quarta-feira, 9 de maio de 2018

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

                                                                Por Joaquim A. Rocha






MELGAÇO NO CHIADO


 

     No dia 19 de Outubro deste ano de 1995, pelas sete horas da tarde, inaugurou-se a Exposição dos trabalhos fotográficos do nosso conterrâneo San Payo, no Museu do Chiado, em Lisboa. Fiquei deveras emocionado ao ouvir, pela voz de um dos responsáveis da organização, o nome de Melgaço. - «San Payo nasceu no Minho, na freguesia de São Paio, concelho de Melgaço…» Toda aquela gente: políticos, escritores, fotógrafos famosos, jornalistas, etc., olhava embevecida aquelas obras-primas. Da Exposição, que decorrerá até finais de Dezembro, faz parte uma fotografia da nossa vila, datada de 1924. Ainda não existia o novo edifício da Câmara Municipal. Esse foi inaugurado em 1931, no mesmo ano em que morreu Hermenegildo José Solheiro, avô do atual presidente. Nesse recinto, rodeado de árvores (plátanos e austrálias) fazia-se quinzenalmente uma feira – daí chamar-se a esse local Feira Nova.

     Os guias iam dizendo que muitas daquelas fotografias de damas tinham sido capas de revista nos anos vinte e trinta. San Payo fotografou figuras notabilíssimas: Aquilino Ribeiro, José Leite de Vasconcelos, Maria Lamas, Ferreira de Castro, Malhoa, Egas Moniz, Viana da Mota, padre Moreira das Neves, cardeal Cerejeira, Lea Niako (artista), Francis (bailarino)…

     Os filhos do artista sorriam satisfeitos por verem que seu pai é estimado e admirado por pessoas de todos os quadrantes políticos. A arte paira muito acima da ideologia, podem crer.

     A Câmara Municipal de Melgaço tomou conhecimento deste evento cultural? Mandou a Lisboa alguém que a representasse? Que eu saiba, não! Não seria mais vantajoso para a cultura melgacense gastar algumas dezenas de contos de réis com a deslocação de um vereador, informando-se, adquirindo o catálogo da exposição (6.750$00) para colocar na Biblioteca Municipal, do que levar a Melgaço «A Quinta do Bill»? Volto a repetir: ignoro se mandou alguém. Contudo, eu fico sempre com a sensação de que esta Câmara, super politizada, não tem tempo para manifestações deste tipo. Como estou com a mão na massa, como se costuma dizer, ocorre-me perguntar: se isto é assim agora, que acontecerá quando Rui Solheiro se sentar nas cadeiras da Assembleia da República? Já sei: só lá irá de vez em quando! Não será bem assim: um deputado sério tem de estudar dossiês, inteirar-se de todos os problemas, a fim de defender os interesses daqueles que o elegeram, intervir amiúde, fazer-se notar, adquirir prestígio para si e para o distrito. Reconheço a sua competência, a sua honestidade, e espero sinceramente que venha futuramente a contribuir ainda mais para o progresso de Melgaço, mas estar em dois sítios ao mesmo tempo é impossível. Dir-me-ão que este assunto não me diz respeito; em parte é certo, contudo… A não ser que o Partido Socialista considere que o nosso concelho já tem tudo: piscinas, lar, quartel dos bombeiros, estrada, escola profissional, casa da cultura, quartel da Guarda Nacional Republicana… Porém, falta: pólo industrial, ponte Peso-Arbo, palácio da justiça, praia fluvial (e avenida para o rio), arquivo municipal… e tantas, tantas coisas mais! Se queremos que o nosso concelho progrida no sentido de se tornar uma vila moderna, atrativa, é necessário assumir a realidade atual. Não é catastrófica, isso não; mas também não é brilhante. Que postos de trabalho existem no concelho? Mil, dois mil? É pouco para uma população que se quer de vinte ou trinta mil habitantes.

