sexta-feira, 8 de junho de 2018

QUADRAS AO DEUS DARÁ

                                                                    Por Joaquim A. Rocha





  1. Para uns, a morte é vida,
  2. Para outros a vida é morte;
  3. Tenho a razão confundida,
  4. Talvez seja a minha sorte.
                                              *

Todos são filhos da morte,
Irmãos no vil sofrimento;
Nesta vida de má sorte
Só se salva o pensamento.

*
Pensamento, meu ser livre,
És suporte da existência;
Sem ti, tudo era vazio
E falho de inteligência.
*
 

 
 
Alma minha que traída
Pelo sonho de grandeza,
Tornando-a pequenina
E cheiinha de tristeza.

*
Neste canto sossegado,
Onde morte não me lembra,
Tenho o peito descansado
E meu cérebro não pensa.

terça-feira, 5 de junho de 2018

LEMBRANÇAS AMARGAS
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
desenho de Sílvia Neto
 
 
Capítulo XXIII
 
      Na alcateia o lobo uiva e a presa geme. Os jovens, tarde ou cedo, uns mais cedo e outros mais tarde, iniciam a sua prática sexual. Nas terras do interior existe quase sempre uma desgraçada, geralmente abandonada pelo namorado, ou pelo amante, e depois pela família, com uma criança nos braços, que virá a ser a mestra de todos eles. É o caso:
 
