quinta-feira, 15 de novembro de 2018

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico
 
Por Joaquim A. Rocha 




 
CAPÍTULO XVI (continuação) 
 
 
     O relógio continuou a dar as horas ininterruptamente, os dias sucediam-se, embora parecessem imensamente longos, intermináveis, e nós começámos a ficar “velhos”, isto é, veteranos de guerra.

     Para terminar este capítulo da minha passagem por Cacheu vou contar-te o episódio do sargento Gordo: num desses patrulhamentos pela selva africana deparámos com danoso pantanal – quase nos cobria! Pusemos a arma e a sacola dos carregadores à cabeça e toca a atravessá-lo. Levantávamos com mil dificuldades um pé para assim podermos colocá-lo mais à frente. Os militares mais altos tinham, obviamente, menos problemas do que os baixos. Em fila indiana lá fomos vencendo esse tétrico espaço que parecia nunca acabar. Se os “turras” aparecessem estaríamos tramados!

     Eu, apesar de média estatura, tinha a vantagem de ser leve. O sargento Gordo, pescoço de hipopótamo, o suor a escorrer-lhe pela careca abaixo, esse, coitado, via-se aflito para conseguir mexer-se. Um a um, os homens iam avançando, à excepção dele.

     Como não suscitava nenhuma simpatia aos soldados (e quiçá aos outros sargentos e até aos oficiais), estes, quando passavam por ele, sorriam disfarçadamente. Talvez pensassem: «Eis a nossa vingança; vai ter de se humilhar, pedindo-nos auxílio.»

     De facto, e já convencido de que por si só nada conseguiria, usando uma hipócrita máscara de menino bem comportado, pede amavelmente: «Ajudem-me aqui, por favor; não sou capaz de me ver livre desta lama pegajosa e repugnante.»

     Prestámos-lhe socorro de seguida, porém, aquele sorriso zombeteiro, não abandonou os lábios dos magalas.
 

- Ótima lição – exagera Henrique. – Espero bem que a tenha aprendido.

- O seu intelecto já estava demasiado enferrujado para aprender fosse o que fosse. Mas, como as palavras são como as cerejas, tenho mais um triste episódio para te narrar. Queres ouvir, ou já estás cansado?

- Cansado, sim; mas ansioso por tudo saber. Conte, conte; pode crer que fazia uma ideia errada do que lá tinha ocorrido.

- Até 25 de Abril de 1974 estes eventos não podiam ser descritos, não podiam circular livremente; depois o tempo passou, cada qual foi para seu lado, a construir o futuro, a criar a família, enfim!... Mas ouve:

     Uma das operações mais traiçoeiras foi aquela em que se desencadeou uma terrível tempestade: chuva, vento, trovoada – o inferno! O nosso objetivo seria desalojar o inimigo de uma zona determinada, considerada estratégica pelos peritos. Sabia-se que ele aí era forte e nós teríamos de lhe reduzir as forças ou até torná-las nulas.

     Avançámos a pé, por entre caminhos estreitos, autênticas veredas, e capim avantajado. De vez, em quando, ouvia-se o ruído da avioneta, dentro da qual se encontrava, além do piloto, o segundo comandante do batalhão, um major de estatura elevada e cheio de peneiras. Achava-se o máximo! Nem Narciso, o da mitologia, filho de um rio e de uma ninfa, se adorava tanto!

     Esse mesmo major, em aziago dia, na Vila de Teixeira Pinto, com toda a sua déspota autoridade, chama-me e sarcasticamente pergunta: «Por que é que o soldado não traz o bivaque na cabeça?!»

     «Meu major – respondi eu, tremendo como folhas de uma árvore em dia de vento – esqueci-me dele, mas também não saio do quartel, só vou ali ao bar.»

     «Não quero saber aonde o soldado vai; volte para trás e ponha-o na cabeça

     Não me deixava qualquer alternativa: «Sim, meu major.»

- Era severo – diz Henrique, agastado.

- Estes indivíduos, com o seu feitio autoritário, têm a carreira garantida. Hoje é general e tem um cargo importante!

    
 
 
 


     Lá do alto, do céu, falava com o nosso capitão, dando-lhe instruções acerca da missão: «Vão muito bem, avancem» - dizia num vozeirão que não deixava margem para dúvidas: era o líder!
 