     Tem-se vivido até agora quase exclusivamente de pensões e das remessas dos emigrantes, mas à medida que as taxas de juro baixam eles vão deixando de enviar dinheiro para os bancos nacionais. A agricultura, com exceção da vinha, deixou de existir. Uma das coisas que eu nunca compreendi foi o facto de não se produzir queijo em Melgaço. Em quase todas as regiões onde haja serra, há queijo – aqui, não! Vejo gado bovino, caprino, ovino, pastando pela montanha bravia, mas de queijo melgacense nunca ouvi falar! Presunto, quer de Fiães, quer de Castro Laboreiro, também é raro aparecer, embora ultimamente tenha surgido uma ou outra pessoa interessada em voltar a dar-lhe o lugar que outrora teve.

     O Dr. Augusto César Esteves escreveu em 1956 que em Melgaço até havia condições para se fabricarem palitos! A matéria-prima, segundo ele, era o salgueiro-branco, árvore que existe nas margens dos rios, e zonas húmidas, facílima de trabalhar. Escreveu ele: - «uns canivetes afiados e uma panela vulgar com água a ferver para desinfetar os palitos, eis a ferramenta precisa.» Em Melgaço não se fabrica nada – muitas vezes até o pão se vai comprar à Galiza! Para a construção temos o granito, o barro para telha e tijolo, sei lá! Estou a lembrar-me que existem condições, mesmo que não sejam as ideais, para a produção de noz, avelã, castanha – alguém as produz?! A pesca nunca em Melgaço teve estatuto de profissão: complementou, no passado, outras atividades, quer na área da agricultura, quer na área dos ofícios; hoje ela não existe – decerto nem como desporto!                 

     O turismo, galinha dos ovos de ouro, está por promover. Até agora nunca vi em Lisboa um cartaz, seja o que for, que fale de Melgaço e das suas admiráveis belezas. Nem a água mineral do Peso aparece! Penso que neste setor a Câmara Municipal teria uma palavra a dizer: - «Somos um concelho com enormes potencialidades turísticas, possuímos riquezas naturais, histórico-culturais, e a própria situação geográfica, com os novos acessos, pode beneficiar-nos. Impõe-se continuar a investir na criação de equipamentos e infraestruras que permitam o aproveitamento destas condições»…, assim rezava a propaganda política do Partido Socialista aquando da campanha para as autarquias. Claro que em campanha dizem-se muitas coisas; depois é sempre difícil, normalmente por falta de dinheiro, mas não só, também por falta de capacidade realizativa, cumprir na íntegra aquilo que se prometeu. Equipamentos e infraestruturas sem pessoas capazes, habilitadas, não valem de nada. O exemplo mais atual é o da Casa da Cultura: tem lá umas jovens simpáticas e inteligentes, com o 12.º ano, mas provavelmente sem quaisquer conhecimentos técnicos no campo da bibliotecnia. Que sabem elas de literatura? Leram com certeza sonetos de Camões, romances de Eça, Camilo, Júlio Dinis... E literatura estrangeira? Talvez Jorge Amado. Infanto-juvenil: Alice Vieira, Natércia Rocha… Saberão aconselhar com rigor científico a leitura desta ou daquela obra?! Têm culpa? Nenhuma. Deviam ter à frente da Biblioteca um/a bibliotecário/a que lhes ensinasse; daqui a uns anos elas seriam capazes de desempenhar cabalmente o se mester; assim, com salários mínimos, desdobrando-se entre livros e serviços de bar (!), como poderão aprender alguma coisa?

     Esta é, infelizmente, parte da realidade melgacense. O comércio não vende; a indústria não existe; a agricultura, idem! O que resta? Serviços? As freguesias mais afastadas da sede do concelho já não têm praticamente gente jovem, o que significa que dentro de algum tempo ficarão desertas. Quanto a mim, só Alvaredo, Penso, Prado, Paderne, São Paio, Rouças, e Chaviães, sobreviverão ao efeito urbanístico da segunda metade do século XX. Poucos jovens melgacenses que terminem um curso superior voltarão à terra natal para aí arranjar emprego; aqueles que não passarem do secundário terão muitas dificuldades em arranjar um posto compatível com as suas habilitações literárias e naturais ambições – terão também eles de se deslocar para outras terras: nacionais ou estrangeiras.          

