domingo, 22 de abril de 2018

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha






Nasci envolto em bruma,

Pertinho da estratosfera;

Em volta terra nenhuma,

Sou filho da vil quimera.


*
 
                       Ando no mundo perdido,

Sem saber de onde vim;

Anda meu nome esquecido,

Ninguém se lembra de mim.
 
                                             *

Há quem diga que sou burro,

Sem cabeça pra pensar;

Eu sou como o sussurro,

Não preciso de gritar.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

LEMBRANÇAS AMARGAS
 
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha






XXII

Enquanto a chuva cai, o carrasco aguarda, impaciente, o condenado.

      Como repararam, o tal Guilherme era um vadiote e assim eu vi-me forçado a escolher outra atividade. Neste momento vamos os dois, eu e a minha mãe, a caminho da oficina do senhor Hilário, pedir-lhe que me aceite como aprendiz.

- Hilário, o meu Cândido pode ficar aqui a trabalhar contigo, ensinas-lhe a arte?

- E tenda?

- Isso acabou; quem sabe daquilo é o tio Acúrsio, já não vivo com ele, como sabes. Eu nunca entendi nada de negócios, cada qual nasce para o que nasce, eu não nasci para tendeira. 

- Então ele pode ficar a trabalhar comigo, mas não lhe posso pagar nada, quando souber alguma coisa da arte logo se vê.

- Só te peço é que o deixes ir engraxar aos dias de feira para ganhar algum dinheiro.

- Está bem, até pode levar daqui essa caixa, enquanto não manda fazer uma, é raro servir-me dela, e na primeira semana dou-lhe a pomada e a tinta e empresto-lhe as escovas; até lá, vai treinando.

- Obrigada; que Deus te pague. E tu já sabes: ficas aqui com o senhor Hilário, obedeces às suas ordens, e não lhe faltes ao respeito; fazes tudo o que ele mandar. 

- Está bem, mamã; até logo.

*

- Chega aqui, rapaz; senta-te ali naquele banquinho. Tens de estar na oficina às oito da manhã, largamos ao meio-dia e depois voltamos a pegar ao trabalho às duas da tarde até às oito da noite. Se te portares bem não perderás nada comigo. Agora vais endireitar essas tachas, cuidado com os dedos, agarras aí no seixo e no martelo e com jeitinho vais endireitando, olha como eu faço, vês, não custa nada.

- Já dei cabo dum dedo!

- Ah! Ah! É assim que se começa, agora vais ter mais cuidado.
 
                                       *

- Tens catorze anos de idade, estás a trabalhar comigo há dois anos, não te dei nada até agora, a não ser esses sapatos que já não me serviam, malditos calos, estão-te grandes, mas que se pode fazer, tens os pés pequenos, sais à tua mãe. Bem, acho que chegou a hora de te dar qualquer coisa, tu merece-lo, vou começar a pagar-te 2$50 por dia, não é muito, mas é melhor do que nada, eu estive quase três anos como aprendiz sem receber um centavo, é certo que me davam de comer e me deixavam dormir no palheiro, mas isso era porque estava longe de casa.

- Obrigado, senhor Hilário, já ajuda, sabe que a minha mãe, coitada, anda sempre na aldeia, lá vai trazendo o que lhe dão.

- A tua mãe se tivesse juízo ganhava bem, é uma boa cozinheira, a melhor do concelho, faz um arroz de lampreia e um cabrito no forno que é de se lhe tirar o chapéu, é comer e chorar por mais, um cozido à portuguesa como nunca comi igual, mas a pinga dá cabo dela, o maldito vício, eu também lhe bebo, mas só nos fins-de-semana, sobretudo ao domingo de tarde, ai não, nos outros dias tenho de governar a barca, que ninguém dá nada sem trabalhar, mas a tua mãe é parecida com a minha, umas desgraçadas, um homem faz muita falta numa casa, não casaram e acabaram assim, que o vinho não tem espinhas, escorrega pela goela baixo que é uma maravilha, um mimo, tem de se lhe pôr travão, mas elas não são capazes.

- Sabe que às vezes nem ceio, tenho de ir esperá-la, nem sequer sei por onde vem, quando a encontro vem a cair, ralho-lhe, mas ela nem me ouve, se eu tivesse pai seria diferente, mas não tenho.

