quarta-feira, 22 de agosto de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha




desenho de Rui Nunes



Afogados
 
     Morrer… todos têm de morrer, não há excepções (a não ser para os deuses, mas esses são fruto da nossa imaginação, apenas existem no nosso cérebro); porém, morrer afogado deve ser das piores coisas que acontecem ao ser humano, e nalguns casos não há como evitá-lo. Dir-me-ão: e morrer queimado, numa explosão, uma queda de avião, etc.? O ideal seria não existir essa senhora da gadanha, que nos ceifa a vida como se fosse centeio.


// DOMINGUES, Manuel. Filho de Rosa Domingues, solteira, do lugar de Ponte do Barreiro. // Faleceu menor de quinze anos de idade, a 15/7/1858, afogado no rio chamado de São Brás (Castro Laboreiro?), e foi sepultado na igreja paroquial.

     // RIBEIRA, António. Filho de Gregório da Ribeira, natural de Chaviães, e de Maria Benta Esteves, natural de Paços. Neto paterno de Domingos da Ribeira e de Constança Gomes; neto materno de Manuel António Esteves e de Maria Gertrudes. Nasceu por volta de 1840. // Morreu no estado de solteiro, afogado no rio Minho, quando ia armar a pesqueira “Funtão”, nos limites de Chaviães, a 13 de Junho de 1860, às oito horas da manhã. // Tinha apenas vinte anos de idade e era lavrador. // Passados alguns dias apareceu o seu corpo, nos limites da freguesia de Prado, onde foi sepultado.

OLIVEIRA, Maria Rosa. Filha de Inácio João de Oliveira e de Ana Soares Lourenço, lavradores. Neta paterna de Manuel de Oliveira e de Maria Domingues (Maria da Ribeira); neta materna de João Lourenço e de Ana Soares, todos da Carpinteira. Nasceu em São Paio a 31/8/1798 e foi batizada a 1/9/1798. Padrinhos: José Meleiro e sua mulher Ana Soares, da Carpinteira. // Casou com José Joaquim, filho de Marcelino Pedro Domingues e de Ana Pires, do lugar de Aldeia, Rouças. // Faleceu na Carpinteira, a 22/4/1861, sem sacramentos, por se afogar repentinamente, estando alienada do juízo. Foi sepultada na igreja no dia seguinte. Não fizera testamento e deixou quatro filhos.  


domingo, 19 de agosto de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





CRIMES
 
 
     Quem ler a bíblia dos cristãos verifica que logo nas primeiras páginas Caim assassina o seu irmão Abel. David manda matar um dos seus generais a fim de lhe ficar com a esposa. Sansão mata centenas ou milhares de filisteus. No novo testamento, os crimes continuam. Os romanos matam um judeu chamado Jesus, juntamente com dois ladrões. Então pergunto eu: será que os seres humanos apareceram no planeta terra para destruir tudo à sua volta, inclusive os seus semelhantes? Esta pergunta jamais terá resposta, porque os seres humanos são bons, maus, e assim-assim. Depende da situação, do momento, até do humor. Na guerra todos somos assassinos: uns matam por prazer, outros por obrigação.     


(1879) - CASTANHEIRA, Luís Manuel. Filho de Feliciano José Castanheira, sapateiro, natural da Vila de Melgaço, e de Anastácia Rodrigues, lavradeira, natural de Penso. Neto paterno de Maria Josefa Castanheira; neto materno de João Manuel Rodrigues e de Maria José Gomes. Nasceu na freguesia de Penso por volta de 1854. // Jornaleiro. // Morreu em Mós, a 4/8/1879, com apenas 25 anos de idade, solteiro, «ferido por um tiro de pistola», e foi sepultado na igreja de Penso. // Morava no lugar da Gaia.  
 

(1887) - ABREU, Gaspar Esteves. // Nasceu por volta de 1852. // Morou na Rua de Baixo do Rio do Porto, SMP. // Alfaiate. // Tinha 35 anos de idade, era solteiro, quando foi assassinado, em lugar incerto, a 31/7/1887, aparecendo estrangulado e esfaqueado nos limites da freguesia de Remoães. Sepultaram-no no sítio onde apareceu.  
 

(1889) - MELÃO, Aurélio. // Espanhol. // Apareceu morto a 15 de Junho de 1889, no sítio chamado o Coto do Azedo, limites de Cristóval; fora abatido a tiro. // No dia seguinte foi sepultado junto à capela do Senhor dos Passos, na freguesia de Cristóval.
 

