quarta-feira, 5 de setembro de 2018

GENTES DO CONCELHO DE MELGAÇO
(microbiografias)
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 

ROCHA, Belchior Herculano. Filho do fidalgo Gaspar de Brito e Rocha (por bastardia), solteiro, funcionário público, responsável pela Alfândega em Melgaço, natural dos Arcos de Valdevez, e de Albina da Conceição Alves, solteira, de Melgaço, sua empregada doméstica. Neto paterno de Joaquim da Rocha e Brito e de Maria Angelina de Brito Pereira Pinto, da Casa de Requeijo, Arcos de Valdevez; neto materno de Teresa Joaquina Alves, da Vila de Melgaço. // A 24/9/1877 os seus progenitores expuseram-no à porta de Mariana Gonçalves, residente no lugar de Santo Amaro, freguesia de Prado, concelho de Melgaço; e a 26/9/1877 foi batizado pelo pároco da Vila de Melgaço, tendo por padrinhos António Alves, solteiro, sapateiro, da Rua Direita, e Carolina da Costa Pinto, solteira, da Rua da Calçada, ambos da Vila. Nesse mesmo dia foi entregue, para criar, à ama matriculada, Francisca Sanches, do lugar de Fonte, freguesia de Alvaredo. // Depois de uma profícua investigação, foi entregue à sua mãe, por intimação das autoridades, a 1/10/1879. // A 2/8/1882 ficou órfão de pai. // A 4/6/1888 a sua mãe casou com Manuel Francisco Barbeitos, sapateiro, natural de Barbeita, Monção. // É possível que tenha frequentado a escola primária, mas nada aprendeu, nem sequer a assinar o seu nome. // Trabalhou como jornaleiro, foi cozinheiro e fabricante de rebuçados, que vendia em festas e feiras, além de uma bebida por ele inventada, espécie de coca-cola, e limonada. // A 6/1/1905, na igreja de Rouças, foi padrinho de Baltazar dos Reis Rodrigues, nascido nessa freguesia melgacense a 31/12/1904. // Casou a 17/5/1905, na igreja de SMP, com Maria Libânia Alves, de trinta e seis anos de idade, vendedeira de pão e doces, mãe solteira de quatro crianças, três delas já falecidas, filha de João António Alves, serralheiro, natural de Paderne, e de Maria Teresa Lourenço, doméstica, natural da Vila, SMP. Testemunhas da boda: José Maria Alves, irmão da noiva, e José Dias, proprietário. Nessa altura reconheceram como filha de ambos a Maria Alice da Rocha. // Dizem aqueles que o conheceram que era um homem alto e elegante, de olhos azuis, popular. // A fim de ter um local para repousar depois da morte, comprou – por cinco escudos – à Câmara Municipal de Melgaço, a 27/10/1919, dois metros quadrados de terreno no cemitério municipal. // Os jornais locais falaram dele: no “Jornal de Melgaço” n.º 999, de 4/9/1913, noticia-se a sua oferta de «uma linda manteigueira e prato de cristal» a José Augusto Gregório e Maria Amélia Osório, por terem contraído matrimónio na igreja matriz da Vila; o “Notícias de Melgaço, n.º 17, de 22/6/1923, publicou um artigo do professor António Dâmaso Lopes (Grilo) com o título “OS LIMÕES DO BELCHIOR”; no “Notícias de Melgaço” n.º 886, de 16/1/1949, escreveu-se sobre a sua morte; em “A Voz de Melgaço” n.º 118, de 1/5/1956 aparece um artigo com o título “AS FEIRAS”, onde ele é referido; e ainda em “A Voz de Melgaço” n.º 202, de 1/2/1960, o “Mário de Prado” escreveu um pequeno texto ao qual deu o título “O BELCHIOR”. Como se vê, não passou despercebido no seu tempo. // Um seu neto, quando soube que fora exposto, escreveu o seguinte soneto: «Foste, querido avô, filho de “ninguém”/Filho do Fogo, do Ar, e da Mãe Água;/Foste, avô, filho da sombra e da frágua,/Filho de um deus que veio do além!/Percorreste, ai de ti, Jerusalém,/Toda a Palestina, e toda a mágoa;/Encheste rios com a tua doce bágua,/Da vergonha foste guarda e refém./Escondido entre coutadas de tédio,/Abraçando fragas, densos pinhais,/Fugindo, quase sempre, do sol nédio;/Esquecendo ânsias, chuvas, vendavais…/Mas a vida, num ímpeto de assédio,/Quis tua alma… e não fugiste mais!» // Enviuvou a 14/6/1947. // Morreu na Vila de Melgaço a 10/1/1949.