     A Câmara Municipal, seja esta ou outra qualquer, não poderá fazer muita coisa para modificar esta tendência; é ao governo que cabe esse papel. Algumas das indústrias de ponta, por exemplo, poderiam estar em Melgaço. O ministério da agricultura deveria forçar esse desígnio. Esperemos pacientemente a tão propalada descentralização, o cumprimento de algumas promessas, a regionalização.

     Ainda o Museu do Chiado: além da Exposição de fotografias de San Payo o visitante poderá admirar quadros de Columbano, Almada Negreiros, Amadeu de Souza-Cardoso, Silva Porto, Malhoa, Carlos Botelho, Mário Eloy, Nadir Afonso, Francisco Metrass, Júlio Resende, João Hogan…

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1040, de 15/11/1995.

domingo, 6 de maio de 2018

LINA - FILHA DE PÃ
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha



 
 
 
5.º capítulo (continuação)
 
 
     A notícia correu célere. Tinha havido um acidente no rio Minho. Um dos homens dos contrabandistas perdera a vida, ao cair da pequena embarcação. Mal sabia nadar, a corrente era intensa, e não resistiu. Correu a seguir outra versão: a batela ia demasiado cheia, a carga fora mal distribuída, e por isso tombou; salvaram-se os mais fortes. Logo se soube que a vítima fora o infeliz Mário. Pobre rapaz: fora enganado pela Lina e pelo Juiz, a irmã pusera-o fora de casa, passara fome, e agora a morte por afogamento! Nascera sem dúvida sob o signo da desgraça.

- E agora a criança?! – perguntavam os moradores da Vila.

- Coitadinha, o pai biológico abandonou-a e agora morre o seu protector. Pobre criancinha, que irá ser dela? 

     A família do defunto reuniu e decidiram levar a Lisete para casa da sua avó materna. Era gente paupérrima, simples camponeses, mas de qualquer maneira estaria lá melhor do que com a mãe, uma verdadeira galdéria, uma anarquista no mau sentido.
     Ainda nesse dia resolveram levar a catraia. A avó, relativamente nova em idade mas velha fisicamente, alquebrada, quando viu a neta abriu os braços e disse:
- Minha netinha! Ficas aqui connosco, não te há-de faltar uma malga de caldo para comeres.  
     Os da Vila tinham-lhe contado toda a tragédia: a odisseia e morte do parente, o desinteresse da Lina pela filha, enfim todo o drama daquela gente.
 
- A minha filha tem-me desiludido muito. Dizem-me que em todas as casas onde tem servido arranja sempre problemas: amiga-se com o patrão, diz mal da senhora, enfim, uma peste. Aqui já não vem há muito tempo; não tem saudades nossas!
 
- Nós ficávamos com a Lisete – diz a irmã do Mário – mas também somos pobres, não podemos criá-la; além disso, como sabe…
- Não é filha do seu defunto irmão, nós sabemos. E eu que lhe pedira para respeitar o Senhor Doutor Juiz, a galdéria foi-se meter com o patrão na cama, uma criança, apenas com dezasseis anos de idade. Que esperava, a estouvada? Que o Senhor Doutor casasse com ela? Que a levasse com ele para outra terra? Ela não sabia, a parva, que o Senhor Doutor Juiz é de famílias distintas, ricas, e que só quis brincar com ela, aproveitar-se da sua pouca idade e experiência? Pobre Lisete, nunca na vida dela verá o seu pai, e por nós nunca saberá quem ele é, pois o seu nome não será pronunciado nesta casa!
 



     Os anos foram caminhando paulatinamente. Acabada a guerra civil de Espanha, em 1939, uma autêntica carnificina, irmãos contra irmãos, filhos contra pais, crimes hediondos, tudo arrasado, por ordem de Franco, filho querido de Satanás, começara logo a seguir a II Grande Guerra, iniciada pelo abominável carniceiro, chamado Adolfo Hitler, que destruíra a Europa central. Milhões de pessoas morreram ingloriamente e outras tantas ficaram feridas e inválidas. O ser humano ficou de rastos psicologicamente. Como fora possível tamanha matança, tanta destruição, tanto desprezo e indiferença pela vida humana?! 

