sábado, 12 de maio de 2018


SONETOS DO SOL E DA LUA

Por Joaquim A. Rocha


a sombra de Drácula


Abrem os tempos brechas nos castelos,

Põe verdete nas faces dos metais,

Derrubam as árvores colossais,

Devoram tinta de painéis tão belos!
 

Mas os deuses usaram tais desvelos,

Prendas, atrativos, dons naturais,

Em rostos femininos, que jamais,

Tempo há-de sumi-los, esquece-los!
 

Apenas a morte vai um dia desfazer,

O trabalho das divinas criaturas,

Obra-prima do viril universo.
 

Vai exibir seu infindo poder…

Restarão os ossos, frágeis esculturas,

Para o vate cantar num frugal verso.

 

Este soneto foi inspirado num outro de Ribeiro da Silva (ver Notícias de Melgaço n.º 369, de 26/9/1937). 
 
uma pega admirando a paisagem


   



 
 
 
 

 
 
 













 






 






 







 








 








 









 










 










 











 












 
















 

 

 













quarta-feira, 9 de maio de 2018

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

                                                                Por Joaquim A. Rocha






MELGAÇO NO CHIADO


 

     No dia 19 de Outubro deste ano de 1995, pelas sete horas da tarde, inaugurou-se a Exposição dos trabalhos fotográficos do nosso conterrâneo San Payo, no Museu do Chiado, em Lisboa. Fiquei deveras emocionado ao ouvir, pela voz de um dos responsáveis da organização, o nome de Melgaço. - «San Payo nasceu no Minho, na freguesia de São Paio, concelho de Melgaço…» Toda aquela gente: políticos, escritores, fotógrafos famosos, jornalistas, etc., olhava embevecida aquelas obras-primas. Da Exposição, que decorrerá até finais de Dezembro, faz parte uma fotografia da nossa vila, datada de 1924. Ainda não existia o novo edifício da Câmara Municipal. Esse foi inaugurado em 1931, no mesmo ano em que morreu Hermenegildo José Solheiro, avô do atual presidente. Nesse recinto, rodeado de árvores (plátanos e austrálias) fazia-se quinzenalmente uma feira – daí chamar-se a esse local Feira Nova.

     Os guias iam dizendo que muitas daquelas fotografias de damas tinham sido capas de revista nos anos vinte e trinta. San Payo fotografou figuras notabilíssimas: Aquilino Ribeiro, José Leite de Vasconcelos, Maria Lamas, Ferreira de Castro, Malhoa, Egas Moniz, Viana da Mota, padre Moreira das Neves, cardeal Cerejeira, Lea Niako (artista), Francis (bailarino)…

     Os filhos do artista sorriam satisfeitos por verem que seu pai é estimado e admirado por pessoas de todos os quadrantes políticos. A arte paira muito acima da ideologia, podem crer.

     A Câmara Municipal de Melgaço tomou conhecimento deste evento cultural? Mandou a Lisboa alguém que a representasse? Que eu saiba, não! Não seria mais vantajoso para a cultura melgacense gastar algumas dezenas de contos de réis com a deslocação de um vereador, informando-se, adquirindo o catálogo da exposição (6.750$00) para colocar na Biblioteca Municipal, do que levar a Melgaço «A Quinta do Bill»? Volto a repetir: ignoro se mandou alguém. Contudo, eu fico sempre com a sensação de que esta Câmara, super politizada, não tem tempo para manifestações deste tipo. Como estou com a mão na massa, como se costuma dizer, ocorre-me perguntar: se isto é assim agora, que acontecerá quando Rui Solheiro se sentar nas cadeiras da Assembleia da República? Já sei: só lá irá de vez em quando! Não será bem assim: um deputado sério tem de estudar dossiês, inteirar-se de todos os problemas, a fim de defender os interesses daqueles que o elegeram, intervir amiúde, fazer-se notar, adquirir prestígio para si e para o distrito. Reconheço a sua competência, a sua honestidade, e espero sinceramente que venha futuramente a contribuir ainda mais para o progresso de Melgaço, mas estar em dois sítios ao mesmo tempo é impossível. Dir-me-ão que este assunto não me diz respeito; em parte é certo, contudo… A não ser que o Partido Socialista considere que o nosso concelho já tem tudo: piscinas, lar, quartel dos bombeiros, estrada, escola profissional, casa da cultura, quartel da Guarda Nacional Republicana… Porém, falta: pólo industrial, ponte Peso-Arbo, palácio da justiça, praia fluvial (e avenida para o rio), arquivo municipal… e tantas, tantas coisas mais! Se queremos que o nosso concelho progrida no sentido de se tornar uma vila moderna, atrativa, é necessário assumir a realidade atual. Não é catastrófica, isso não; mas também não é brilhante. Que postos de trabalho existem no concelho? Mil, dois mil? É pouco para uma população que se quer de vinte ou trinta mil habitantes.