sábado, 1 de setembro de 2018






 

    Há livros cuja leitura nos deixa indiferente, às vezes até um pouco irritados por termos perdido algum do nosso tempo com eles. O livro «Salto – História e Tradições» prende a nossa atenção desde a primeira à última página, sobretudo pela variedade de temas que ele contém. É uma pequena enciclopédia, ou roteiro, dessa freguesia do concelho de Montalegre, com uma área total de 78,6 km2 (2001), e uma população residente de 1867 pessoas (2001), tendo como orago a Senhora do Pranto. É óbvio que agora (2018) já não terá tanta gente. Depois do encerramento das minas da Borralha os mais novos, e não só, deslocaram-se para as cidades portuguesas ou emigraram. A criação de gado: bovino, porcino (ou suíno) caprino e merino (ou ovino), além de aves de capoeira, a caça, etc., permitia ao habitante da freguesia e vila de Salto viver desafogadamente. No entanto, o volfrâmio foi rei e senhor durante vários anos, sobretudo quando era vendido a alemães e ingleses. Alguns naturais de Salto aproveitaram esse negócio para engordarem as suas contas bancárias. Com o fim da segunda guerra mundial (1939-1945) a produção baixou, os estrangeiros desinteressaram-se das minas e o negócio acabou. Era necessário agora cuidar dos gados, dos rebanhos, da vida agrícola. Contudo, adquiriram-se novos hábitos, muitas famílias mandaram estudar os filhos para a cidade, e eles próprios, devido à idade e a outros fatores, desistiram da agricultura. Nada é eterno, por isso, o fim de um ciclo dá origem a um ciclo novo. Os naturais de Salto compreenderam bem a nova situação. A partir desse momento quem se dedicar ao cultivo da terra não o fará como outrora: comprar-se-ão máquinas, alfaias agrícolas modernas, mais rápidas e eficazes do que a força do homem e do animal. Adquirir-se-ão técnicas mais condicentes com os novos tempos, o agricultor deixará doravante de ser escravo da terra, a tecnologia fará o seu trabalho com mais rapidez e mais perfeição. Claro que tudo isto é verdade, mas também alberga em si contradições e perigos. A designação de agricultor, lavrador, camponês, já não se adequa aos novos tempos. Agora fala-se de empresário. No mundo rural já há empresas, contabilidade, computadores, etc. As comunicações fazem-se de maneira idêntica às da cidade – é o telemóvel, o telefone, o e-mail, etc.; o mundo rural já não é um mundo fechado, onde se nascia e morria quase sem conhecer o meio urbano, em alguns casos sem sequer entrar num automóvel. Hoje existem casas na vila rural, na aldeia, como se estivéssemos a vê-las na cidade, excluindo, é claro, esses prédios de vários andares. Fazem-se estradas, dá-se número à habitação, etc. Há freguesias que parecem cidades em ponto pequeno.          