(1892) - MARQUES, Caetano. // Nasceu na freguesia de Remoães. // «Foi assassinado, julga-se, por dois indivíduos que o assaltaram na estrada real, produzindo-lhe a morte por sufocação. A opinião pública aponta-os, e a justiça procede nas devidas averiguações», assim se pode ler no jornal “Valenciano” n.º 1226, de 21/2/1892. 



sexta-feira, 17 de agosto de 2018


MORREU O ZÉ DO MI
 


    
José Alberto de Sousa era filho de Orlando Vitorino de Sousa, natural de Melgaço, e de Glória Gonçalves Monteiro, natural da Galiza, moradores na Vila de Melgaço. Era neto paterno de Ilídio de Sousa e de Amália Augusta Igrejas; e neto materno de --------- Gonçalves e de Maria Rosa Monteiro. Nasceu em SMP a 3/3/1944. // Esteve até aos vinte anos de idade na sua terra de nascimento; depois passou três anos na tropa, dois dos quais (1966-1967) na guerra colonial em Angola. // No regresso foi trabalhar para França. Durante os primeiros anos viveu num bairro de casas pré-fabricadas, salvo erro. Comprou uma mota, na qual se deslocava para todo o lado; mais tarde parece que morou em casa de uma das suas irmãs: Maria Isabel ou Maria do Rosário. Após a morte dessa irmã voltou para Melgaço, tendo sido internado no Lar Pereira de Sousa no ano 2000. // Nunca teve uma verdadeira profissão, por isso viu-se obrigado a trabalhar na construção civil, como ajudante de pedreiro. Como ganhava pouco dinheiro, ou por quaisquer outras razões, nunca constituiu família. Quando era moço, gostava de brincar, jogar à bola na avenida, quase sempre a defender a baliza... Mesmo em África, foi guarda-redes da equipa organizada pela Companhia. De estudar não gostava; depois de concluir a 4.ª classe do ensino básico não estudou mais. A sua avô paterna, que o ajudou a criar, por seus pais se terem deslocado para o vizinho concelho de Monção, talvez por ele não cumprir corretamente a sua orientação, batia-lhe algumas vezes, assim como outros parentes chegados, criando-lhe alguns complexos; no inverno era para ele mais fácil suportar a tareia, pois vestia um capote que lhe chegava quase aos pés. Mais tarde, a maldita guerra em África agravou a sua doença de nervos. // Morreu no dia 14 ou 15 de Agosto de 2018. Apesar de tudo, foi feliz à sua maneira. Conheci-o tínhamos ambos seis anos de idade, quando vim do lugar de Cevide para a Vila, chegamos a estar zangados por causa da bola, mas depressa fazíamos as pazes - os amigos não se zangam para sempre. Convivemos até aos vinte anos de idade, altura em que fomos cumprir o serviço militar, em Janeiro de 1965. Ele combateu em Angola e eu na Guiné-Bissau. Só o voltei a ver depois do ano 2000, quando ele regressou à terra natal a fim de ser internado no Lar Pereira de Sousa. Quando o visitei pela primeira vez, não me reconheceu. Perguntou-me: «quem é o senhor?!» Eu dei-lhe um abraço, e disse-lhe: «Então, Zé; não me reconheces? Sou o teu amigo Joaquim. Lembras-te…» Lentamente, lá se foi lembrando do passado. «Já sei quem és…» Adeus amigo.

 Nota: não chegou a tomar conhecimento do livro «Melgacenses na I Grande Guerra, na Guerra Civil de Espanha, e na Guerra Colonial», escrito por mim e pelo Dr. Valter Alves, em que ele faz parte por ter combatido em Angola. 

                                                                                                      Joaquim A. Rocha           

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





UMA VIDA

 
 

     O primeiro número de A Voz de Melgaço surgiu a 30/5/1946, não tinha eu ainda dois anos de idade, brincava nessa altura despreocupadamente nos montes e campos de Cevide. Quem diria então que aquele rapazinho viria um dia a colaborar em jornal tão importante! Cinquenta anos é muito tempo para um jornal que vive exclusivamente do dinamismo da direção, das assinaturas, e da colaboração de uns quantos amadores de jornalismo que nos intervalos das suas atividades profissionais vão arranjando tempo para alinhavar umas prosas e uns toscos versos.