     Tem-se vivido até agora quase exclusivamente de pensões e das remessas dos emigrantes, mas à medida que as taxas de juro baixam eles vão deixando de enviar dinheiro para os bancos nacionais. A agricultura, com exceção da vinha, deixou de existir. Uma das coisas que eu nunca compreendi foi o facto de não se produzir queijo em Melgaço. Em quase todas as regiões onde haja serra, há queijo – aqui, não! Vejo gado bovino, caprino, ovino, pastando pela montanha bravia, mas de queijo melgacense nunca ouvi falar! Presunto, quer de Fiães, quer de Castro Laboreiro, também é raro aparecer, embora ultimamente tenha surgido uma ou outra pessoa interessada em voltar a dar-lhe o lugar que outrora teve.

     O Dr. Augusto César Esteves escreveu em 1956 que em Melgaço até havia condições para se fabricarem palitos! A matéria-prima, segundo ele, era o salgueiro-branco, árvore que existe nas margens dos rios, e zonas húmidas, facílima de trabalhar. Escreveu ele: - «uns canivetes afiados e uma panela vulgar com água a ferver para desinfetar os palitos, eis a ferramenta precisa.» Em Melgaço não se fabrica nada – muitas vezes até o pão se vai comprar à Galiza! Para a construção temos o granito, o barro para telha e tijolo, sei lá! Estou a lembrar-me que existem condições, mesmo que não sejam as ideais, para a produção de noz, avelã, castanha – alguém as produz?! A pesca nunca em Melgaço teve estatuto de profissão: complementou, no passado, outras atividades, quer na área da agricultura, quer na área dos ofícios; hoje ela não existe – decerto nem como desporto!                 

     O turismo, galinha dos ovos de ouro, está por promover. Até agora nunca vi em Lisboa um cartaz, seja o que for, que fale de Melgaço e das suas admiráveis belezas. Nem a água mineral do Peso aparece! Penso que neste setor a Câmara Municipal teria uma palavra a dizer: - «Somos um concelho com enormes potencialidades turísticas, possuímos riquezas naturais, histórico-culturais, e a própria situação geográfica, com os novos acessos, pode beneficiar-nos. Impõe-se continuar a investir na criação de equipamentos e infraestruras que permitam o aproveitamento destas condições»…, assim rezava a propaganda política do Partido Socialista aquando da campanha para as autarquias. Claro que em campanha dizem-se muitas coisas; depois é sempre difícil, normalmente por falta de dinheiro, mas não só, também por falta de capacidade realizativa, cumprir na íntegra aquilo que se prometeu. Equipamentos e infraestruturas sem pessoas capazes, habilitadas, não valem de nada. O exemplo mais atual é o da Casa da Cultura: tem lá umas jovens simpáticas e inteligentes, com o 12.º ano, mas provavelmente sem quaisquer conhecimentos técnicos no campo da bibliotecnia. Que sabem elas de literatura? Leram com certeza sonetos de Camões, romances de Eça, Camilo, Júlio Dinis... E literatura estrangeira? Talvez Jorge Amado. Infanto-juvenil: Alice Vieira, Natércia Rocha… Saberão aconselhar com rigor científico a leitura desta ou daquela obra?! Têm culpa? Nenhuma. Deviam ter à frente da Biblioteca um/a bibliotecário/a que lhes ensinasse; daqui a uns anos elas seriam capazes de desempenhar cabalmente o se mester; assim, com salários mínimos, desdobrando-se entre livros e serviços de bar (!), como poderão aprender alguma coisa?