     O autor do livro, Júlio Fernandes Vaz de Barros, natural da freguesia de Salto, brindou-nos com esta excelente obra, na qual nos explica, de uma maneira simples e agradável, a geografia, os monumentos, as lendas, as chegas de bois (luta entre dois machos possantes), o jogo do pau, os homens que se destacaram, sobretudo D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431), por ter casado em 1376, com apenas dezasseis anos de idade, com D. Leonor de Alvim, mais velha do que ele cerca de quatro anos, viúva, sem filhos, natural de Reboreda, Salto; a história das referidas minas de volfrâmio, e além disso faz um apelo aos seus conterrâneos para não desistirem de cultivar a terra, pois é ela que fornece os alimentos (biológicos) ao ser humano e aos outros seres vivos da natureza. O bom presunto de Montalegre, o fumeiro, não nasce espontaneamente, é necessário criar os porcos, engorda-los, a fim de se aproveitar a sua carne. A caça era também uma das riquezas de Salto; os baldios, agora transformados em pinhais, para o fogo os devorar, forneciam pasto para os animais. 

     A poesia, da autoria de Júlio Barros, tem um lugar de destaque no livro. Com palavras simples, do nosso dia-a-dia, numa linguagem límpida, ele consegue versos maravilhosos. Estes poemas são verdadeiros hinos ao seu torrão natal, homenagens sinceras à terra que o viu nascer. Salto é a musa que o inspira, a dama que adora sem quaisquer reservas nem preconceitos. Na prosa, as suas frases são curtas, sem rendilhados, só nelas cabem as palavras necessárias, úteis; na poesia alarga-se mais, dá mais liberdade à palavra, é pássaro a voar depois de ter fugido da gaiola, embora a sinceridade esteja patente nos dois registos. Evita propositadamente as frases complexas e misteriosas, ideias que apenas vagueiam nos labirintos mal iluminados de cérebros algo confusos. Cultiva a simplicidade, a harmonia, caminha por terrenos planos e seguros, dando ao texto uma leveza e transparência inigualáveis. Pode servir de exemplo a seguinte estrofe (página 185):

«Esta grande freguesia

Terra de Santa Maria

Airosa e cheia de graça

De teus filhos adorada

Foste sempre a minha amada

Encantas quem por cá passa.»

 

 

Joaquim A. Rocha

quinta-feira, 30 de agosto de 2018


A GERINGONÇA

(I)

 

Lembra-me a torre de Pisa

Inclinada, a vergar;

O bacalhau à Narcisa,

Servido no alto mar.

 

Não ganhou as eleições,

O nauta que deu à costa;

Tinha lama nos calções,

E na cara uma lagosta.

 

Ninguém nele apostava,

Nem os companheiros do jogo;

Mas o homem acreditava

Que o canhão fazia fogo.

 

Disparou contra a direita,

A esquerda aplaudiu;

A margem era estreita,

Mesmo assim não desistiu.

 

Pôs-se à frente do partido,

À cabeça do governo;

Ficou forte, destemido,

Enfrentou céu e inferno.

 

Chamaram-lhe geringonça

À coisa que ele formou;

Pesa menos do que a onça,

Mas nem o vento a levou.

 

Passou um ano a tremer,

Cai não cai, mas não caiu;

Apesar dela gemer,

A coitada resistiu.

 

Vai passar mais um anito,

Vinte, até um centénio;

Este luso é um grito,

É português, é um génio.

 

É um verdadeiro artista,

Aplaudido de pé;

Inspirou já um fadista,

De seu nome Chama Né.

 

Ele ama a coisa pública,

Faz tudo prà melhorar;

Quer ser chefe da república,

Todos nele vão votar.

 

Ele engonça, desengonça,

Anda prà frente e pra trás;

E assim vai geringonça

Nas mãos deste capataz.

 

Um dia dá ao artelho,

Foge prò médio oriente;

Leva com ele o coelho,

A geringonça da gente.

 

 

Deixa este povo a chorar,

Perdidinho de saudades;

O país vai soçobrar,

Estilhaços pelo ar

Já se veem pelas herdades.

 

Talvez Dom Sebastião,

Volte do seu cativeiro;

Traga de novo a ilusão

A este povo fagueiro.

 

Corra com os candongueiros,

Turistas de meia tigela;

Com vinte ou trinta dinheiros,

Comem-nos como gazela.

 

Devolva as casas aos velhos

Que moravam em mil bairros;

Pobrezinhos, quais fedelhos,

Cobertos de grossos sairros.