- Eu também não tive, a minha mãe dizia que eu sou filho de um tal doutor António, nessa altura era criada dele, aproveitou-se, o vilão; eu nunca o vi, nem sei se era gordo ou magro, mas olha, vamos ganhando para a bucha, não preciso do filho da mãe para nada, se agora aparecesse nem lhe falava, bandido.

- Por que é que os homens fazem os filhos nas mulheres e depois não casam com elas?

- Por vaidade, bazófia, para dizerem aos outros que são machos, eu também fiz uma filha à Cremilda e não casei com ela, mas olha que a culpa não foi minha, foram os pais dela que se opuseram, disseram que eu era muito pobre, e insultaram a minha mãe, muita tareia dos pais a rapariga levou por minha causa, uma vez iam-na matando, eu afastei-me para não haver mais chatices, ainda hoje gosto dela, e a filha é minha, olha que é muito bonita.

- E parece-se com a sua mãe, é a cara dela.

- Aí tens razão, é a cara chapada da minha velhota. O que me custa mais, até tenho remorsos, é saber que ela ficou aleijada por causa do parto, não correu nada bem, a criança estava numa posição esquisita, a parteira viu-se grega para a tirar cá para fora.

*

- Senhor Hilário, há três anos que trabalho consigo, tenho quinze anos, acho que já é altura de ganhar mais do que 2$50 por dia, o senhor Cerdeira encontrou-me e disse-me que se eu quisesse ser empregado dele que me dava 5$00, eu respondi que primeiro teria de falar com o meu patrão.

- Eu não te posso dar esse dinheiro, se ele to dá é lá com ele, é rico, dar a um aprendiz 5$00, onde já se viu, tu se quiseres ir vai, és livre, não mando em ti, ensinei-te o melhor que pude e soube, tu até tens jeito para a profissão, mas essa quantia não te dou. Quando começas a trabalhar com ele?

- Se o senhor Hilário não se importasse começava já no princípio da semana que vem. E desculpe.

- Primeiro acaba esse serviço que tens aí; põe os saltos nesses sapatos de senhora. Vai-me custar, já estava habituado contigo e ainda somos parentes afastados.

- Depressa arranja outro, não falta quem queira aprender a arte.

- Não é bem assim, agora os pais vão para França e já todos pensam que são lordes, mas vem para cá o Crispim, a mãe já outro dia me falou, morreu-lhe o pai há pouco tempo, a mãe está a servir na casa do senhor Octávio; coitada, ficou viúva muito nova, o que vale é que só tem aquele filho, mas ele parece que não gosta muito de vergar a mola, só porque o padrinho é comerciante…

- Ouvi dizer que é doente, por isso é que não aprendeu uma profissão até agora.

- Para trabalhar são todos doentes, mas para gozar a vida e encher a pança estão saudáveis, olha que ele não tem cara de doente.  

- Esperemos que se adapte; é importante na vida ter-se uma profissão, mesmo que não dê para enriquecer.

domingo, 15 de abril de 2018

ANEDOTAS
 
Por Joaquim A. Rocha


 

     Na década de quarenta do século XX a senhora “Macheta” tinha uma humilde pensão em uma determinada freguesia do Alto Minho. Foi por essa altura que alguns técnicos que andavam a construir a estrada Melgaço-Castro Laboreiro foram lá parar. Logo na primeira refeição serviu-lhes um prato de bacalhau com batatas cozidas e perguntou-lhes: «querem alho simples ou borrifado?» Eles, pensando que era algo fora do comum, respondem: «Borrifado, minha senhora, borrifado.» Então ela foi à cozinha buscar o alho e meteu algumas cabeças na boca (as que lá couberam) e começou a trincá-las; quando achou que já estavam em condições, dirigiu-se aos pratos e toca de borrifar o bacalhau e as batatas. Os hóspedes ficaram banzados e fugiram dali a sete pés, em busca doutro restaurante!  