     Esta é, infelizmente, parte da realidade melgacense. O comércio não vende; a indústria não existe; a agricultura, idem! O que resta? Serviços? As freguesias mais afastadas da sede do concelho já não têm praticamente gente jovem, o que significa que dentro de algum tempo ficarão desertas. Quanto a mim, só Alvaredo, Penso, Prado, Paderne, São Paio, Rouças, e Chaviães, sobreviverão ao efeito urbanístico da segunda metade do século XX. Poucos jovens melgacenses que terminem um curso superior voltarão à terra natal para aí arranjar emprego; aqueles que não passarem do secundário terão muitas dificuldades em arranjar um posto compatível com as suas habilitações literárias e naturais ambições – terão também eles de se deslocar para outras terras: nacionais ou estrangeiras.          

     A Câmara Municipal, seja esta ou outra qualquer, não poderá fazer muita coisa para modificar esta tendência; é ao governo que cabe esse papel. Algumas das indústrias de ponta, por exemplo, poderiam estar em Melgaço. O ministério da agricultura deveria forçar esse desígnio. Esperemos pacientemente a tão propalada descentralização, o cumprimento de algumas promessas, a regionalização.

     Ainda o Museu do Chiado: além da Exposição de fotografias de San Payo o visitante poderá admirar quadros de Columbano, Almada Negreiros, Amadeu de Souza-Cardoso, Silva Porto, Malhoa, Carlos Botelho, Mário Eloy, Nadir Afonso, Francisco Metrass, Júlio Resende, João Hogan…

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1040, de 15/11/1995.

domingo, 6 de maio de 2018

LINA - FILHA DE PÃ
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha



 
 
 
5.º capítulo (continuação)
 
 
     A notícia correu célere. Tinha havido um acidente no rio Minho. Um dos homens dos contrabandistas perdera a vida, ao cair da pequena embarcação. Mal sabia nadar, a corrente era intensa, e não resistiu. Correu a seguir outra versão: a batela ia demasiado cheia, a carga fora mal distribuída, e por isso tombou; salvaram-se os mais fortes. Logo se soube que a vítima fora o infeliz Mário. Pobre rapaz: fora enganado pela Lina e pelo Juiz, a irmã pusera-o fora de casa, passara fome, e agora a morte por afogamento! Nascera sem dúvida sob o signo da desgraça.

- E agora a criança?! – perguntavam os moradores da Vila.

- Coitadinha, o pai biológico abandonou-a e agora morre o seu protector. Pobre criancinha, que irá ser dela? 

     A família do defunto reuniu e decidiram levar a Lisete para casa da sua avó materna. Era gente paupérrima, simples camponeses, mas de qualquer maneira estaria lá melhor do que com a mãe, uma verdadeira galdéria, uma anarquista no mau sentido.
     Ainda nesse dia resolveram levar a catraia. A avó, relativamente nova em idade mas velha fisicamente, alquebrada, quando viu a neta abriu os braços e disse:
- Minha netinha! Ficas aqui connosco, não te há-de faltar uma malga de caldo para comeres.  
     Os da Vila tinham-lhe contado toda a tragédia: a odisseia e morte do parente, o desinteresse da Lina pela filha, enfim todo o drama daquela gente.
 
- A minha filha tem-me desiludido muito. Dizem-me que em todas as casas onde tem servido arranja sempre problemas: amiga-se com o patrão, diz mal da senhora, enfim, uma peste. Aqui já não vem há muito tempo; não tem saudades nossas!
 
- Nós ficávamos com a Lisete – diz a irmã do Mário – mas também somos pobres, não podemos criá-la; além disso, como sabe…
- Não é filha do seu defunto irmão, nós sabemos. E eu que lhe pedira para respeitar o Senhor Doutor Juiz, a galdéria foi-se meter com o patrão na cama, uma criança, apenas com dezasseis anos de idade. Que esperava, a estouvada? Que o Senhor Doutor casasse com ela? Que a levasse com ele para outra terra? Ela não sabia, a parva, que o Senhor Doutor Juiz é de famílias distintas, ricas, e que só quis brincar com ela, aproveitar-se da sua pouca idade e experiência? Pobre Lisete, nunca na vida dela verá o seu pai, e por nós nunca saberá quem ele é, pois o seu nome não será pronunciado nesta casa!
 