 
 
*

 

GERINGONÇA

(II)
 

 

Geringonça fez dois anos,

Fez dois anos geringonça;

Os benefícios e danos

Já pesam mais do que a onça.

 

São já vinte e quatro meses

À espera de milagres,

Mil discursos, entremezes,

De Melgaço até Sagres.

 

Caiu dinheiro do céu,

Melhoraram as pensões,

Ao Afonso e ao Abreu

Aumentaram dez tostões!

 

O ordenado cresceu

Tal como a erva daninha,

Aventuras de Teseu,

A fortuna da tainha.


 

À sombra do orçamento

Viu-se o “mínimo” trepar;

Mas não chegou ao seis cento,

O patrão vai adorar.

 

À sede vamos morrer

Neste Portugal hodierno;

Não há água pra beber,

Isto parece o inferno!

 

Só vejo gente a chorar,

Pedir chuvinha ao céu;

Só nos resta implorar:

«Venha a nós o escarcéu

 

Não há vento não há chuva

Só calor e mais calor;

Seca azeitona, a uva,

As nozes mirram de dor.

 

A castanha não cresceu

Diz-se, por causa da água;

A água-pé esmoreceu,

Cheia de tristeza e mágoa.

 

Incêndios na floresta

Crescem cem todos os anos;

Para uns é uma festa,

Para outros são mil danos.

 

A culpa morre solteira,

Foi fulano ou sicrano;

Parece mais brincadeira

Do maganão zé beltrano.

 

Acusa-se a natureza,

Acusam incendiários;

Não se sabe com certeza,

Devem ser os mercenários.

 

A polícia judiciária

Vai prendendo os suspeitos,

Mas a canalha alimária

Para tudo tem seus jeitos.

 

A culpa é de São Pedro

Que nos fechou a torneira;

Foi iludido por Fedro

Num dia de borracheira.

 

Vamos esperar outro ano,

Esquecer este verão,

Pedir ao bom deus Vulcano

Que não queime o lusitano,

Leve o fogo prò vulcão.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

LINA - FILHA DE PÃ

romance
 
Por Joaquim A. Rocha





7.º Capítulo

 
     O tempo continuou a sua viagem interminável. Agora a Lina na intimidade já tratava o seu patrão por tu, como se fosse seu marido. A casa estava um brinco, ele andava mais limpinho, até parecia mais novo. Habituara-se a cortar a barba todos os dias «uma chatice», como ele dizia, a mudar de roupa, sobretudo interior, a dormir em lençóis lavados, a comer com outros modos mais urbanos, enfim, até já parecia um cavalheiro, homem da cidade. Os outros castrejos brincavam com ele:

 
- Ó Manuel, a tua amásia trata-te bem. Até cheiras a água-de-colónia. Daqui a pouco até te obriga a pintar as unhas!

- Que quereis! As mulheres querem-nos escorreitos e asseados. Vós sois uns porcos, cheirais a fumo e a esterco. Andais arredados da limpeza. As damas da Ribeira não vos querem por isso. Tendes que ter novos hábitos de higiene. Eu tenho à venda tudo o que precisardes, aqui na loja, por que não comprais?

- Isso era o que tu querias, que nós gastássemos o nosso dinheirinho em luxos. Custou-nos muito a ajuntá-lo. Deixa-o estar no mealheiro. Eu dou-me bem com a porcaria. Sempre vivi assim e não é agora que vou mudar. Até o gado fugia de mim, se cheirasse como tu. E a minha cara-metade? Essa ficava cheia de ciúmes, pensava logo que lhe estava a ser infiel.  

 
    E a conversa continuou, sempre naquele tom galhofeiro, com gargalhadas pelo meio. O certo é que o negócio melhorou. As raparigas de Castro da Serra gostavam de fazer compras na loja do “Ti Manel”, e algumas até lhe andavam a arrastar a asa: rico, com bom aspecto, era um bom partido. Mas aquela criada estava a levá-lo à certa, por este andar ainda casava com ela. «Não está certo», comentavam algumas. «Um castrejo deve contrair matrimónio com uma castreja, foi sempre assim». E juravam vingança.