     Os jornais, se assim já se podem chamar, apareceram em Portugal no século XVII, depois da Restauração de 1640; antes desse acontecimento havia as chamadas folhas volantes, «muitas das quais, pretendendo levantar a opinião pública contra o domínio espanhol, eram passadas clandestinamente debaixo da capa.» Filipe III reagiu e impôs-lhes restrições através da Carta Régia dirigida ao chanceler-mor, Cristóvão Soares: «de alguns anos a esta parte se tem introduzido nessa cidade escrever e imprimir relações de novas gerais, e porque em algumas se fala com pouca certeza e menos consideração, de que resultam graves inconvenientes, ordenareis que se não possam imprimir sem as licenças ordinárias, e que antes de as dar se revejam e examinem com particular cuidado.» Os desembargadores do Paço e a santa inquisição teriam de passar a pente fino toda a obra impressa, sob pena do impressor a perder na totalidade e ainda pagar pesada multa «a metade para os cativos e a outra para o acusador.» Como se vê, a censura salazarista teve aqui o seu modelo e ultrapassou-o, pois até chegou a censurar artigos escritos por gente afeta ao próprio regime!

     A imprensa teve um enorme desenvolvimento depois de 1820, ou seja, após a revolução liberal. Grandes escritores, como Almeida Garret e Alexandre Herculano, entre outros, colaboraram mais ou menos assiduamente em jornais da época. Depois deles, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, não falando já de outros mestres, deixaram para a posteridade belas páginas escritas.

     A Voz de Melgaço pode considerar-se um jornal regional, quer sob o ponto de vista da forma (bom papel, boa apresentação), quer sob o ponto de vista do conteúdo, embora pudesse enriquecer as suas páginas se nelas inserisse de vez em quando reportagens e entrevistas, mas isso acarretaria mais despesas e canseiras, ultrapassando provavelmente as possibilidades financeiras do quinzenário. Também não ajuda nada o facto de muitos assinantes não pagarem a assinatura a tempo e horas! Melhoraria também se muitos dos melgacenses espalhados pelo país e pelo estrangeiro (o Manuel Igrejas é quase uma exceção) quisessem colaborar desinteressadamente com artigos da sua autoria; mas não, a terra para eles significa apenas uma semana ou duas de férias anualmente. Quanto às notícias em si também poderia melhorar de modo substancial se houvesse em Melgaço, além dos senhores Alfredo do Paço e Miguel Pereira, alguém que em cada freguesia as recolhesse e as enviasse para Braga. Podiam mesmo ser remetidas em bruto, depois seriam trabalhadas na redação. Há pessoas que pensam não ter jeito para escrever: como sabem, se nunca experimentaram? As sessões da Câmara Municipal deveriam também ser publicadas, pois tudo que ali se trata diz respeito ao concelho e ao cidadão. A Conservatória do Registo Civil deveria igualmente fornecer os registos de nascimento, casamento e óbito (nos jornais antigos era assim que se procedia), tudo isso faz parte da vida de uma comunidade e a todos interessa, até para futuros estudos na área da estatística, da economia e da história.
feira medieval em Melgaço (2018)