      Um certo político, cujo nome é muito difícil de pronunciar, presidente de um país das Américas, na noite anterior à do lançamento dos mísseis, estendido na sua longa cama, com os olhos semicerrados, diz à jovem esposa:
 - Sabes, amanhã, pela madrugada, vou mandar uns quantos mísseis à Síria.
     Ela, amuada, diz-lhe:
- Pois é: às outras mandas prendas; a mim não me ofereces nada!

quinta-feira, 12 de abril de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha






CELEIRO MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

     A entrada de Portugal na guerra de 1914-1918 provocou no país uma grande agitação. Em outubro de 1910 tínhamos saído do regime monárquico, com o erário nas lonas, com um analfabetismo gigantesco, uma agricultura pobre e uma indústria quase inexistente. Apesar disso tudo, o governo português insistiu com a aliada Inglaterra para entrar no conflito armado. Um dos grandes argumentos colocados em cima da mesa consistia no facto de se correr o risco de perdermos as colónias, que - ao tempo - nada representavam para a economia nacional. Os jovens melgacenses foram atingidos gravemente por essa desastrosa decisão. Uns fugiram, outros foram apanhados como coelhos pelas forças armadas. Impreparados, lá foram lutar e morrer nos campos franceses. Alguns deles deixaram viúva e filhos menores. Devido a esse facto, começou a notar-se a falta de braços fortes para trabalhar a terra. O milho, que era a base da alimentação dos minhotos, começou a escassear. O pouco que havia era vendido para alimentar as tropas em combate. Assim, o governo local teve a ideia de criar um celeiro municipal. Em Fevereiro de 1918 estava em vias de formação. Em virtude do país ter entrado em guerra no ano anterior, ao lado dos ingleses e franceses, o milho estava a ser contrabandeado e era necessário que a Câmara Municipal interviesse, comprando-o por grosso a fim de depois o vender a um preço justo a quem dele necessitasse (ver Jornal de Melgaço n.º 1194, de 9/2/1918). // Ainda nesse dito mês de Fevereiro de 1918 os jornais melgacenses anunciam que vai entrar no celeiro a primeira remessa de milho; foi nomeado pela Comissão Administrativa o vogal Fernandes para vender e fiscalizar o dito cereal (JM 1195, de 16/2/1918). O dito celeiro afinal estava instalado em um salão do hospital da Santa Casa da Misericórdia (JM 1196, de 23/2/1918). // Em Março de 1918 já tinha duzentos alqueires de trinta litros (JM 1199, de 16/3/1918). // No Jornal de Melgaço n.º 1216, de 27/7/1918, lê-se: «consta-nos que no celeiro municipal já não há milho. Não sabemos nada deste assunto, porque a Câmara actual propositadamente tem escondido o estado do celeiro do município.» // Enfim, as guerras trazem riqueza para meia dúzia de capitalistas, e a fome e pobreza para a maioria das populações.       



domingo, 8 de abril de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

                                                              Por Joaquim A. Rocha






                                                                        ROUBOS

     Roubos e ladrões sempre existiram; porém há períodos da História, períodos de crise, em que aumentam exponencialmente. Por exemplo: quando há guerra neste ou naquele país; os bens essenciais escasseiam e certos indivíduos recorrem ao roubo. Dizem que é uma questão de sobrevivência. Quanto a mim, nada justifica esse procedimento. Eliminem-se as guerras, os conflitos armados, promova-se a paz e o bem-estar das populações, a educação e a cultura, e desse modo terminarão os malditos assaltos a casas, estabelecimentos, etc.  

PIRES, Francisco (José). Filho de Caetano José Martins e de Maria Teresa Pires (*), moradores no lugar de Sá. Neto paterno de Francisco José Martins e de Rosa Maria Rodrigues, do dito lugar; neto materno de Manuel José Pires e de Francisca Rosa do Outeiro, da Corga. Nasceu na freguesia de Paços a 15/8/1845 e foi batizado a 17 desse mês e ano. Padrinhos: Manuel Francisco Esteves e sua mulher, Ana Rosa Domingues, do lugar de Merelhe. // Casou na igreja de SMP a 23/11/1883 com Laureana do Carmo Fernandes, de 31 anos de idade, natural da Vila de Melgaço, filha de José Joaquim Fernandes e de Maria Josefa Fernandes. Testemunhas presentes: Manuel José Fernandes, lavrador, e Caetano Celestino de Sousa, sacristão, ambos casados, da dita Vila. // Comerciante; teve estabelecimento na Rua do Rio do Porto, num prédio contíguo ao “Café Melgacense”. Vendia mercearia, ferragens, artigos para tamanqueiros e sapateiros (ver Correio de Melgaço – 1912). // Exerceu algumas vezes o cargo de vereador da Câmara Municipal de Melgaço. // Em 1907 chegou a ser vice-presidente da dita Câmara Municipal; deixou o lugar em Dezembro desse ano, a favor de João Pires Teixeira. // No 2.º semestre de 1907 foi jurado pela freguesia da Vila. // Em 1909, sessão de 7 de Janeiro, foi de novo eleito vice-presidente da Câmara. // Era um progressista convicto; os regeneradores alcunharam-no de “El Cura de la Grova”. Os do Jornal de Melgaço atacavam-no duramente, tipo bota-abaixo! A Câmara Municipal de Melgaço tinha sete vereadores, mas segundo o dito jornal quem mandava era o Pires! // A 25/1/1913 os ladrões entraram na sua loja, por arrombamento, retirando do cofre 12$000 réis, além de uma corrente de ouro, medalha e relógio (Correio de Melgaço n.º 34, de 26/1/1913). // Ambos os cônjuges morreram na Vila, onde moravam: a sua esposa faleceu a 22/4/1890, com apenas 36 anos de idade; ele finou-se a 29/6/1927. // Com geração.
 
