livros podem ser pedidos através do telemóvel n.º 965815648 ou do e-mail joaquim .a.rocha@sapo.pt  

domingo, 2 de dezembro de 2018

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha


desenho de Manuel Igrejas



POVO PORTUGUÊS


Povo que lavras as terras

E no teu peito encerras

Toda a nossa tradição;


Povo que pescas nos rios,

Sob calores e mil frios,

Prà nossa alimentação;

 Povo que andas na serra

Em tempo de paz, na guerra,


Com ovelhas e um cão;


Povo que extrais sem mistério

Toda a espécie de minério

Em terrível condição;

 Pode haver quem te “defenda”,

Quem o teu voto pretenda,


Mas a tua sorte não!
 

 Povo que tratas a vinha

Para que na mesa minha

Haja pinga à refeição;
 

Povo que semeias o trigo,

Colhes maçãs e o figo,

Pra nossa satisfação;

 
              Povo que trabalhas nas obras,

Sujeitas-te a duras provas,

Para termos habitação;


Pode haver quem te “defenda”,

Quem o teu voto pretenda,

Mas a tua sorte não.


Povo que lavas as ruas,

As casas que não são tuas,

Pra nossa acomodação;

 Povo, povo, não te iludas,

Não esperes as taludas,



Mudanças de condição;


Tu és a força da vida,

És a nossa guarida,

sem ti não havia pão;

 Diz ao mundo que estás vivo,

Deixaste de ser cativo,


És o cerne da nação.


Pode haver quem te “defenda”,

Quem o teu voto pretenda,

Mas a tua sorte não!