 
     A Lina notou alguma hostilidade nos olhos das conterrâneas do amante e patrão. À ceia disse ao seu homem:
 
- Ó Manuel, as tuas patrícias parece que estão zangadas comigo. Olham-me com ódio, com inveja, até parece que lhes fiz mal.

- E fizeste. Roubaste-me o coração. Sou teu e até pode ser que venha a casar contigo. Elas invejam-te. De acordo com os nossos costumes ancestrais eu devia ter por esposa uma castreja, mulher da minha raça, mas gosto de ti e pronto. Ninguém me vai obrigar a mudar de ideias. No meu coração mando eu.   

- Temos uma maneira de mudar isto: já que gostamos um do outro, e nunca nos vamos separar, tu vendes aqui o estabelecimento e abres outro na Vila, na sede do concelho. Eu conheço bem aquele sítio e sei que vais ter êxito. Não quero que os nossos filhos vivam aqui no inferno, quer pelo clima, quer pelo ódio e desprezo das tuas conterrâneas.

- Não me digas que andas de esperanças?!

- Que esperavas, meu querido? Depois de tanto tempo a dormirmos juntos querias que isto não acontecesse? Não estás contente?

- Nesta idade já não esperava ter filhos. Que venha por bem.

- Aceitas a minha ideia? Ah! Se for rapaz pomos-lhe o nome do teu falecido pai; se for rapariga, o da tua falecida mãe.

- Do nome, aceito; mas quanto a vender isto! Nasci aqui, ausentei-me por uns anos, mas voltei sempre. É a minha terra, eu gosto de Castro da Serra, sinto-me bem neste lugar. À Vila vou só para mercar; não gosto muito daquela gente emproada, interesseira e atrevida.

- É porque não os conheces bem; depois de os conhecer vais achá-los iguais aos outros, as diferenças não são muitas, vais ver. Eu já passei por essa experiência. Por outro lado, agora com a estrada, é um salto de cabra de lá aqui. Quando quiseres podes vir à tua aldeia visitar os teus parentes e amigos. Eles também vão ver-te.

- Estás a convencer-me. Vou tratar disso. Não quero que os nossos filhos passem o frio e as dificuldades que nós passamos aqui no inverno. Está decidido, vamos viver lá para baixo, onde o clima é mais ameno.


     O senhor Manuel trespassou rapidamente a loja, bem afreguesada, a um seu parente afastado, do lugar de Marreco, que estava a enriquecer com o contrabando. «Cem notas, está bem?» - propôs o comprador. «É barato, mas está bem, negócio fechado!» O conterrâneo puxa da carteira, já ia preparado, e entrega-lhe o dinheiro. O vendedor nem sequer o contou. Os castrejos eram assim: confiavam cegamente uns nos outros. Não era necessário ir ao Notário, papelada, a palavra de um castrejo, a honradez secularmente provada, chegavam.      
 
 
 

     Na Vila tudo se resolveu bem e depressa. O dinheiro abria todas as portas. O senhor Manuel comprou uma boa moradia, com electricidade, água canalizada, uma casa de banho jeitosa, com uma boa loja, mesmo no centro da Vila, perto dos Paços do Concelho. Já sonhava com o primeiro filho. Seria um rapaz: alto, forte, bem-parecido. Dar-lhe-ia estudos. Depois da escola primária iria para uma cidade estudar, depois para Coimbra, tirar o Curso de Direito. «Senhor Doutor, como está?» Até ele, seu pai, lhe chamaria Doutor! Seria um grande advogado, quiçá um juiz, um homem muito importante na sociedade. Que bom fora ter encontrado a Lina. O destino fora-lhe favorável. Depois de tanta miséria que passara na meninice e juventude, depois de tantos trabalhos e canseiras por esse mundo de belzebu, agora sentia-se feliz. Tinha alguma fortuna e os negócios corriam-lhe de feição. A ideia de virem para a sede do concelho fora excelente. A Guarda-Fiscal estava sob controlo, não incomodava muito, tinham direito a uma parte do bolo, tudo bem, dava para tudo e para todos, já estava a pensar comprar automóvel. A Lina já lhe tinha pedido:
 
- Ó Manuel, por que não compras um carro? Dizem que em Valença há uma escola de condução e carros à venda. Vais ter as lições e pronto.
 