     Os anos foram caminhando paulatinamente. Acabada a guerra civil de Espanha, em 1939, uma autêntica carnificina, irmãos contra irmãos, filhos contra pais, crimes hediondos, tudo arrasado, por ordem de Franco, filho querido de Satanás, começara logo a seguir a II Grande Guerra, iniciada pelo abominável carniceiro, chamado Adolfo Hitler, que destruíra a Europa central. Milhões de pessoas morreram ingloriamente e outras tantas ficaram feridas e inválidas. O ser humano ficou de rastos psicologicamente. Como fora possível tamanha matança, tanta destruição, tanto desprezo e indiferença pela vida humana?! 

     Portugal desta vez não entrou na Guerra. O governo achou por bem não tomar partido abertamente. Toda a gente sabia que Salazar, disfarçadamente, apoiava Hitler e o seu modelo de sociedade; apoiava também Mussolini e o seu arquétipo fascista, mas por outro lado não queria esquecer o tratado que o nosso país fizera há séculos com a Inglaterra. Estavam em causa interesses nacionais, sobretudo os territórios ultramarinos, cuja riqueza começava finalmente a dar nas vistas.

     Os alemães tinham espiões em Lisboa, tal como ingleses e outros. O ditador português jogava o seu próprio jogo, ora negociando com uma parte, ora com a outra! No final, aqueles que ganhassem a guerra, estar-lhe-iam gratos. E assim aconteceu. Quando toda a gente esperava que os vencedores criassem uma democracia em Portugal, eis que a política interfere e tudo fica na mesma. Salazar tinha razão: o pouco que fizera pelos aliados chegara para salvar o seu lugar no poder. Podia continuar a desenvolver o seu modelo corporativista, a aniquilar os seus adversários, a coarctar a liberdade dos cidadãos.  
 
 


 


 

 


 


 



 



 




 




 




 





 





 





 







 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

POEMAS DO VENTO

                                                                                             Por Joaquim A. Rocha


desenho de Rui Nunes

FIM E PRINCÍPIO 

 
 
Já ao longe vislumbro o teu exército.

O malvado, qual fera, vem atacar-me!

Os infantes apontam-me as suas

metralhadoras de cano negro;

são portadoras da fria morte!

Os mercenários avançam como robots,

Máquinas preparadas para matar!

Os teus aviões preparam-se para me bombardear.

Bombas gigantes estão a ser lançadas do espaço!

Os «drones» já descobriram o meu frágil corpo.

Os teus navios, vorazes monstros de guerra,

começam a vomitar a sua cólera incontida;

e as árvores, minhas protetoras,

caem como bebés: desamparadas e impotentes!

O teu juízo está feito. A tua sentença foi lida: 

condenação à fogueira! A Santa Inquisição ordena.

Devo morrer, desaparecer deste mundo.

Devo mergulhar no esquecimento

como coisa, ou objeto coisificado!

As primeiras chamas atingem-me.

As faúlhas elevam-se no espaço

As bombas começam a explodir.

O meu pobre corpo já não existe.

Está destroçado. Está reduzido

a pequenas partículas que as botas dos infantes

enterram na areia do deserto.

O oásis desapareceu. A vida pereceu.

Sobreveio-lhe a cruel lembrança…

O silêncio! Mas eis que a memória prevalece.

Existem as imagens retidas no armazém

do Tempo.

 Agora já não mais poderão destruir-me!

Nem com blindados, nem com balas mortíferas,

 nem com gases venenosos,

nem com a indiferença dos deuses.

Agora, reduzido a fragmentos, a pó, eu já poderei viver!

Ninguém pode afastar-me, sou apenas sombra.

Não poderão fragmentar-me segunda vez!

O poderoso exército já nada

pode contra mim.

Não suscitará ciúmes, nem ódio,

a minha sombra invisível.

As horas supremas de prazer, serão esquecidas,

O meu não corpo pairará no espaço como um balão que fugiu das mãos de uma criança!

Não sentirei medo, jamais terei esperanças.

Os meus sentimentos dissipar-se-ão no meio do infindo universo.

Visitarei galáxias, sóis escaldantes, planetas desabitados. Saciarei a minha sede de ser na bruma.

Em todas as aflições, se surgirem,

Ultrapassá-las-ei com o esquecimento.

Superarei a dor se regressar ao fingido corpo.

Eu sou uma ideia!

Eu sou uma não existência!

Ninguém poderá, doravante, ignorar-me!




desenho de Rui Nunes