     Os objetivos deste jornal foram expostos no seu primeiro número (páginas 1 e 3): «… interessam-nos, sobremaneira, as coisas de Melgaço e não tanto as pessoas; não vamos guerrear, vamos construir.» Por outras palavras: os conflitos individuais, o egoísmo, o falso bairrismo, a mesquinhez, serão arredados das nossas colunas e somente as obras, os interesses gerais, coletivos, serão focados e estimulados. Não sei se estes objetivos foram sempre escrupulosamente cumpridos e respeitados: há quem diga que não. Mas quem será capaz de exigir mais e melhor a pessoas que se privaram de muita coisa para se dedicarem de corpo e alma a uma empresa, a uma tarefa, cujo lucro não se traduz em dinheiro mas apenas em trabalho, gastos e dissabores? E em troca de quê – prestígio, glória? Quão mais fácil será consegui-los noutras paragens, noutros climas.  
     Ao longo destes cinquenta anos muita coisa aconteceu, quer interna, quer externamente. A Voz de Melgaço teria forçosamente de refletir essas mudanças. De 1946 (ano em que o jornal nasceu) até Abril de 1974 não era fácil (nem mesmo para aqueles que não hostilizavam o regime, como é o caso) manter uma linha de rumo coerente e imparcial; pois a Voz de Melgaço, de uma forma ou de outra, conseguiu-o. Não bajulou ninguém, não se sentou à mesa do poder como o fizeram outros, cujos princípios ideológicos os obrigavam, pelo menos moralmente, a afastar-se, a opor-se pelo silêncio e pela discrição a um regime opressor e umbiguista. Eu sei que a maioria dos leitores não tem o raro privilégio, como eu tenho, de se instalar, sempre que haja uma hora disponível, nas cadeiras da Biblioteca Nacional, e passar um por um os jornais que se publicaram ao longo dos anos em Melgaço; sei que a memória das pessoas é curta e a tendência é para esquecer; sei que os tempos eram outros e que o analfabetismo, a ignorância, o servilismo e a subserviência torpe grassava no nosso concelho, impedindo as gentes humildes de ver aquilo que as rodeava, não distinguindo, ou distinguindo mal, aquilo que as favorecia ou prejudicava. Criaram-se fações, pequenas tribos, cujo chefe punha e dispunha dos seus seguidores. A Voz de Melgaço, através da palavra justa do padre Júlio Vaz deu, ou pelo menos tentou dar, algumas estocadas bem dadas nesses caciques de meia tigela. É bem verdade que foi a queda do regime que provocou por arrastamento a sua queda, mas de qualquer modo sempre tiveram um dedo apontado à sua arrogância e desprezo pelos valores humanos e locais.

     A missão de um jornal não é o de separar, mas sim o de unir as pessoas; este quinzenário tem-no conseguido admiravelmente. Claro que todos gostam mais de ouvir elogios do que críticas; mas estas, quando fundamentadas, servem para corrigir erros ou imperfeições que até aí passaram despercebidas aos responsáveis. Ninguém se arrogue a pretensão de tudo saber; é na troca de opiniões, no diálogo aberto e simples, que as ideias brotam do nosso cérebro. A democracia não é uma palavra sem sentido, é praticando-a que nós conseguimos dar corpo e vida às ideias, e este jornal é um bom modelo de democracia, pois nele colaboram pessoas de vários quadrantes políticos, com visões diferentes do mundo, havendo assim a possibilidade de se discutirem os assuntos sob diversos ângulos, com perspetivas divergentes ou até antagónicas. Claro que «Voz» não é o mesmo que “vozes”, mas os limites terão a ver, quanto a mim, com a educação, a tolerância, a razoabilidade, a convicção de que se está a contribuir para o bem da nossa terra de nascimento. A Voz de Melgaço é um ponto de encontro entre melgacenses ou descendentes destes; é a carta que gostamos de receber de quinze em quinze dias com notícias dos nossos conterrâneos. Espero bem que esta missiva continue a ser-nos enviada e que as suas páginas se encham cada vez mais com a palavra amiga de novos colaboradores para que a chama jamais se extinga.

     Penso que me alonguei um pouco e possivelmente até me excedi naquilo que disse, mas isto é também um desafio ao próprio jornal: um mar de ideias é, quanto a mim, melhor do que um pequeno rio. Daqui a cinquenta anos muitos de nós não estarão cá para ler as páginas de A Voz de Melgaço ou para tecer loas à sua direção, apesar das expectativas de longevidade criadas pela ciência médica, mas estarão certamente os nossos filhos e os nossos netos e esses sim, serão os nossos maiores críticos, pois serão eles que julgarão a nossa obra, ou a ausência dela.

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1052, de 1/6/1996.



feira medieval em Melgaço (2018)
 

domingo, 12 de agosto de 2018

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha
 

 

 
 
 

 
 
RITA MARIA
 
 

Pequena Rita Maria

feita somente de amor

isenta de qualquer dor

boneca de fantasia

 

Bonita Rita Maria

linda flor em botão

és só e ainda ilusão

és só e ainda alegria

 

És graciosa planta

que rápido cresce

és flor que aparece

de beleza tanta

 

És um lindo rouxinol

com teu bonito cantar

suavíssimo de embalar

banhando-nos ao rei sol

 

Inda primavera

pura transparente

cinco réis de gente

nesta imensa esfera

 

És como um rio que corre

para a foz e para a vida

vencendo a raiva incontida

naquela ilusão que morre

 