     O capitão, numa voz vacilante, mas simultaneamente firme, respondia: «Meu major, com esta tempestade julgo prudente não continuar

     «Capitão: avance com os seus homens; não será uma simples tempestade que nos impedirá de cumprir com êxito os objectivos previamente delineados. Não admito hesitações: avancem

     O oficial olhava para nós com uma certa insistência, notando-se-lhe nos olhos a chama da revolta. Estava entre a espada e a parede: não podia desobedecer ao seu superior hierárquico, mas custava-lhe mandar avançar, talvez para o sepulcro, aqueles homens encharcados até à raiz dos cabelos e enervados com a trovoada, cada vez mais ameaçadora, ventos ciclónicos, e chuvas como só caem nessa parte do mundo.

     «Capitão!» – novamente a voz do major – «o piloto diz que tem de se retirar sob pena da avioneta cair; continue a cumprir as minhas instruções e anule o poder inimigo; não aceito, nem admito, quaisquer desculpas, nem fracassos, nem acanhamentos; amanhã conversamos

     O aparelho voador retirou-se apressadamente. O meu comandante, colérico, enraivecido, descarregou toda a sua fúria: «Sacana; pensas que estás a lidar com animálias?!»

     Virando-se para os alferes e sargentos, diz-lhes: «Vamos prosseguir, mas lentamente; pode ser que a tempestade amaine.»

     Felizmente, ou talvez não, a chuva resolveu deixar de cair, e o céu, até então cinzento e zangado, olhou para nós com outra cara. Lá fomos indo, e às tantas começámos a notar que o carreiro se alargava, bifurcando-se em seguida, sinal de que estava próxima uma tabanca.

     Não demorou muito a ouvir-se alguns tiros dispersos – os vigias da aldeia (quase sempre empoleirados em cima de altas árvores) comunicavam com os seus camaradas. Habituados como estávamos a este tipo de recepção, continuámos a marcha, não já como homens, mas como verdadeiros predadores: a presa não estava longe! Mais cem metros e deparámos com umas quantas habitações: dentro apenas existiam objectos sem qualquer valor. O capitão recomenda: «Antes de pegarmos fogo a esta bugiganga toda vamos primeiro verificar se há mais palhoças; não quero que fique de pé uma que seja.»

     Ainda não acabara de falar e eis que se faz ouvir, ali bem perto, o rebentamento de uma granada de morteiro. «Abriguem-se!» - grita o capitão a plenos pulmões.

     Os rebentamentos não tinham fim. A bronca começara. Os “turras” conheciam a nossa posição no terreno e massacravam-nos sem dó nem piedade. Das árvores tombavam estilhaços, como de fruta madura se tratasse! Mais de meia hora depois o silêncio cúmplice visitou-nos. Silêncio perverso. Mais morteiradas. «Pulhas!» Estavam mesmo dispostos a cavar ali a nossa sepultura, cobrir-nos com a mortalha derradeira. E nem bazuca, nem os nossos terríveis morteiros, muito menos as metralhadoras, serviriam numa situação destas! Estávamos na designada «zona de morte!» Caímos nela que nem patinhos!

- Afinal o tal major não era tão bom estratega como dera a entender!

- Pelos vistos não, amigo Rique. Bazófia tinha muita, mas saber… Continuando: julgo que esgotaram as munições, ou então acharam que para lição bastava! Fez-se o balanço da tragédia: seis feridos, nenhum morto. E agora? Os helicópteros não levantavam voo devido às rajadas de vento, e nós no coração, no âmago da floresta! Os enfermeiros fizeram o que tinham a fazer; nós improvisamos macas e toca a transportar os colegas atingidos – naquele local não podíamos permanecer mais tempo.

     O lugarejo ficou para trás. Intacto! A nossa missão terminou num fiasco, numa derrota humilhante!

 

*     

     Quando chegámos ao quartel tínhamos à nossa espera o correio da metrópole: da família, dos amigos, das madrinhas de guerra.

- E aquela moça, nunca mais recebeu carta dela? – pergunta Henrique, com subtil curiosidade.