     Portugal desta vez não entrou na Guerra. O governo achou por bem não tomar partido abertamente. Toda a gente sabia que Salazar, disfarçadamente, apoiava Hitler e o seu modelo de sociedade; apoiava também Mussolini e o seu arquétipo fascista, mas por outro lado não queria esquecer o tratado que o nosso país fizera há séculos com a Inglaterra. Estavam em causa interesses nacionais, sobretudo os territórios ultramarinos, cuja riqueza começava finalmente a dar nas vistas.

     Os alemães tinham espiões em Lisboa, tal como ingleses e outros. O ditador português jogava o seu próprio jogo, ora negociando com uma parte, ora com a outra! No final, aqueles que ganhassem a guerra, estar-lhe-iam gratos. E assim aconteceu. Quando toda a gente esperava que os vencedores criassem uma democracia em Portugal, eis que a política interfere e tudo fica na mesma. Salazar tinha razão: o pouco que fizera pelos aliados chegara para salvar o seu lugar no poder. Podia continuar a desenvolver o seu modelo corporativista, a aniquilar os seus adversários, a coarctar a liberdade dos cidadãos.  
 
 


 


 

 


 


 



 



 




 




 




 





 





 





 







 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

POEMAS DO VENTO

                                                                                             Por Joaquim A. Rocha


desenho de Rui Nunes

FIM E PRINCÍPIO 

 
 
Já ao longe vislumbro o teu exército.

O malvado, qual fera, vem atacar-me!

Os infantes apontam-me as suas

metralhadoras de cano negro;

são portadoras da fria morte!

Os mercenários avançam como robots,

Máquinas preparadas para matar!

Os teus aviões preparam-se para me bombardear.

Bombas gigantes estão a ser lançadas do espaço!

Os «drones» já descobriram o meu frágil corpo.

Os teus navios, vorazes monstros de guerra,

começam a vomitar a sua cólera incontida;

e as árvores, minhas protetoras,

caem como bebés: desamparadas e impotentes!

O teu juízo está feito. A tua sentença foi lida: 

condenação à fogueira! A Santa Inquisição ordena.

Devo morrer, desaparecer deste mundo.

Devo mergulhar no esquecimento

como coisa, ou objeto coisificado!

As primeiras chamas atingem-me.

As faúlhas elevam-se no espaço

As bombas começam a explodir.

O meu pobre corpo já não existe.

Está destroçado. Está reduzido

a pequenas partículas que as botas dos infantes

enterram na areia do deserto.

O oásis desapareceu. A vida pereceu.

Sobreveio-lhe a cruel lembrança…

O silêncio! Mas eis que a memória prevalece.

Existem as imagens retidas no armazém

do Tempo.

 Agora já não mais poderão destruir-me!

Nem com blindados, nem com balas mortíferas,

 nem com gases venenosos,

nem com a indiferença dos deuses.

Agora, reduzido a fragmentos, a pó, eu já poderei viver!

Ninguém pode afastar-me, sou apenas sombra.

Não poderão fragmentar-me segunda vez!

O poderoso exército já nada

pode contra mim.

Não suscitará ciúmes, nem ódio,

a minha sombra invisível.

As horas supremas de prazer, serão esquecidas,

O meu não corpo pairará no espaço como um balão que fugiu das mãos de uma criança!

Não sentirei medo, jamais terei esperanças.

Os meus sentimentos dissipar-se-ão no meio do infindo universo.

Visitarei galáxias, sóis escaldantes, planetas desabitados. Saciarei a minha sede de ser na bruma.

Em todas as aflições, se surgirem,

Ultrapassá-las-ei com o esquecimento.

Superarei a dor se regressar ao fingido corpo.

Eu sou uma ideia!

Eu sou uma não existência!

Ninguém poderá, doravante, ignorar-me!




desenho de Rui Nunes
 

  


 

  

segunda-feira, 30 de abril de 2018

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)

romance histórico
 
Por Joaquim A. Rocha




... continuação...