- Queres ir esta noite à Corga de Cima? - Eh, pá! Aquilo de noite é perigoso, não há luz, o regato leva muita água, estou com receio, ainda sou tão novo!... - Temos dezasseis anos, somos uns homens; todos vão lá, só leva 2$50, já combinei com os outros, saímos do Terreiro às nove em ponto, quem não aparecer não vai. - Quem são os outros? - O Joca, O Rina, o Afonso, o Barata… - Parece um regimento; nunca mais de lá saímos! - Aquilo é rápido, eu já lá fui uma vez, levou-me lá o meu primo Teotónio. - E não faz mal? Ouvi dizer que aquilo era uma nojeira. - Tens é de mijar a seguir, senão podes apanhar uma doença chamada “galiqueira”; nós nem a vemos, ela deita-se numa palhas secas, em cima duns sacos de lona, abre as pernas e pronto, às escuras, é um ver se te avias, tudo num ápice. - Não sei se aparecerei; até porque a minha mãe se souber dá-me uma soberba coça, é cá uma bronca! - Eh, pá! Alguma vez tens de começar, ou queres que te chamem aquele nome feio? Ela está lá para isso mesmo, agora anda prenha, a filha da mãe, dizem que é melhor ainda, o filho é do Tebas, o figurão está em cima dela quase meia hora, assim qualquer um a enchia. - O primeiro bebé que teve – era ela nessa altura uma linda rapariga – é, segundo dizem, do senhor Santos, o da drogaria; não quis casar com ela, foi pena, mas ela rogou-lhe todas as pragas do mundo. - Pragas?! - Sim; pediu a Deus e a todos os santos que o primeiro filho do casamento dele tivesse uma morte violenta, para que assim soubesse o que era sofrer. - E morreu mesmo, coitadinho, ainda não teria cinco anos de idade, era tão bonito, era a criança mais linda da Vila, até parecia uma menina, ou um anjo. - E sofreu muito antes de embarcar para o céu, até ficou com o rosto desfigurado de tanto padecimento. - Dizem que o Luís da Peneiras viu o funeral antes de ele se realizar! Coitadito, não teve culpa dos erros do pai, de certeza que a sua pequenina alma está em repouso. - Cá se fazem, cá se pagam; a mãe da criança, a Mirta, ficou maluquinha, nunca mais foi a mesma, nem de casa sai! - E agora a Ruça prenha! Mais uma criança para passar fome, já tem uma data delas, cada uma de seu pai; ela atraía os homens, era jeitosa, ainda hoje, com trinta e tal anos de idade, não é de se deitar fora. - Se andasse arranjadinha e asseada, mas anda porca e a cheirar mal que tresanda, mal vestida, despenteada, julgo que nem se lava, e se o fizer deve ser naquele alguidar onde depena os frangos! Também! A viver naquele pardieiro, e sempre gajos a entrar e a sair. - Os filhos vão ter vergonha dela quando forem grandes. - Há tantos putos por aí sem pai, quem é que liga a isso? Se viessem a ser ricos é que se podiam importar, mas nesse caso saíam daqui, iam para a cidade, lá há muita gente e ninguém os conhecia, nem reparam nessas coisas. - Tens razão, há tantos filhos sem pai nesta terra! Eu, os meus irmãos, os da Pulquéria, os da Joana Caganitas… - Podias estar um dia inteiro a contá-los; deixa lá isso, os homens nicam e as mulheres engordam, quantos mais melhor, uma malga de caldo e um naco de pão duro haverá sempre, ninguém morre à míngua. - Maldita região; a pobreza nunca nos larga, pega-se a nós como o caracol à erva, e para cúmulo da desgraça, a ignomínia, o ferrete. - Eh, pá! Deixa lá essas coisas, o que é preciso é viver, nós não nascemos para sermos ricos, quantos há nesta terra? Conta-os: meia dúzia, o resto é tudo pobre ou remediado. - Tu gostarias de ser rico? - Que pergunta mais idiota; quem não gostaria, com empregados, boa casa, boa comida, bom carro, muito dinheiro, passear, boas mulheres, boa vida, os outros que trabalhassem para mim, havia de viver regaladamente. - E os pobres? Nem sequer pensavas neles! - Dava esmolas àqueles que me fossem bater à porta, nunca negaria uma esmola, e dava trabalho aos operários e caseiros. - Sonhos, não é, Cleto? Nunca seremos alguém, eu a ganhar cinco escudos por dia naquela minúscula oficina, tu nas obras a ganhar sete escudos, mal dá para comer, andamos andrajosos, sempre com o mesmo calçado, a mesma roupa, o rosto chupado, uma corda a servir-nos de cinto! E eles, os poderosos, têm de mais, até dá para estragar, olha o Atílio, com três ou quatro carros, duas casas, empregadas com farda, os filhos a estudar na cidade, nós fizemos a primária e pronto, alguns nem isso conseguiram, toca a trabalhar para eles, a engordar o seu peteiro, eles cada dia mais ricos e nós sempre pobres, maldita vida esta. E quando lavra um incêndio nas suas casas, nos seus bens, somos nós, bombeiros voluntários e o povo que o vai apagar, que eles nem sequer pegam num balde de água! E no fim nem obrigado dizem. - Qualquer dia vou para a França, já está lá o meu cunhado e diz que me manda ir, nem que vá a pé por essa Espanha fora, o Trinchas também foi, conta que passou fome de rabo, mas hoje está cheio de massa, o filho da mãe também só come tripas e carne de porco de terceira, acho que bifes só em dia de festa, e feitos com carne de cozer, olha que os filhos saem a ele, são uns sovinas, para viver assim não vale a pena sair da nossa terra natal. - Eu não gostava de sair daqui, gosto imenso disto, até as pedras da rua conheço, todos os cantinhos, as pessoas, tenho os meus amigos, a banda de música, o meu clarinete, qualquer dia já vou tocar para as festas, o mestre prometeu-me, diz que eu estou a aprender bem, já vai mandar fazer a minha farda, com este corpo não vão gastar muito pano; vou também começar a jogar na equipa de futebol. Se fores para França lá não tens amigos, eles falam outra língua, não te vais entender com eles. - A língua aprende-se, o meu cunhado já a arranha, o que é preciso é saber o nome das ferramentas e mais qualquer coisa: «bonjure», «bonsuare», «mangere», e pouco mais; e aquilo que não se souber fala-se por gestos, os franceses não são burros. - Ah!, ah!, ah!; até já tu falas francês sem nunca teres ido a França!
 