- Sim, recebi. Estás a pensar em quê?! Em namoro?! Nada disso, meu amigo. Eu ia alimentando um certo mistério, mas não passava disso. Não pretendia prender-me tão cedo.

- Leia, leia, uma cartinha da Fernanda.

- Ainda te lembras do nome dela! Vou fazer-te a vontade, mas não estejas já a ver vestidos brancos, flores de laranjeira! Fica atento:

 

Querido afilhado  

 

                   A continuação de boa saúde é esse o meu desejo. Fiquei muito triste por ver que realmente demorei a escrever, mas isso deve-se ao facto de ter andado adoentada, com gripe, sem vontade de coisa alguma. Sabe que se tem apossado de mim uma certa nostalgia, uma tristeza profunda que não sei explicar?! Mas não se aflija, são coisas passageiras, sem importância, próprias das raparigas da minha idade. Mando-lhe um postal da minha Vila, para a ficar a conhecer. É uma das mais lindas do nosso país. O castelo é monumento nacional, a sua construção remonta ao século XII, segundo dizem. À torre de menagem nunca subi, não que tenha medo, mas aquilo é muito escuro, por isso não passei da porta por onde se entra; ora às muralhas já tenho ido dezenas de vezes e para mais, eu, que a minha casa não fica longe. Daí avistam-se paisagens de sonho. Se algum dia cá vier vai ver que não minto, nem exagero. Então a sua labuta tem sido muita? Deus queira que não, mas também nós não podemos viver sem fazer nada, pois até distrai bastante e faz-nos sentir responsável por aquilo que fazemos; eu, por exemplo, ando a praticar, devido a não ter experiência, mas logo que me seja possível lutarei por um lugar de categoria, bem pago. Quero ter uma boa posição, sou ambiciosa, sabe?

    Por hoje é tudo, só lhe peço que tenha confiança em Deus, pois qualquer dia há-de regressar à sua terra, muito feliz e honrado por ter cumprido o dever para com a nossa pátria. Receba muitos abraços da madrinha muito amiga.

                                                                     Fernanda   

 

     Henrique ficou boquiaberto com o conteúdo da missiva. Não esperava, de uma provinciana, uma prosa tão escorreita. Comenta:
 

- A sua madrinha de guerra estava politizada. Não obstante ser uma jovem, considerava o serviço militar uma honra, até parece que sentia orgulho em si só pelo facto de se encontrar em África! Não acha?

- Concordo plenamente contigo. Até te digo mais: ela estava muito mais esclarecida politicamente do que eu. Quando deixei a minha terra tinha os olhos completamente vedados à política. Queria lá saber quem governava o país, se o fazia corretamente… - além de Salazar, que só vira nos retratos, não conhecia mais nenhum governante! Ela sim, usava uma linguagem cheia de subtileza, próxima da doutrina corporativista. Provavelmente convivia, no trabalho e em casa, com pessoas afetas ao regime então vigente.

- E as outras?!

- As outras madrinhas só pensavam no namoro, no casamento. Esta era de facto especial, um mimo!
 

*
 

     Ainda permanecemos mais algum tempo no burgo de Cacheu. Operações de rotina, como lhe chamavam, havia-as de vez em quando. Entrávamos nas tabancas com a fúria do demo, e no regresso as labaredas avistavam-se a léguas de distância.

     Alguns colegas traziam com eles catanas e outros objetos, sobretudo figuras esculpidas em madeira, que por lá encontravam; eu nunca peguei em nada – por escrúpulos, ou por superstição, não sei explicar. Continuei as minhas pescarias no rio e a escrever cartas, muitas cartas: devia ser o soldado que mais escrevia!

     Através dessa correspondência acompanhava o desenrolar do conflito em Angola e Moçambique. Escreviam os meus conterrâneos:

 

 «… quanto a isso, eu também não tive melhor sorte, pois encontro-me no norte, numa das piores zonas, estou na região dos Dembos; no local onde estou só há dois civis e uma sanzala de pretos, e o acampamento mais próximo do nosso fica a cinquenta e sete quilómetros, de maneira que também tenho que alinhar para as operações, já fui a algumas e temos tido bastantes problemas com os turras, mas o que é preciso é chegarmos ao fim da comissão com o canastro direito e mais nada!»
 