- Não é má ideia. Até para os negócios era bom. Podia ir ao Porto buscar mercadoria, escusava de estar a pagar a intermediários. Vou tratar disso.     

 

**

 
     A Lina tinha praticamente na mão o castrejo, mas ali perto, a caminho de Carvalheiros, morava uma prima dele, mulher vivaça, muito intrometida. Fugira das outras castrejas, mas agora estava esta ali, ainda por cima meio arraçada, pois a sua mãe nascera numa das freguesias ribeirinhas. Frequentava a casa, mas a ela pouca confiança dava. Para essa prima do Manuel ela, Lina, não passava de uma criada! «Filha da mãe! Hei-de provar-lhe quem sou! Comigo não se brinca!» - monologava ela.

     Não sei se já contei aos leitores o seguinte: a Lina, depois de ter abortado de uma segunda gravidez indesejada, quando estava em São Cristóvão, perdeu a possibilidade de ter mais filhos. O seu útero ficara seriamente afectado. Logo, ela não estava grávida, porque não podia estar. Dissera isso ao patrão/amante para o agarrar mais a ela. Tinha de lhe apanhar os bens, mas para isso já traçara um plano diabólico. Começou a dizer a todas as vizinhas que estava prenha, o patrão já estava a tratar dos papéis para o casório, andava feliz por ir ser mãe pela segunda vez.    

     A barriguinha ia crescendo. Como conseguia esse fenómeno? Pura e simplesmente com almofadas! Primeiro, pequenas; depois, com tamanho maior. Convenceu toda a gente, até a prima do amante! Pelo parentesco, essa prima seria a herdeira dele, caso morresse primeiro. Por isso, não gostou de ver a barriga da Lina aumentar. «A sacana já me tramou; a fortuna do primo Manuel não é desprezível, mas por este andar vou perdê-la

     Lina via o tempo passar, os meses decorriam com celeridade; depois de ter dado a boa nova ao seu Manuel já tinham passado oito meses. Mais um mês e teria que parir. E a criança? Já contactara com mais de uma dúzia de grávidas, mas aquela que mais lhe interessava residia em Cartagães. Chamava-se Umbelina, era dos Arcos, fora viver para essa freguesia, com o marido e um rancho de filhos, como caseira de uma pequena quinta. A vida não estava fácil para essa família e a malvada logo se apercebeu do facto. Começou a sondá-la:


- Ó Umbelina, como vai a tua gravidez?

- Parece que vou ter gémeos. Pela experiência, pois já vou no décimo pimpolho, digo que são gémeos. Já não temos comida para estes que cá estão e agora mais dois!

- Eu posso ajudar-te, mulher. O meu patrão é rico, vai casar comigo, e depois vou precisar de alguém que me apoie na lide da casa. A tua filha mais velha parece ser atilada, por isso posso metê-la portas adentro.


- Deus a ouça, senhora Lina; era uma grande ajuda.       

- Roupinha para as crianças não vos há-de faltar. E mais: se forem gémeos, como estás a prever, eu fico-te com uma das crianças. Estás de acordo?

- Estou; mas tenho de falar com o Alberto, o meu homem. Eu, sozinha não posso decidir. 

- Até fazemos uma coisa: a partir de agora não dizes a ninguém que vais ter gémeos e quando nascerem só vais registar uma das crianças; a outra fico eu com ela e registo-a juntamente com a minha. Ninguém precisa de saber: nem o meu patrão. Percebeste? Deixa tudo comigo. Eu vou dar-te trezentos escudos, é uma boa ajuda. E caladinha! Nada de andar por aí a espalhar a notícia.