Assumirás teu papel

na sociedade infernal

e não penses, flor real,

que ela te será fiel

 

A sociedade é a selva

bruta agreste violenta

com as suas leis qu’ inventa

é um duro chão sem relva
 
 

 

 
 


 

 



 


 
 
 
 

 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
Romance histórico
 
Por Joaquim A. Rocha





     As cansadas e barulhentas viaturas por fim chegaram. Os soldados, sexualmente satisfeitos, sorridentes, quase felizes, saltaram com extrema agilidade para o seu interior. Praticamente esquecidos da operação, dos sofrimentos a que o seu corpo e o seu espírito tinham sido sujeitos, falam agora daquele acto machista que julgam, pobres idiotas, dignificá-los! Dentro da viatura o tema da conversa é apenas um: sexo! «Quantas deste, ó Santarém?» O outro responde, a rir: «Eu sei lá! Algumas três!» O Coimbra, com imensa mágoa, lamenta-se: «Eu só consegui dar duas!» Logo a seguir outra voz: «Pois eu, se não fôssemos já embora, ainda dava mais uma ou duas; de chicha nunca me farto!» Era o Famalicão, explodindo de ironia. O Braga, aborrecido consigo mesmo, por ter dormido enquanto os outros fornicavam, comenta: «Caramba! Pelo que ouço, vocês emprenharam as gajas!» Logo, o pérfido Lamego, zomba: «E qual de nós será o pai das crianças?!»

     Todo o percurso nisto! Não podia mais. Vomitava raiva! Finalmente chegámos à Vila de Teixeira Pinto. «Que bom!» - disse eu baixinho, respirando de alívio.

- Na verdade, esse crime não tem perdão – explode Henrique. – Nem o facto de estarem em guerra o justifica!

- Monstruoso! Hediondo! Somente os homens de Gengiscão se podem comparar com eles.

- E quando chegaram ao quartel, desta vez havia água nas torneiras?

- Não me fales disso; o soldado não contava, não valia um tostão furado, um pataco dos antigos; era escumalha, lixo humano. Haver ou não haver água para nós tomarmos um banho repousante era indiferente para os superiores. Desde que eles a tivessem… Acontece que obras públicas não existiam – tudo estava paralisado. Alguma coisa que se fizesse na então província da Guiné-Bissau era realizada pela tropa! As ruas de Teixeira Pinto eram de terra batida; não existia Câmara Municipal, nem Juntas de Freguesia, nada!

- Isso revela uma certa mentalidade. E contou tudo aquilo que aconteceu ao seu capitão?

- Contar-lhe?! Ele nem sequer me ouviria! E se os meus colegas viessem a saber que falara sobre o assunto com o comandante da Companhia, considerar-me-iam traidor, renegado, e vingar-se-iam de mim certamente. Isso estava fora de questão. O melhor era tentar esquecer aquilo que se passou. Sozinho não podia mudar o mundo.

     Os seres humanos são pior do que as feras em certas circunstâncias, e este e outros crimes repetir-se-ão através dos séculos. Ninguém tenha dúvida disso!

 
crianças tirando água de um poço
 

     As operações, batidas, missões, patrulhamentos, acções, como lhe queiram chamar, ou então arranjem outro nome para o sofrimento, para a dor, física e espiritual, sucederam-se com poucas interrupções.

     Ainda me encontrava em Teixeira Pinto quando decidi, ou me autorizaram, ir à consulta do médico militar. Estava escanzelado. Pesava somente quarenta e sete quilos! O clínico, e depois de me auscultar, fez, ou mandou fazer, análises e chegou à conclusão de que eu tinha o estômago cheio de bichinhos (micróbios) que devoravam tudo aquilo que eu ingerisse. Receitou-me uns medicamentos e lá fui aguentando. Mas antes de abandonar o seu consultório, aconselhou-me:

      «Quando chegares à Metrópole vai ao hospital e trata-te como deve ser.»

     Agradeci a sua sábia sugestão; faltava um ano para eu regressar. Que eram doze meses na vida de um ser humano? Doente, ou com saúde, o soldado tinha de estar ali, a combater pela Pátria e pelo Chefe. No fim da campanha teria a sua medalha e o louvor hipócrita. Depois, já como civil, recuperaria, ou não, das mazelas arranjadas na guerra. Tudo à sua custa! Mas isso não tirava o sono aos governantes.