     «Por aqui continua tudo mais ou menos na mesma, embora às vezes com bastante azar, pois em quase todas as batidas tem havido porrada, e temos também a lamentar mais um morto…»
 

- Três frentes, três cemitérios!... – lamentava-se Henrique, bastante pungido.

- É verdade. As estatísticas oficiais não divulgavam os números certos; temiam uma reação violenta do povo.

     Tomava também conhecimento de tudo o que se passava na metrópole, sobretudo na minha nunca esquecida terrinha.

     Sabes do que mais gostava? De ir fazer compras às aldeias indígenas, àquelas, claro, onde se podia entrar sem correr grande risco. Lá chegados, começava-se a discutir o preço: o porco, tanto; a galinha, tanto; a vitela, tanto! Regateava-se como nas feiras portuguesas, por vezes não se chegava a acordo. Contudo, regressava-se quase sempre com a camioneta a abarrotar de géneros.

- Vocês não recebiam os víveres da Manutenção Militar?

- Certamente, meu caro; tratava-se aqui de adquirir produtos frescos e a baixo custo, quase ao preço da uva mijona! Nem sequer podes imaginar…

- Então os nativos não tinham noção do valor das coisas?!

- Não te esqueças que essa gente nunca fizera antes comércio; viviam no interior da mata africana, poucos eram aqueles que nos entendiam. Por outro lado, julgo que tinham medo da tropa branca. Até te digo mais: quando o nosso exército precisava de limpar as margens de uma picada, de um caminho ou vereda, contratava vários homens de cor e sabes como lhes pagavam? Com arroz! Um dia de trabalho, sol a sol, valia dois ou três quilos de arroz! Consideravam-no a base da sua alimentação.

- Tão pouco? E eles não reclamavam?

- Penso que não; mas o que podiam eles fazer? Queixar-se a quem? O exército português é que mandava, agia como bem lhe apetecia e entendesse. E como era perigoso aquele trabalho! Os indígenas andavam descalços, quase nus, a derrubar todo aquele imenso capim e arbustos à catanada; por vezes eram mordidos pelas serpentes e desatavam aos gritos, pensando que iam morrer – e decerto que alguns deles pereciam devido a essas causas. Sabes que não podiam matar a pequena cobra verde?

- Por quê?! – interroga Henrique, com alguma curiosidade.

- Porque ela representava para a sua crença um deus, ou o espírito de um seu antepassado. No princípio não compreendia o seu pavor, só depois é que perguntei e me esclareceram.

- A mitologia africana, pelos vistos, é mais rica do que os europeus pensavam.

- Podes crê-lo, meu amigo; podes crê-lo. E ainda muita coisa está por descobrir e pesquisar. Os estudiosos desta matéria têm em África um vastíssimo manancial de investigação.

    Tinha muita pena desses desgraçados, mas o que podia fazer? Nós próprios, soldados, como te disse, éramos no dia-a-dia maltratados, humilhados, pelos oficiais e por alguns sargentos! As coisas agora são muito diferentes, dizem; há uma certa dignidade, respeito pelo inferior hierárquico. A democracia pluralista assim o aconselha, embora dentro dos quartéis a disciplina militar tenha de ser mantida de acordo com os velhos parâmetros, sob pena de tudo desmoronar.      

- Não se iluda, meu caro Cândido. Melhorou, mas «tropa é tropa!» A disciplina militar, como disse, e bem, terá sempre de existir, de outro modo alguns subordinados perderiam o respeito pelos seus superiores, o exército esfrangalhava-se. Quer que lhe conte o que se passou num conhecido quartel, já depois do 25 de Abril? É óbvio que eu não assisti, mas contaram-me. Ouça então: o comandante do aquartelamento achou por bem que todas as praças e sargentos, bem como os oficiais, passassem a comer do mesmo rancho e nas mesmas mesas – a democracia assim o impunha. Ora, o que aconteceu? Nos primeiros dias as coisas correram bem; os soldados estavam um pouco inibidos, desconfiados, pensavam que aquela decisão tinha provindo de um doido ou de alguém que temia represálias políticas.