- O meu amigo Cândido perde-se em considerações, desliza pelo tempo e pelo espaço… Eu gostaria de saber como as coisas lhe correram.

- Desculpa. As palavras são como as cerejas: vêm em cachos! Pois bem: partimos então para o patrulhamento. Andámos, andámos, sob sol, sob calor abrasador. A água do cantil depressa se esgotou, apesar do super controlo que exercíamos sobre ela. Os lábios começavam a ficar gretados. As águas dos pântanos, dos lagos nascidos das chuvas, não serviam para beber. Mesmo assim, o enfermeiro dizia-nos que enchêssemos os cantis, pois misturaria na água um comprimido que já trazia consigo para esse efeito. Não sei que raio tinha a pastilha, só sei que de imediato tornava claro aquele líquido sujo e nojento! Contudo, a água ficava com um sabor esquisito.

- Era tudo contrariedades!

- É verdade. Estávamos a chegar ao nosso destino. De súbito, o capitão mandou-nos parar: «As armas em posição de fogo; bazucas aqui para a frente; a dois passos de nós há uma tabanca que tem dado abrigo e alimento aos turras; vamos destruí-la completamente. Os tipos podem oferecer resistência; cada pelotão vai tentando rodeá-la; quando eu disser, começam a disparar.»

     Saímos da floresta e entrámos numa clareira. O capim rivalizava connosco em tamanho. O calor da tarde tornava-se insuportável. Não me lembro bem em que mês do ano se estava – talvez Junho – mas isso também não era importante, pois na Guiné há temperaturas elevadas durante todo o ano.

     Aproximámo-nos do local o mais possível. Da tabanca chegavam, imperceptíveis, os murmúrios de algumas vozes masculinas e femininas. “Estranhas vozes e estranha gente”, disse para com os meus botões.

     Chegado a este ponto, meu caro amigo Rique, apetece-me sonhar. Imaginar-me em Melgaço, ouvir as vozes amigas dos meus conterrâneos, convidando-me: «Vem beber uma malga de vinho da última colheita e comer um pedaço de pão com presunto – este é do especial.»

- Fantasias! Saudades! A vontade de rever a sua família, a sua casa, o rio Minho. Tudo! – atalha o rapaz, na esperança de apaziguar o ânimo exaltado do amigo.






- Talvez! O primeiro tiro: pum! A seguir as bazucadas, com o seu som aterrorizador – armas e pessoal em movimento acelerado. As labaredas irrompem tenebrosas e belas, os gritos lancinantes destroçavam o coração do mais empedernido.


    As cubatas, feitas de barro amassado e cobertas de capim, não resistiram às granadas das bazucas e às chamas: uma a uma, foram tombando como tordos sob o fogo do exímio caçador.

     Os moradores, com os seus parcos haveres, fugiam o mais rapidamente possível em direção à mata cerrada, que distava dali uns bons cem metros.

     Avançámos mais. Contra nós, pelo menos fiquei com essa impressão, ninguém disparou! Dentro das habitações, das poucas que restaram, não se vislumbrava vivalma. «Ainda bem» - congratulei-me, aliviado. Esperava ardentemente, juro-te, que não se encontrassem corpos carbonizados, esturricados: seria um horror para mim.

- Foi uma razia! – indaga Henrique, numa tentativa de adivinhar o que se passou.                

- Podes crer! E quando já se pensava estar tudo resolvido, tudo acabado, eis que surge uma velha mulher, alta, esguia, de um negro muito negro, quase nua, gritando como uma louca. Na cabeça, oval, sustentava uma cabaça e na mão direita tinha um objeto de barro. Barafustava, gesticulava, e ninguém – nem mesmo os nossos guias – compreendiam essa língua tão exótica! A mulher pousou as coisas no solo e com os olhos vermelhos de raiva e com gestos de fera ferida pronunciava frases terríveis contra nós, mesmo sem as entendermos! Então, um dos alferes da Companhia, não me recordo qual deles, agarrou-lhe no braço direito e disse-lhe, num tom de voz seco, que não admitia réplica, acompanhando as palavras com olhares convincentes: «Vai-te embora! Ninguém aqui te quer fazer mal. E parte enquanto é tempo. Quando nós estivermos longe, tu voltas para reconstruir a tua palhota.»