     Quanto aos dentes – já tinha dois apodrecidos – teria de me deslocar a Bissau a fim de os extrair, único sítio onde havia “dentista”.

     Entretanto aconteceu nessa recatada e bonita vila, um dos episódios mais cruéis de toda a campanha: na prisão do quartel encontrava-se um prisioneiro idoso, com uma barbicha algo ridícula, mas importante para ele. Não se sabia bem por que razão o homem se achava detido. Era difícil escutar da sua boca uma única palavra. Tinha sido feito prisioneiro numas das batidas que se levavam a cabo periodicamente nas redondezas do aquartelamento.

- Até faz lembrar as rusgas na baixa lisboeta para apanhar as prostitutas! – interveio Henrique, com o intuito de desanuviar um pouco a tensão.

- Brinca, brinca, maroto, que o teu brincar tem graça! Agora a sério: nessas missões tudo que viesse à rede era peixe – novos e velhos, homens ou mulheres, excluindo as crianças, tudo servia! Após um breve, ou prolongado, interrogatório grotesco, mandavam-se embora ou matavam-se na primeira oportunidade.

     O velho, certo dia, aparece estendido, sem vida, no pavimento da sua cela improvisada. Ainda mostrava os sinais da violência junto à barbicha, agora quase toda ela arrancada!

     Quem teria sido, quem… Os indícios escasseavam, provas… inexistentes! A sentinela nada viu, nada escutou, não desconfiava de ninguém. Mas eis que um dia, no bar dos soldados, o Bragança se descai. O álcool, esse amigo da verdade, passou-lhe uma rasteira: tinha sido ele! Como se divertira! «Arranquei-lhe pêlo a pêlo!» - conta, eufórico e importante. «Os turras não merecem compaixão, por sua causa é que nós aqui nos encontramos!» - berra para todos o ouvirem bem.

- É óbvio que o prenderam e castigaram?! – interpreta Henrique.

- Por mais incrível e surpreendente que isso nos pareça, nem preso nem castigado! Por matar um presumível colaborador da guerrilha? «Caramba! Merecia era uma medalha!» - comentavam entusiasmados os seus incontáveis admiradores.

- O seu colega revelou-se um grande canalha, um patife! Merecia um severo puxão de orelhas, um castigo exemplar.

- Mas espera! Em contraste com este episódio, passou-se este outro: juntámo-nos uns quantos soldados e, a pé, fomos conhecer melhor os arredores de Teixeira Pinto. Seguimos por uma estradinha de terra batida, G-3 ao ombro, e de repente avistámos um campo de ananaseiros. Aquele cheirinho agradável indicava-nos que o fruto já estava bom para comer. Um dos camaradas sugeriu: «Como não se encontra por perto o dono, vamos colher um ou dois ananases; ninguém vai dar por nada – são tantos!»

     Embora com uma certa relutância, acompanhei os outros e tirei apenas um. Não era um grande apreciador desse fruto – gostava mais de pêssegos ou peras. Frutinha da minha terra minhota.

     O proprietário, um negro de olhos de águia, tudo observou sem ser visto por nós. Assim, quando regressámos ao quartel já lá tínhamos a queixa. Chamados ao comandante, ouvimos uma admoestação daquelas que jamais se olvidam: «Devem respeitar a propriedade alheia; o dono dos ananases é amigo e antigo cooperante da tropa portuguesa. Isto que não volte mais a acontecer; não quero larápios na minha Companhia. Agora vão pagar com língua de palmo o que comeram. Cada um de vocês desembolsará a importância de vinte escudos!»

- Não considero o castigo exagerado... acho até que foi leve.   

- Amigo Rique: com esse dinheiro compravam-se três cervejas das maiores, mais ou menos o que se bebia diariamente quando não se saía do quartel, e comiam-se umas sandes de queijo, chouriço ou presunto, isto no bar é claro. O ananás que furtei, quando muito, valeria cinco escudos!

- E pagaram?

- Que remédio! Com língua de palmo. Esse dinheiro seria descontado no pré. Hoje penso que não foi totalmente errada essa sentença, só custava contudo verificar que os critérios para a aplicação da pena eram completamente arbitrários.

- Vejo que a justiça militar nessa altura andava muito por baixo!