     Passou-se uma semana; os soldados, à medida que os dias decorriam, iam adquirindo uma postura diferente, um certo à-vontade. Ao cabo de duas semanas começaram a abusar: primeiro com dichotes e gargalhadas; depois atirando caroços de azeitonas uns aos outros; a partir daí deixaram de respeitar fosse quem fosse. O comandante teve de suspender a ordem dada e fez voltar tudo ao modelo anterior.      

- Conclusão: os magalas, na sua maior parte com ínfimas habilitações literárias, oriundos de famílias humildes, não estão preparados para conviver com pessoas mais civilizadas, mais educadas. São o espelho do povo português, etc.

- Conclui bem, amigo Cândido. Tiveram uma oportunidade e não a souberam agarrar; dificilmente terão outra. A democracia não é compatível com a vida militar.

- Por isso é que eu defendo com convicção o fim dos exércitos. Quando estes se extinguirem (e segundo as minhas previsões isso levará muito tempo), também terminarão as guerras. Mas agora, e para desanuviar um pouco, vou ler-te mais uma carta da madrinha Fernanda. Lá vai:

 

Querido afilhado

 

                Recebi a sua carta e fiquei muito contente por saber que estava de perfeita saúde, pois é esse o meu maior desejo.

                Ficou muito triste por não lhe ter mandado a minha foto, pois bem, vou satisfazer o seu desejo, mando-lhe uma de meio corpo, só agora é que a consegui, sei que o vou desiludir, pois não sou nenhuma cara bonita, bem pelo contrário, depois mando-lhe uma de corpo inteiro, e não há-de demorar muito tempo.

                Cá na minha parvónia não há muitas distracções para a gente se divertir, principalmente no verão, vai todo o mundo para a praia, só fica aqui a que não pode ir ou não quer. De inverno, apesar de não se poder andar sempre a passear, vai-se ao cinema.

                Não julgue que tenho namorado, não, ainda sou muito nova e se tiver de me casar não há-de ser antes dos vinte e tal anos, mas não se pode afirmar isso, pois nós não sabemos o dia de amanhã; amigos e amigas tenho muitos, mas para namorar nem pensar nisso, considero que não são o feitio de homem que eu quero. 

               Então não pôde continuar os seus estudos, quando sair da tropa poderá continuá-los, só é preciso força de vontade.

               Eu estou a pensar acabar o quinto ano, já o podia ter feito se deixasse as brincadeiras e estudasse, mas quando se é novo não se pensa muito no futuro.

               Vou fazer-lhe uma pergunta e quero que me responda na próxima carta: em que dia do mês o meu afilhado faz anos?

               Acho que a pergunta não é indiscreta, seria se fosse dirigida a uma senhora, mas como não é, mande-me dizer; a sua querida madrinha comemora as suas dezanove risonhas primaveras a cinco de Abril e Deus queira que isso aconteça por muitos e muitos anos. Não acha?


               Muitos abraços da madrinha muito amiga.
                                                   

                                                                                  Fernanda

 

 

- Uma madrinha muito espevitada, não há dúvidas! Mas o meu amigo Cândido também alimentava esse princípio de “flirt”. Estou certo?

- Se tivesses estado na guerra colonial com certeza que não estarias agora com esse ar irónico. Nós precisávamos destas coisas, alimentar ilusões, fazer nascer sonhos que só durariam o tempo da comissão, ou o das rosas de Malherbe, poeta que viveu entre 1555 e 1628. Escreveu ele: «Mais elle était du monde où les plus belles choses/Ont le pire destin/Et rose elle a vécu ce que vivent les roses/L’espace d’un matin.».

     O espaço de uma manhã! Quem se apaixona vendo uma fotografia, lendo meia dúzia de palavras mais ou menos bem escritas? Ninguém!  

- Não é bem assim; você próprio me disse que alguns soldados acabaram por casar com as madrinhas de guerra.

- Disse, disse; mas não te esqueças que eram todos da mesma terra ou da região das madrinhas. Eu não escrevi a raparigas de Melgaço porque não sabia nessa ocasião se para lá voltava. Por outro lado, conhecendo-as, não teria coragem de as iludir. Regressemos à guerra…

- Antes de prosseguir, e embora pareça mesquinho o que lhe vou perguntar, uma das coisas que me têm dito é que vocês em África entregavam a roupa para lavar e passar a ferro a lavadeiras profissionais. Há quem diga também que essas mulheres se tornavam vossas amantes. É verdade?!