- Prometo calar-me. A senhora é uma santa. Temos passado tão mal, a senhora Lina nem imagina!

- Ó Umbelina: esqueces-te que eu também já passei alguma miséria, mas agora estou bem e posso ajudar os outros, têm é de colaborar comigo. Se me fores fiel, se não deres com a língua nos dentes, nunca te arrependerás. Ah! Outra coisa: leva-me, ou manda a rapariga levar, lá a casa, duas galinhas gordinhas, para fazer umas canjas depois do parto.  

- Vou escolher as melhores, senhora Lina, esteja descansada.


     O plano está em andamento. Havia, no entanto, um pormenor que tinha de apurar. Como explicar à Umbelina que só restava uma criança? Teria de agir assim: depois do suposto parto informá-la-ia, a fim de não desconfiar da tramoia, que a criança dela, Lina, morrera ao nascer, e desse modo não a fora registar, nem dera a conhecer isso a ninguém; o bebé da caseira seria o dela. Umbelina calava-se bem calada, não faria perguntas impertinentes, pois além de analfabeta era também um tanto ou quanto bronca. Segredo contra segredo. Tudo perfeito. Na mesa, à hora do jantar, ou ceia, Lina conversa com o comerciante:
 

- Manuel, estás quase a ser pai. Espero que seja um rapaz, bonito e forte como tu. O nome já está escolhido, lembras-te?

- Lembro-me perfeitamente. Não precisas de alguém que te dê uma mão nestes dias?

- Já tratei disso. Uma rapariguita de Cartagães, chamada Joana, vem ajudar-me. É filha duns caseiros. É educadinha e respeitadora. Quer ser criada de servir, oxalá tenha sorte, como eu tive. Outra coisa: os papéis do casamento, estão a andar?

- Por causa da carta de condução deixei atrasar isso, mas não te preocupes: prometi casar contigo e não vou dar o dito por não dito – os castrejos só têm uma palavra. E além disso, como é que eu ia viver sem ti a meu lado? Tu és uma bruxa, enfeitiçaste-me!

- Sou a tua fada boa, e ainda bem. Só quero que sejas feliz à minha beira; és boa pessoa, honesto e trabalhador, e por isso mereces tudo de bom.


     Ele deliciava-se com estas palavras. Era bom ouvir falar bem dele. Deleitava-o. Em Castro da Serra não havia desses mimos. As pessoas eram rudes, embora sensíveis, pouco faladoras, evitando a todo o custo o elogio fácil. Mediam as palavras, pesavam-nas na balança da sobriedade, e desconfiavam daqueles que as desperdiçavam. Tinha custado imenso a aprendê-las e agora não as podiam gastar de qualquer maneira. Tal como o dinheiro, a palavra valia pela sua raridade e critério de seu uso.


     Finalmente chegou o dia da tão aguardada paridela. O plano fora cumprido até ao ínfimo pormenor. A Umbelina tivera há dias dois rapazes e um deles escondeu-o até dos irmãos, à excepção da irmã mais velha, a Joaninha, a quem deu algumas informações, só as necessárias. Estava destinado à senhora Lina e esperava que esta o fosse buscar.    

     Nesse dia especial o senhor Manuel fora a Valença fazer o exame de condução, só voltaria à tardinha. Se tudo corresse bem, como previsto, iria ter uma agradável surpresa à chegada: estaria à sua espera o tão desejado filho!

    Logo que o patrão saiu, a Lina mandou um rapazito a Cartagães, a casa da senhora Umbelina, com um recado especial: «podiam trazer a encomenda.» «Ah! E não te esqueças de trazer duas galinhas que já estão pagas. Só isso.» E repetiu o recado duas ou três vezes para o miúdo não se esquecer. «Que jeito dava ter um telefone» - pensou ela.

     A mulher deu ordens à filha para levar a criança à Vila. As galinhas foram entregues ao rapaz. Pelo caminho ainda alguém perguntou à Joana:


- Que levas aí tão escondidinho?