- E ela… – foi-se embora?!

- A velha, mistura de leão e tigre, assanhada, sem ter percebido uma única palavra do que ouvira, liberta-se do roubador de liberdades e vidas, do incendiador cruel, e tenta vingar a afronta, atirando-se com desespero ao oficial. Este, colhido de surpresa, não esperando o forte impacto, cai. Um furriel, vendo que a situação teria de ter um fim rápido e eficaz, um desfecho digno de um exército dominador, agarra a irreverente mulher e atira-a com ímpeto a metros de distância. Sem sequer lhe dar tempo de se erguer, sobre aquele corpo indefeso e antigo, numa fúria jamais vista, olhos fora das órbitas, qual exterminador bíblico, deus sanguinário destruindo Sodoma e Gomorra, imaginando-se numa guerra entre dois mundos, descarrega todo o arsenal da sua G-3. Quase duas dezenas de balas puseram fim a um espírito livre e selvagem.

- Inqualificável! Matar uma mulher indefesa! Isso não se faz! Nada o justifica! – diz Henrique, com alguma tristeza.

- Para mim, aquela valente não morreu em vão. Pode ter sido loucura ou ingenuidade, um acto irreflectido; pode ter sido também acto assumido, um sacrifício ao deus da honra e da liberdade. Sinceramente não sei.

- Você ficou chocado. E que fizeram ao corpo – enterraram-no? – pergunta o jovem, na esperança vã de obter uma resposta positiva.

- Não! Quem iria perder tempo com isso? Seria devorado por animais, por aves de rapina, por abutres. Esta cena, que para os meus companheiros não teve um significado especial, fazendo parte da rotina da guerra, comoveu-me até às lágrimas, feriu a minha sensibilidade e marcou profundamente o meu carácter; a partir daí, posso afirmá-lo, houve de facto uma alteração no rumo da minha vida. Aquela imagem esquelética, aqueles olhos de trovão, os seus gestos de guerreira, gravaram-se para sempre no meu cérebro, no meu espírito, no subsolo da minha alma. Às vezes vale a pena morrer!

- Depois desse acontecimento pavoroso, retiraram?

- Sim. Já não estávamos ali a fazer nada. O capitão mandou retirar imediatamente. A morte da heroína, o calor intenso, a falta de água, estavam a produzir em mim o seu efeito nefasto e demolidor. Comecei a sentir algo estranho, a ter visões. Uma nuvem pairava sobre a minha cabeça e libertava uma chuva miudinha que os meus ressequidos lábios saboreavam com prazer. Que rica água: fresca e pura como a das nascentes; saborosa como uma limonada em pleno verão. Porém, uma cotovelada viril veio interromper esta visão irreal e maravilhosa. O meu camarada de especialidade, o Beja, diz-me: «Eh, pá! Estás branco como a cal. Que se passa? Aguenta, que agora já estamos de volta.»

     Aos vinte e um, vinte e dois anos de idade, os milagres de resistência acontecem. Soube, a partir desse inesquecível dia, que o ser humano é mais rijo do que aparenta. Se me tivessem contado todas estas peripécias, sem eu as ter amargamente vivido, dificilmente nelas acreditaria: dias sem ingerir qualquer alimento, sem descansar, sem beber, calcorreando matas e pantanais, trilhos e mais trilhos tenebrosos, sob um sol escaldante, enfrentando perigos visíveis e ocultos, eram razão mais do que suficiente para derrubar ciclopes homéricos ou Aquiles de frágil calcanhar. E nós, rapazes portugueses deficientemente treinados e pessimamente alimentados ali estávamos, como olímpicos imortais!