- Não me quero furtar à tua questão, mas essa resposta fica para depois, se não te importas. Agora vamos à vida que se faz tarde.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha



desenho de Manuel Igrejas

Que estranho o dia de hoje,

Parece dia de inverno;

Parou no tempo, não foge,

É prelúdio do inferno.

 
*
 
Quando era uma criança
Tinha gosto em bater;
Agora, com esta pança,
Levo tareia a valer.
 
*

 Quando eu era um menino

Gostava bem de mentir;

E quando era caçado

Desatava logo a rir.
 
*

Quando eu era bambino,

Tão baixinho, enfezado,

Tinha a pele prò moreno,

O narizito melado.
 
*

 Quando eu era rapaz

Mandavam-me aos recados:

Ao vinho, ao pão, ao talho,

Em troca de rebuçados.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

LEMBRANÇAS AMARGAS
 
romance
 
Por Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes



XXVI

 

Entre o óbvio e o obscuro cresce a quimera

 

     Este encontro era inevitável; mais tarde ou mais cedo ele teria de se verificar. Eu era um jovem honesto, incapaz de uma traição. Eu sei que a minha escapadela com a Celina poderá ter induzido muita gente em erro; não devem contudo precipitar o vosso julgamento. Estamos perante um costume do Alto Minho, nenhum homem perdia uma boa oportunidade, revela apenas o meu caráter pouco maduro, mas como viram eu fui sincero, nada prometi à rapariga. O meu amor para com a Bera era do tamanho da montanha mais alta, do Evereste, firme e duradouro. Escutem então a minha conversa com o emigrante.

 

- Ó Artur, Artur!...

- Que queres? Estou com pressa.

- Chega aqui, por favor.

- Não tenho tempo para falar contigo, nem quero falar.

- Pelo menos ouve o que eu tenho para te dizer.

- Está bem, mas sê rápido.

- Por que é que me roubaste a namorada? Não podias ter procurado outra, que estivesse livre?

- Eu não roubei nada a ninguém. Não te devo explicações nem sequer tenho a dar-te qualquer satisfação.

- Dizias-te tu amigo do meu irmão Olavo, e também meu, afinal de contas…

- Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Não tem?! A Bera pertencia-me, como eu pertencia a ela, íamos à igreja quando eu regressasse da vida militar. Sabes porventura quantos anos de idade ela tem? Dezassete; faz para o próximo mês dezoito, tu deves ter vinte e seis ou vinte e sete…

- E a diferença de idades impede-nos de casar?

- Não, de modo algum, mas devia impedir-vos a inexistência de afeto, devias ter tido mais respeito para com ela e para comigo, eu não teria tido coragem de fazer o que tu fizeste, foi uma ação muito feia, indigna de um ser humano, de ti.

- Não me chateies. Não passas de um pelintra, um tamanqueiro; nem sequer sabes fazer uns sapatos novos! E querias que ela casasse contigo!

- Posso ser pelintra, tu também já o foste, mas não ando a desviar a namorada dos outros, a comprá-las…

- Ouve: põe-te mas é a andar, senão ainda levas dois bofetões bem dados.     

- A razão da força contra a força da razão.

- Palavras! Pede à tua mãe que te arranje uma dessas piolhosas da aldeia, uma borrachona como ela, não mereces mais, também as arranja para o Atílio…

- Depressa te esqueceste de quem és, quem é a tua família, de onde vens!... Também tens telhados de vidro.

- Não quero mais conversa contigo, e desde já te aviso: não te aproximes de mim ou da Bera, se não desfaço-te, escacho-te, dependuro-te no cimo da torre do castelo.

- Diz-lhe a ela que Deus não dorme e que faço votos para que não sofram o que me têm feito sofrer a mim, diz-lho; mas o castigo divino vem sempre quando menos se espera.

- Não me assustas, nem me impressionas, com essa lengalenga.