- Escuta o caso seguinte, emblemático de tudo o que atrás disse. Ouve e dá-me a tua opinião: o soldado que assassinou o velhote da barbicha, vendo que ficara impune, e ainda por cima o crime lhe trouxera certa fama, começou a pensar noutra patifaria digna dele, do seu “prestígio”. Havia perto do nosso quartel uma bajuda (rapariga virgem), engraçada, com quinze, dezasseis anos. A moça via a tropa como amiga e por isso dava conversa aos soldados. Nunca lhe passara certamente pela mente receber de nós qualquer tipo de maldade. Porém, o Bragança, já a tinha fisgado. Um dia disse aos camaradas que o acompanhavam: «Hei-de comê-la, hei-de partir katota com ela! Não sei ainda como, mas isso vai acontecer de certeza absoluta!»

     O Sintra, gozão, mas ao mesmo tempo ponderado, observou: «Vê lá no que te metes, olha que o capitão não gosta que se abuse dos pretos nossos amigos; a bajuda vai fazer queixa de ti, denunciar-te, e é o fim do mundo; eu não arriscava.»

     «Se fizer queixa, rebento-lhe com os miolos!» - reagiu a sinistra criatura, de punhos cerrados.

     «Tretas! De qualquer modo eu nada sei: não ouvi nada!» - apressa-se a dizer o Sintra.

     Passado uns escassos dias o Bragança apareceu triunfante – conseguira a proeza! Era deveras um herói! «Como o tinha conseguido?!» – perguntaram-lhe, achando o acto incredível.

     «Ah!, Ah!, querem saber? Pois ouçam: falei com a miúda e perguntei-lhe se alguma vez provara vinho do Porto – que se tratava de uma bebida docinha, própria para senhoras; as europeias bebiam daquilo todos os dias. Respondeu-me que não, que nem sequer sabia o que era, nunca tinha visto nem bebido. Enfim, ficou combinado oferecer-lhe uma garrafa, do bom, para ela provar. Dirigi-me ao bar da cantina e comprei uma botelha, do mais barato que havia! Depois fui ter com ela, abri a dita e passei-lha para as mãos. Até lambeu os beiços! Dei-lhe mais. Bebeu, como quem bebe água! Às tantas, quando vi que já estava meio tonta, levei-a para o capim. De morte, meus amigos, de morte! Nunca tinha manjado nada semelhante. Um autêntico pitéu!»

     «Eh, pá! Tu violaste a gaja! Estás tramado» - disse com certo receio e alguns ciúmes um dos seus amigos. «Não sejas parvo» - retorquiu o Bragança. «Para eu ser castigado teria de ser muita gente; não vês os putos mulatos que pululam por aí? Alguém os fez, não?! Vocês são cegos! Não vêem entrar nos quartos dos oficiais, e não só, as raparigas negras?»

     O Sintra, poeta ao jeito de António Aleixo, e para acabar com aquela conversa perigosa, improvisou:

 

A katota da bajuda

é fresca como um limão;

como a pêra, é carnuda…

é bela… como um pavão!

              

 «Muito bem!» - disseram todos em uníssono. «Muito bem!»

- Desta vez foi severamente castigado? – perguntou Henrique, esperançado em ouvir um sim.

- Qual quê! O violador tinha novamente razão. Parece que foi chamado ao comandante, mas o que disseram entre si ninguém o sabe. O certo é que ficou mais uma vez impune!

- Quase inacreditável o que me acaba de contar. Estou fulo, irritado. Como é possível que esse malandro, esse sabujo, não tenha sido severamente punido?! Como?!

- A tropa, meu caro Henrique, a tropa… tudo explica. Ali a lei era outra. Os oficiais castigavam ou perdoavam conforme as suas conveniências. Eram os senhores da guerra! Passados uns dias destacaram o meu pelotão para Cacheu. // continua...

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha






«Obviamente demito-o»

Disse Humberto Delgado;

Mas Salazar, repito-o,

Mandou-o prò outro lado.


*


Há quem diga que eu disse

Que te amava em segredo;

Não o creias Clarisse,

Meu coração é rochedo.


 

 
Ilusão por que nasceste,

A vida é horrenda e má;

Inda por cima cresceste,

A vida a morte te dá.
 

 

 As nódoas dessa toalha
 
São mais limpas do que crês;

Bem mais sujas, a mortalha
Cobre: e tu não as vês!
 

*


As nódoas dessa toalha

São mais limpas do que crês;

Sujas sim – e tu não vês,

Cobre-as aquela mortalha.