- Parece tudo um sonho; estou abismado com tanta resistência – confessa Henrique.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha




CASA DA GAIA
     Sita em São Paio. No século XVIII pertencia ao padre Dr. João Luís da Cunha e Araújo. Depois da sua morte passou para o filho – António Luís da Cunha e Araújo – que o presbítero gerara em Maria dos Passos Mosqueira, solteira, da Vila de Melgaço. Este António Luís casou com Maria Rosa (já viúva em 1850), filha do Dr. Manuel Rodrigues Couto e de Ana Alves, de Sante, Paderne. Segundo afirma o Dr. Augusto César Esteves (“O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, vol. II, p. 130) eles eram «abastados proprietários e grandes argentários.» // A 26/3/1840, na igreja do mosteiro de Paderne, Teresa de Jesus (irmã de João José de Araújo), da «Casa e Quinta da Gaia», foi madrinha de Maria José Rodrigues, nascida em Crastos dois dias antes. // Lê-se em «O Meu Livro das Gerações Melgacenses», volume II, páginas 144 e 145: «Manuel Inácio da Costa Gomes Pinheiro (irmão inteiro de Marcelina Rosa da Costa Gomes Pinheiro) casou a 29 de Janeiro de 1821 com Maria Angélica de Araújo Cunha, filha de António Luís de Araújo Cunha e de Maria Rosa Rodrigues do Couto, da Casa da Gaia, em São Paio. Moraram no Barral e aí faleceu ab intestato o Manuel Inácio aos 21/3/1854.» // Nessa Casa morreu, em 1865, o padre Ambrósio José de Araújo Cunha, neto do padre Dr. João Luís. E ali, a 20/7/1883, acabou seus dias um irmão do padre Ambrósio – tinha 68 anos de idade. // Devido ao facto da família se ter dispersado, a dita Casa deixou de ter o interesse e o fausto de outrora. 
 

                 
                  CASA DE GONDOMAR
 
     Sita em Remoães. Na primeira metade do século XIX pertenceu ao fidalgo Bernardo Pereira de Castro. / Escreveu o “Mário de Prado”: «Em 18/8/1874, morreu em Remoães, D. Albina de Jesus de Sousa e Castro, filha de Bernardo António de Sousa e Castro e de sua mulher, D. Florinda Rosa da Rocha e Sá, da Casa de Gondomar.» (“Padre Júlio Vaz Apresenta Mário”, p. 149). O tenente-coronel Artur Augusto da Silva, que morreu a 18/11/1909, era viúvo de Damiana Sousa e Castro, desta Casa.   







 

quarta-feira, 25 de abril de 2018


 

 











EU E O 25 DE ABRIL

 

     Já algumas vezes me perguntaram: - onde estavas no 25 de Abril de 1974? A resposta é sempre a mesma: - estava em Lisboa, no bairro da Mouraria. Era ainda um jovem, trabalhava de dia e estudava à noite, como tantos outros. Naquele tempo a maioria dos jovens não tinha acesso fácil ao ensino, pois as famílias eram muito pobres e não tendo capacidade financeira os filhos tinham de começar a trabalhar ainda na adolescência. Os que estudavam somente, não precisando de trabalhar, eram filhos de gente remediada ou rica, uma minoria. Salazar e Marcelo Caetano nada fizeram no sentido de melhorar as condições de vida dos portugueses pobres. No sector rural, nas pescas, nas fábricas, o trabalhador ganhava miseravelmente; a maioria dessa gente era analfabeta, tendo frequentado apenas dois ou três anos do ensino dito primário, o que não chegava sequer para ler uma carta, quanto mais escrevê-la!