 
- Tudo a postos? Ao caminho; vamos separados, em grupos de dois, para não dar nas vistas. Juntamo-nos todos no campo a seguir à estrada, o Barata não veio? - Até agora não apareceu, é provável que os pais, de castigo, não o deixassem sair, deve-lhes ter feito grande malandrice. - Oquei! Não podemos esperar eternamente por ele. Todos trazem o cacau? Eu é que o entrego, passem-mo para cá. Está certo, vamos andando. - Caramba! Já me enterrei na lama, andaram a regar os milhos, quase que nem posso mover-me. - Descalça-te; não podemos perder tempo, já não é cedo, devem ser quase dez horas, arregacem as calças e não façam barulho que os lavradores andam por aí. - Já tenho vontade de voltar para trás, por que é que eu me meti nisto?! - Se quiseres voltar para trás volta, nós continuamos, mas isso é seres cobarde, medricas, que raio de homem és tu? - Está bem, eu vou. - Silêncio, já vejo uma luz; um de nós tem de se aproximar para ver se ouve alguém a falar, se não se ouvirem vozes bate-se à porta. Quem é que quer ir? - Vai tu, Cleto; já cá vieste uma vez, para nós é a primeira. - São todos uns medrosos, se não fosse eu só haviam de montar éguas. Escutem: ouço vozes, deve ser alguém que está com ela, deve estar a despedir-se. - Está a abrir a porta, saiu alguém; já podes ir lá. - Pode-se entrar? - Quantos são? - Cinco. - Entra um de cada vez; os outros que esperem por detrás do muro. Trazem dinheiro? - Trazemos; tome. - Está certo. Entra.
 
                                         *
 
- Eh, pá! Eu nunca mais cá venho; que cheirete insuportável, ia vomitando as tripas. Ela tem a pia tão suja e funda, quase que cabia lá eu, não gostei nada. - Com essas esquisitices todas ainda acabas em panasca! - Não digas asneiras; quando tinha onze anos brinquei aos namorados com a neta do senhor Rodrigues, fomos para a cama, ela despiu-se…, mas assim não, com o bebé ali ao lado a choramingar, não dá qualquer gozo; além disso, estou farto de espirrar, devo estar com uma gripe dos caraças, se a minha mãe descobre que foi por causa disto, mata-me. - Não tenhas medo. Enquanto resfolegavas à espera das estrelas da Ruça, sentava-se a tua mãe no colo do teu patrão. - Ó Afonso, não digas isso ao rapaz. - É mentira? Toda a gente sabe que eles… - Olha, Afonso: eu não sabia, nunca mo tinham dito, mas já desconfiava; fizeste bem em dizê-lo, amanhã mesmo já saio da sua oficina. Eu já não gostava dele, mas a partir de agora… - Se dizes mais alguma coisa desse género ao Cândido, sou eu que te dou um murro na tromba. - Tu, Rina?! Tens a mania de que és forte. - Ó rapaziada, guardem essas disputas para amanhã; e não se esqueçam de que ao chegarmos à Vila toca a separar, cada um vai para sua casa e nada de dar com a língua nos dentes, oquei?

domingo, 3 de junho de 2018

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DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha 





                                                                          ROUBOS


          Por mais que se queiram fazer comparações entre o passado e o presente acerca de roubos, isso torna-se quase impossível. Há cem anos atrás circulava pouco dinheiro e a maioria das casas tinha pouco para roubar. Também não havia, como agora, quadrilhas organizadas. Pequenos ladrões, independentes, iam furtando bens de consumo, roupa, e meia dúzia de moedas. Em nossos dias os roubos são imensos. Há grupos organizados, estudam a maneira mais eficaz de ficar com os bens dos outros, os carteiristas movem-se à vontade no metropolitano de Lisboa e Porto. Isto sem falar nos grandes roubos praticados por indivíduos bem posicionados na vida. A corrupção também se pode considerar roubo; a empresa que evita por meios ilegais o pagamento de impostos também é ladra. E a população por vezes aplaude esses actos ilícitos. Ouve-se constantemente dizer: «esses é que são finos, é que a sabem levar!» Ser honesto é quase "criminoso" neste modelo de sociedade!
           Bem, vamos ao que interessa