- É um bacorinho; não pode apanhar frio.
 

      Lina preparou tudo. Matou as galinhas, cujo sangue espalhou pelos lençóis; depois olhou para o bebé, deu um jeito nos pêlos das pestanas, a fim de parecer que era um recém-nascido, acabado de sair do seu ventre. Colocou-o num bonito berço, adquirido recentemente, preparou leite para lhe dar quando tivesse fome, já tinha fraldas para ele, estava tudo em ordem. Olhou para um espelho que tinha no quarto e comentou: «és genial, Lina: ninguém te leva a palma!» Depois chamou a rapariga e começou a dar-lhe instruções:


- Daqui a pouco chega o senhor Manuel, o pai do Leandro. Tu só falas se te perguntarem alguma coisa. Antes de ele chegar eu vou para a cama; já vou ter contigo à cozinha para te ensinar a fazer canja para mim. Tu e o senhor Manuel vão comer massa com carne de galinha. Temos de pô-la já a cozer.

- Está bem, patroa. Eu faço tudo como a senhora manda.

            

     A moça era esperta e aprendia tudo depressa. A carne já estava a cozer, tinha agora de preparar o refogado para depois confeccionar a massa com carne de galinha. A senhora Lina já lhe pusera ali a quantidade de sal necessário, não fosse salgar a comida. Tudo em ordem. O dono da casa devia estar a aparecer. A carreira que vinha do concelho vizinho costumava chegar por volta das seis da tarde. Mais meia hora e ei-lo a surgir radiante, pois de certeza que ficara bem no exame de condução. Nem podia ser de outro modo: o dinheiro que dera àquela malta chegava-lhe a ele para comer um mês! Gatunos! Todos se aproveitavam. Mas se não desse, reprovava! O que é que aprendera na escola? Quase nada! O código era difícil para raio! Aqueles sinais, aquelas regras, aquilo só para doutores! As subidas eram uma dor de cabeça: a embraiagem ia-se logo abaixo. A condução era fácil quando circulava nas rectas, logo que se aproximava uma curva estremecia – o carro fugia para o meio da estrada, e o instrutor dava logo um grito:

 

- Senhor Manuel, o senhor quer matar-nos? – perguntava, meio a rir meio a sério.

- Não, homem, não! O volante é que não obedece.

- Lembre-se sempre que o trânsito é feito em dois sentidos – nós vamos nesta direção e os outros carros vêm na direção contrária. Logo, a estrada tem de dar para ambas as viaturas. Se o senhor ocupa o espaço que pertence a outro condutor sabe o que acontece?

- Um choque frontal!

- Exactamente. E haverá feridos e até mortos. Por isso temos de respeitar os espaços, para nossa própria segurança. E não acelere muito, pois esta estrada é pouca larga e o perigo espreita a todo o momento.

 

     Ele ouvia com paciência o instrutor, o hábil especialista, mas o seu cérebro já estava adormecido, atrofiado, por pouco usado, para aceitar mais conhecimento. Dos genes herdados, os melhores já tinham partido. «Burro velho não aprende línguas» - costumava-se dizer. E também se dizia: «é muita areia para a minha camioneta!» E de facto era assim. A sua esperança era a futura experiência; com ela tudo se resolveria. Por outro lado, também não havia muitos carros na estrada, a maioria do povo era pouco mais do que pobre, não tinha dinheiro para esses luxos.
  

 Finalmente chegou a casa. Ia eufórico. Tinha passado. Agora trataria da papelada, detestava a burocracia, mas tinha de ser, até pensava encarregar o solicitador de tratar de tudo. Tinha de lhe pagar, é certo, mas não havia de ficar por uma fortuna, e assim livrava-se dessas canseiras burocráticas. O carro, já tinha decidido, comprava-o no Porto, o dono do «stand» trazia-lho a Melcarte. Antes de se aventurar até à cidade, andaria aqui pelo concelho; quando tivesse experiência bastante já iria mais longe. Os seus conterrâneos roer-se-iam de inveja.