- Eu sei; vocês em França deixaram de ser tementes a Deus, não frequentam a igreja, só o dinheiro vos interessa.

- E tu com inveja, nem um conto de réis tens para comprar um fato, andas sempre com a mesma roupa nojenta!

- Vai, e casa com ela; não vos desejo felicidades, isso não, espero nunca mais vos ver, nunca mais!

terça-feira, 6 de novembro de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
desenho de Sílvia Neto
 
ROUBOS
 
 
     Uma das perguntas que nós devíamos fazer constantemente era a seguinte: Como é que um homem, ou uma mulher, se transforma num ladrão? A resposta não é nada fácil. Existem várias respostas, todas elas credíveis,  para esta pergunta. Diz-se: é a miséria que leva o ser humano a roubar; é ladrão, porque o pai já o era; não estuda, não trabalha, logo acaba em gatuno. Até consta que há quem roube por gosto, ou vício. Enfim, podíamos estar um dia inteiro a falar sobre o assunto e não esgotaríamos o tema.    

(1919) - ALMEIDA, Maria das Dores. Nasceu por volta de 1858. // Em 1918 a Câmara Municipal de Melgaço concedeu-lhe uma licença para ela vedar um seu quintal, sito à Feira Nova (Jornal de Melgaço n.º 1198, de 9/3/1918). // Tinha a profissão de forneira. // A 26/4/1906 foi madrinha de Paulo José de Sousa. // A 9/3/1919, enquanto ela estava na feira, assaltaram-lhe a casa, de onde furtaram um cordão de ouro e 81$50 (Jornal de Melgaço n.º 1242, de 13/4/1919). // Faleceu na Vila a --/--/1933, com 75 anos de idade. 
 

*

 

(1919) - No Jornal de Melgaço n.º 1264, de 28/9/1919, lê-se, referindo-se o autor da notícia à freguesia de Penso: «A vindima por aqui este ano faz-se, com raras excepções, muito antes do tempo, porque o lavrador, vendo a desenfreada roubalheira que todos os dias se nota, resolveu fabricar vinho novo, a fim de evitar a continuação de tais abusos 
                                    *

 
(1933) - NUNES, Hilário. Filho de José Maria Nunes e de Maria Luísa Solha, lavradores, residentes no lugar de Pomar. Neto paterno de Manuel Joaquim Nunes e de Teresa Esteves; neto materno de Manuel António Solha e de Antónia Casimira Pereira. Nasceu em Penso a 29/1/1877 e foi batizado nesse dia. Padrinhos: José Joaquim Rodrigues, casado, rural, e Maria Ludovina Rodrigues, solteira, camponesa, ambos moradores no lugar das Lages. // Era solteiro, militar, quando casou na igreja de Penso a 23/8/1899 com Maria Pereira, de 21 anos de idade, solteira, camponesa, sua conterrânea, filha de Carolina Pereira. Testemunhas presentes: António Solha, casado, e Bernardino Pires, solteiro, rurais. // Em 1933 queixava-se de que lhe tinham furtado sete cestos de milho do canastro (Notícias de Melgaço n.º 197, de 11/6/1933). // Em 1936 morava no sobredito lugar de Pomar, quando os gatunos lhe roubaram duas cabras, das melhores que possuía no rebanho (Notícias de Melgaço n.º 333).
 
*
 
(1934) - Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 224, de 4/3/1934: «Na noite de 22 para 23 do mês findo foram assaltadas algumas casas na freguesia de Remoães, mas felizmente os seus proprietários só apanharam o susto, devido à rápida intervenção dos habitantes daquela freguesia, que puseram os gatunos em debandada
 

 

 

sábado, 3 de novembro de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha




Thanatos



Quem se quiser tanatar

Em Braga há Tanatório;

Cadeiras com espaldar,

Uma salinha, oratório.

 

Os clientes são os mortos,

Acabados de morrer;

Seus olhos estão absortos,

Mas não sentem o sofrer.

 

Os corpos vão ser cremados

Em fornos especiais;

Os ventos estão calados,

Ali não se ouvem ais!

 


 
Tudo se transforma em cinzas,

Nada do ser sobrevive;

Até os homens ranzinzas

Se calam na hora tibe.