(1907) - LOURENÇO, Francisco. Nasceu no lugar do Coto, freguesia de Cristóval, a --/--/18--. // Em 1907 estava solteiro. Nesse ano foi citado pela autoridade para no prazo de sessenta dias se apresentar no tribunal de Melgaço a fim de responder pelo crime que praticara ao ter entrado no dia 21/9/1901 na casa de habitação de Vitorino José Esteves, do dito lugar, e aí arrombar uma mala, da qual furtou 150$000 réis…

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(1908) - CERQUEIRA, Manuel. Nasceu no lugar de Queirão, freguesia de Paderne, a --/--/18--. // Respondeu no tribunal judicial de Melgaço, a 20/7/1908, acusado de crime de furto. Foi condenado a cinco meses de prisão, sendo um remível à razão de 200 réis por dia, custas e selos do processo, levando-se-lhe em conta o tempo já cumprido.   
 

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(1912) - Em 1912 era pároco da igreja matriz da Vila de Melgaço o padre Manuel José Domingues; alguém assaltou as caixas das esmolas, levando todo o dinheiro que continham (Correio de Melgaço n.º 14, de 8/9/1912).

 
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(1912) - RIBEIRA, José Joaquim. Filho de Manuel José da Ribeira, carpinteiro, e de Maria Teresa de Araújo, moradores em Sucastelo. Neto paterno de Joaquim da Ribeira e de Caetana do Outeiro, do dito lugar; neto materno de Rosa de Araújo, solteira, de São Gregório. Nasceu a 13/8/1864 e foi batizado a 15 desse mês e ano. Padrinhos: o avô paterno e a sua segunda mulher, Luísa Monteiro. // Lavrador. // Casou na igreja de Cristóval a 27/4/1899 com Ludovina Bermudes, de 36 anos de idade, solteira, camponesa, natural de Paços, moradora no lugar da Sobreira, Cristóval, filha de João Bermudes e de Francisca da Silva, lavradores, do lugar do Outeiro, Paços. Testemunhas presentes: António Augusto de Araújo, casado, negociante, e Adriano Augusto Marques, casado, proprietário, cristovalenses. // Foi jurado por Cristóval no 2.º semestre de 1907, e voltou a ter esse cargo em 1908 (Jornal de Melgaço n.º 743). // Em 1912 roubaram-lhe quatro alqueires de milho do canastro; morava na Ferraria (Correio de Melgaço n.º 15, de 15/9/1912). // Em 1917 concorreu às eleições para a Câmara Municipal, em uma lista encabeçada pelo padre Francisco Leandro Álvares de Magalhães, reitor de Alvaredo (Jornal de Melgaço n.º 1164, de 30/6/1917). // Faleceu no lugar de Doma a --/--/1937, com 73 anos de idade (Notícias de Melgaço n.º 376).

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QUINTELA, José. Nasceu a --/--/18--. // Morou no lugar do Ramo, freguesia de Cristóval. // Em Fevereiro de 1913 assaltaram-lhe a casa, roubando-lhe, entre dinheiro e joias, 300$00 (ver Correio de Melgaço n.º 39, de 2/3/1913).


















 

 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha




José Félix Igrejas (1927-2018)



                                                                      MACRÓBIOS


        Esta rubrica tem como objetivo dar a conhecer aos melgacenses em geral, e a todos aqueles que visitam o meu blogue, as pessoas nascidas, ou que habitaram terras melgacenses, que morreram com 90 ou mais anos de idade. No início pensei que fossem poucas, mas à medida que fui pesquisando encontrei imensas, o que é bom sinal. Em Melgaço, a média de vida é bastante alta, havendo várias pessoas a ultrapassar os cem anos de idade. Como já escrevi noutros textos, isso deve-se em parte à qualidade de vida: o ar, a alimentação, etc., contribuem para essa longevidade.  




SENDINA, Rosa Maria. Filha de Maria Luísa Sendina, camponesa, pensense. Nasceu em Penso por volta de 1781. // Lavradeira. // Faleceu no lugar de Felgueiras, onde morava, a 18/11/1879, com cerca de 98 anos de idade, no estado de viúva de João António Gonçalves, e foi sepultada na igreja paroquial. // Fizera testamento. // Não deixou filhos.