     Pois é: por volta das três da manhã o senhor António, que vinha do Parque Mayer, onde trabalhava como carpinteiro no teatro, acordou-me e disse: - está a decorrer uma revolução. Eu estremunhado, perguntei-lhe: - mas o que se passa concretamente? Diz-me: - os militares estão na rua, consta que querem derrubar o governo. Levanto-me, vou à janela, e vejo passar uma data de GNRs, com as armas prontas para o que desse e viesse. Afinal as coisas estavam feias. Se os militares vencessem, as coisas no país iriam ser diferentes, pensava eu. Acabaria a guerra colonial, haveria liberdade de expressão, provavelmente os salários e ordenados melhorariam, a democracia seria possível. Mas também - pensava eu -, se fosse o general Spínola a comandar esses militares, tudo ficaria praticamente na mesma, pois esse homem tinha pretensões a ditador. A ideologia dele, fascista e nazi, não nos deixava quaisquer dúvidas. Logo se veria. Deitei-me novamente, mas não adormeci. O que se estava a passar era demasiadamente importante para o sono se apoderar de mim. Por volta das sete horas levanto-me, fui tomar o banho diário, e saio para a rua, pois o meu contrato com o senhorio não incluía refeições: era somente o quarto e roupa lavada. Dirijo-me a uma pastelaria e estava fechada. Assim aconteceu com outras – tudo encerrado. Viam-se tropas por todo o lado. Ouviam-se vivas aos soldados, aos capitães, distribuíam-se cravos vermelhos. O meu estômago pedia comida, mas teria de esperar. Fui até ao Chiado. A rua onde a Pide tinha a sede estava apinhada de gente, gritando impropérios contra os malvados agentes. Houve tiros e morreram pessoas – os pides não estavam habituados a esse tratamento, toda a população os temia. Surgem de repente os fuzileiros e invadem o edifício dessa terrível organização. Alguns agentes escaparam-se, através de portas secretas, mas os populares perseguem-nos. Eu, esfomeado, vou correndo as ruas à procura de um Café ou restaurante, mas nada – ninguém queria arriscar. Nessa altura eu trabalhava na Rua do Alecrim, perto da estátua de Eça de Queirós, no escritório da SNAPA, uma empresa de pesca de arrasto. As colegas tinham bolachas e deram-me algumas para eu matar a fome. Nesse dia ninguém trabalhou. Já pensava no almoço, iria ser difícil encontrar na cidade algum restaurante aberto. O chefe do escritório disse-nos que podíamos sair, pois não havia ambiente para trabalhar. Fui até ao Largo do Carmo, aproveitaria para tratar de uns assuntos na Escola Comercial Veiga Beirão, onde eu estudava à noite, mas ali havia tanta multidão, civis e militares, que não me foi possível avançar. Estava lá o capitão Salgueiro Maia, tentando convencer Marcelo Caetano a entregar-se, mas as coisas ali não estavam a correr muito bem. Saio desse sítio e vou até ao Bairro Alto, onde finalmente descubro uma tasca manhosa; comi uma simples refeição, que na altura me pareceu a melhor do mundo. As pessoas do bairro pareciam alegres, mas também preocupadas. O que iria sair dessa manifestação de força por parte dos militares de baixa e média patente? Eram homens que já estavam fartos da guerra; desde 1961 que combatiam em África sem quaisquer resultados positivos à vista. As promoções eram lentas, os perigos na selva africana aumentavam exponencialmente, havia, todos os dias, mortos e feridos. Os guerrilheiros de Angola, Moçambique e Guiné estavam a ser apoiados por grandes potências mundiais, as armas iam-lhes sendo entregues à medida das suas necessidades, a tropa portuguesa já não podia resistir mais. Os cofres do Estado estavam cada vez mais vazios, os jovens começavam a fugir para o estrangeiro, evitando dessa maneira o serviço militar obrigatório.  
 



      Nos dias seguintes as coisas começaram a melhorar; os estabelecimentos comerciais abriram as portas, a televisão e os jornais iam-nos dizendo o que se passava, falavam-nos de um novo regime, de socialismo democrático, de bem-estar, de esperança, de muita liberdade. Enfim, o 25 de Abril trouxe-nos de facto algumas coisas boas, mas muitas promessas ficaram por cumprir. Em lugar do socialismo temos o capitalismo à americana, os salários e ordenados voltaram a cair. Os impostos são mais do que muitos, compraram-se apartamentos mas paga-se às Câmaras Municipais uma renda anual, chamada Imposto Municipal (IMI), como se o apartamento não fosse nosso, mas sim das Câmaras! Apesar de tudo, viva o 25 de Abril.