 

Numa urninha pequena

Cabe toda uma vida;

Seja agitada, serena,

Seja curta ou comprida.  

 


 
Esquecem-se os pergaminhos,

Os doutores e engenheiros,

Os beijos, os mil carinhos,

Os casados e solteiros.

 

Na morte somos iguais,

Não há pobres, não há ricos;

Partimos do mesmo cais,

Nos cornos dos mafarricos.

 
 

O deus Hades e Thanatos

Aguardam-nos no inferno;

Descalços ou com sapatos,

No verão ou no inverno.

 

Para o céu só vão os santos,

E os pequenos anjinhos;

Cobertos com lindos mantos,

Asseados, vestidinhos.

 

Nós somos os pecadores,

Vigaristas e ladrões;

Atrevidos, caçadores,

Da arca das ilusões.


Não temos rumo nem norte,

Sempre à deriva, sem tento;

Confundimos azar e sorte,

Temos cabeça de vento.

 

Quando morrer, ó rabichos,

Não me quero tanatar;

Quero dar odor aos bichos,

Quero de novo reinar.

 

Quero estar no Purgatório,

Até ao Juízo Final;

Jogar cartas com Gregório,

Com Abel e Juvenal.



 

 

 

 

Cedo o meu lugar na barca

Que leva a alma ao céu;

Casei-me com uma parca,

Agora ela… sou eu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

MELGACENSES NA I GRANDE GUERRA
(e em outras guerras do século XX)


Por Valter Alves e Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes



Prefácio de Valter Alves

  
     Foi há pouco mais de cem anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914. Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço partiram para a Flandres mais de setenta homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com catorze homens, Penso com doze homens, e Vila, com catorze homens, são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos – à data do embarque – idades entre vinte e dois e vinte e sete anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais e sargentos que eram um pouco mais velhos.

     Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do cais de Alcântara, rumo ao porto marítimo de Brest, França, numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa, perto de Armantières, nos vales dos rios Lys e Aire. Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do Corpo Expedicionário Português. E foi num dia agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes jovens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater, e com as novas formas de guerra que iam conhecer de perto.

     Na frente europeia, dos setenta e tal homens naturais de Melgaço que partiram, dez morreram caídos em combate, ou devido a outras causas, como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha, freguesia de Paderne, que faleceu a 9/10/1917, na Flandres, França. Quatro dos caídos em combate morreram durante a batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Foram eles: os soldados José Cerqueira Afonso, de Paderne, José Narciso Pinto, de Chaviães, João José Pires, de Paços, e o segundo-sargento António José da Cunha, natural da freguesia de Santa Maria da Porta, Vila de Melgaço. O último pertencia ao 6.º grupo de baterias de metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4.ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3, Viana do Castelo. Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a grande maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9/4/1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.

           Os soldados da Brigada do Minho tinham passado a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos, e seus pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses. Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: trezentos e noventa e oito mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6.585, dos quais 6.315 eram praças, e 270 oficiais). Na 4.ª Brigada de Infantaria, à qual pertenciam a maioria dos melgacenses, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3, Viana do Castelo, as baixas cifram-se em 570, de um total de setecentos homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de noventa e um mortos (quatro de Melgaço), cento e cinquenta e cinco feridos, sete desaparecidos, e trezentos e dezassete soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como «desaparecidos em combate» e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão de Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias, que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles: os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta, Vila; António Fernandes, de Penso; Abílio Alves de Araújo, da Gave; Avelino Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de São Paio; Justino Pereira, de Cubalhão; António Reis, da Rua Direita, vila de Melgaço, e António Pires, de Rouças; tendo ficado dispersos por vários campos de prisioneiros na Alemanha. Depois de La Lys o CEP não mais participou em operações militares relevantes, ficando na dependência dos ingleses, e relegados para tarefas secundárias. Os que tombaram repousam para sempre no cemitério militar português de Richebourg l’Avoué, França. Os que regressaram, muitos deles voltaram com os traumas próprios de um conflito que a humanidade nunca tinha conhecido, ou com os problemas de saúde que os acompanharam durante o resto das suas vidas.       

     Por tudo isto, estes homens foram heróis e merecem a nossa homenagem. Para que nunca sejam esquecidos!

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