  
SILVA, Maria da Conceição. Filha de Francisco da Silva, jornaleiro, natural de Salvaterra, diocese de Tui, Galiza, e de Genoveva Canes (ou Cames), jornaleira, natural de Penso, Melgaço, onde moravam, no lugar de Paranhão. Neta paterna de António da Silva e de Rosa Lourenço; neta materna de Francisco Manuel Canes (ou Cames) e de Antónia Pereira. Nasceu na freguesia de Penso a 14 de Agosto de 1889 e foi batizada a 19 desse mês e ano. Padrinhos: José de Sousa e sua esposa, Mariana Lourenço, jornaleiros, naturais da freguesia de Valadares, concelho de Monção. // Casou no Posto do Registo Civil de Belas, Sintra, a 8/8/1948, com José Luís, natural de Vila Nova de Ourém. // Enviuvou a 14/12/1972. // Em 1982 foi internada no Lar Pereira de Sousa, sito no lugar da Loja Nova, Vila de Melgaço. // Faleceu no dito Lar a 8 ou 9/4/1991, com cerca de cento e dois anos de idade. // Era a mais nova de onze irmãos.

terça-feira, 29 de maio de 2018

GENTES DO CONCELHO DE MELGAÇO

                                                              (Micro biografias)

                                                                Por Joaquim A. Rocha





BARROS, Agostinho. Filho de Henrique Benedito de Barros (nascido em SMP a 5/9/1818 e comerciante em Castro Laboreiro) e de Joaquina Rosa Fernandes (natural dos Cabreiros, Rouças). Nasceu em Castro Laboreiro em 1859. // Casou em SMP a 16/9/1882 com Filomena Rosa, de 25 anos de idade, filha de José Maria de Sousa, negociante, e de Rosa Margarida Gonçalves. Testemunhas: José Cândido Gomes de Abreu, solteiro, comerciante, e Manuel José Esteves, casado, escrivão da Fazenda, ambos da Vila de Melgaço. // A sua esposa esteve doente, com um ataque de influenza, em 1914 (CM 86, de 8/2). Melhorou bastante, pois em Agosto ou Setembro do mesmo ano partia para Âncora «fazer uso de banhos de mar». // Morou na Rua Direita (perto do Solar do Alvarinho), e dava explicações a alunos do ensino primário. // Em 29/10/1919 respondeu em processo de polícia correcional pelo crime de dano, tendo sido absolvido; era seu advogado de defesa o Dr. José Joaquim de Abreu (JM 1269, de 2/11/1919). // Faleceu a 27/4/1937, nos Carvalhos, Vila Nova de Gaia, onde residia com a esposa e netos (ver NM 353, de 16/5/1937). // Viveu muitos anos na Vila de Melgaço, onde lhe puseram a alcunha «Cobra». // Pai de Armando (em 1912 era negociante e proprietário do Seringal Empresa, no Acre) e de Alice, e avô de Maria Alice, Armanda e de Ângelo Augusto (escritor); irmão de Ladislau (emigrante no Brasil), de José (comerciante no Porto), de Jerónimo (proprietário em Ermezinde), de Delfina e de Ana Maria de Jesus, residentes em Prado, Melgaço. // Foi graças a ele que o seu neto escreveu o extraordinário romance «Maria dos Tojos» ou «Serra Brava»: contou-lhe todas as histórias, ensinou-lhe a geografia e a maneira de ser, os ancestrais costumes do castrejo autêntico; as saídas temporárias para Espanha e França, para Trás-os-Montes, e outras terras portuguesas, as mudanças de residência de acordo com as estações do ano, os trajes, o perfil psicológico, as perseguições levadas a cabo pelos carabineiros e soldados da Guarda-Fiscal aos pequenos contrabandistas, a agressividade da serra, enfim, tudo! // (ver Correio de Melgaço n.º 30, de 29/12/1912).  










 


































 









 





























 

 

  



sábado, 26 de maio de 2018

SONETOS DO SOL E DA LUA
 
Por Joaquim A. Rocha




Já a tarde dormente a face inclina,

Ouve-se o toque da ave-maria,

Anunciando a noite, fim do dia…

Numa eternidade, longa rotina.

 

O mineiro, dentro da funda mina,

Sem o sol, nem cheirando maresia,

Até a brisa da tarde esquecia,

Paisagem que se avista da colina.

 

Assim decorre a minha existência,

Sem luz, na escuridão permanente,

Numa brava luta sem resistência…

 

Caminhando num planeta fervente,

Esgotando a pouca fé, paciência,

Num frémito soluço que se expende.
 

 

 
 


 

 



 


 




 



 
 
 
 
 

 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha




ADEGA COOPERATIVA
// continuação...

     O projeto seguira para o IFADAP, é certo, mas este rejeitou-o, apoiando, através da Comissão Económica Europeia, a empresa “Quintas de Melgaço, Agricultura e Turismo, SA”, cuja adega foi inaugurada a 15/8/1994, com a presença do Governador Civil do distrito.      Em artigo do Dr. Paulo Malheiro, natural de Chaviães, advogado na Amadora, em “A Voz de Melgaço” n.º 1.000, de 1/2/1994, lê-se: «A denominada Adega Cooperativa continua a ser um projecto que, acredito, será levado a bom porto, dado o empenhamento das pessoas e entidades envolvidas.» Mas, depois de esclarecer o leitor, passa a defender a Sociedade Anónima: «Por isso se obtém uma maior rentabilização de uma adega sociedade anónima – dada a inexistência ou diminutos encargos financeiros – o que traz benefícios para os sócios, através da distribuição, no final do ano, dos dividendos (lucros da sociedade).»







     Mais abaixo afirma que os cooperantes não têm preparação para gerirem uma cooperativa, por isso poderão levá-la ao desastre! E remete os leitores para as notícias dos jornais, as quais anunciam diversas falências de cooperativas, salvo as de habitação. E dá um exemplo. E para rematar, escreve: «É que não basta erguer uma adega. Isso até é fácil, face aos incentivos comunitários. O que é difícil é mantê-la…» E com base em informações que recolheu, comenta: «…a Adega Quintas de Melgaço tem mercado para a sua produção, nomeadamente o mercado externo. Isso é uma garantia para os viticultores. E a adega cooperativa
      O presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Rui Solheiro, defendeu desde o início a criação da adega cooperativa, mas o tempo foi passando e em reunião de 18/3/1995 já aceitou a ideia da sua ligação à Cooperativa de Monção, com o nome de Adega Regional de Monção e Melgaço. Em Paderne existiria um «barracão de recolha de uvas». Muitos associados pediram o seu dinheiro de volta. A rejeição dos subsídios pelo IFADAP teve em conta a «sobre capacidade de produção instalada na região.» Tendo em consideração essa realidade, a C.C.A.M.M. sugeriu aos viticultores que subscrevessem ações da sociedade “Quintas de Melgaço” aquando do aumento de capital. Não sonhavam sequer que essa sociedade fosse mais tarde parar às mãos (68,8%) da Câmara Municipal de Melgaço (oferta de Amadeu Abílio Lopes, de Chaviães). Essa doação levantou grandes celeumas, sobretudo entre Paulo Malheiro (advogado) e Alberto Esteves (professor e vinicultor). Quem estiver interessado, pode ler essas polémicas em A Voz de Melgaço números 1067, 1069, 1071, 1073, do ano de 1997. (Acerca deste assunto ver ainda: Notícias de Melgaço n.º 1490, de 3/11/1963 – artigo de F. da Silva; Jornal de Melgaço n.º 25, de Abril de 1992; A Voz de Melgaço n.º 966, de 1/7/1992; A Voz de Melgaço n.º 968, de 1/8/1992; A Voz de Melgaço n.º 973, de 1/11/1992; A Voz de Melgaço n.º 984, de 1/5/1993; A Voz de Melgaço n.º 985, de 15/5/1993; Jornal de Melgaço n.º 44, de Janeiro de 1994; A Voz de Melgaço n.º 1109, de 1/2/1999, e A Voz de Melgaço n.º 1184, de 15/6/2002).