 
 // Nota: assinou sempre Francisco Pires, omitindo o apelido Martins! /// (*) Maria Teresa Pires devia ser solteira, pois depois foi casada com Francisco Trancoso (a confirmar). É avô de Beatriz Augusta Lima, que foi casada com Vasco da Gama Almeida, conhecido por Vasco da Central. 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
 
Macróbios


     Há quem diga que a vida são apenas dois dias: aquele em que se nasce e o outro em que se morre. Se aceitarmos tal afirmação, estamos a iludir a realidade, pois para alguns seres humanos a vida é relativamente longa, chegando aos cem, ou mais anos de idade. São privilégios que a natureza concede àqueles que não a estragaram com extravagâncias e prazeres discutíveis. A vida é sempre aquilo que nós dela fizermos, apesar dos contratempos que vão surgindo no caminho a percorrer. Há pessoas que estão sempre mal humoradas, tudo as arrelia, as desconforta. Se possível, deve-se evitar esse comportamento, para assim vivermos mais anos e com alguma alegria. Já os nossos antepassados diziam: «rir faz bem, assim como os bons pensamentos.» Expulsemos do nosso espírito o pessimismo, o ódio, a raiva, etc. A felicidade existe, mas não cai do céu.    

*


RODRIGUES, Arlindo. Filho de Firmino Rodrigues, lavrador, natural de Penso, e de Luísa Vitória do Val, proprietária, natural da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, moradores no lugar de Casal Maninho. Neto paterno de José Joaquim Rodrigues e de Rosa da Rocha; neto materno de António Manuel do Val e de Maria Gomes. Nasceu em Penso a 1/12/1908 e foi batizado na igreja a 6 desse mês e ano. Padrinhos: António Rodrigues, solteiro, e Constança Rodrigues, casada, ambos do lugar de Pomar. // Casou na CRCM a 9/4/1937 com Albertina de Jesus Rodrigues. // Enviuvou a 27/12/1998. // Morreu a 23/8/2004, com 95 anos de idade, e foi sepultado no cemitério de Penso, ao lado de sua esposa, (1917-1998). // Com geração.


SALGADO, Maria da Conceição. Filha de Firmino Alves Salgado, natural de Rouças, e de Rosa Esteves Cordeiro, natural de Penso, proprietários nesta última freguesia. Neta paterna de António Justiniano Alves Salgado e de Teresa de Jesus Domingues; neta materna de Manuel Esteves Cordeiro e de Maria Ferreira Passos. Nasceu em Penso a 10/2/1909 e foi batizada na igreja a 8 de Março desse ano. Padrinhos: António Salgado e Maria Salgado, tios paternos da neófita. // Casou a 28/6/1934 com o Dr. Francisco de Almeida Peneda Junior, filho de Francisco de Almeida Peneda e de Florência de Jesus Peneda, proprietários em Lamego. Depois das cerimónias religiosas foi servido em casa dos pais da noiva «um finíssimo lanche», acompanhado de música e dança, a fim de animar a festa. Os noivos seguiram para a sua viagem de núpcias por terras do norte de Portugal, partindo depois para Lourenço Marques, Moçambique, onde o noivo ia exercer a clínica (Notícias de Melgaço n.º 238, de 8/7/1934). Parece que não se deram bem com os ares de África, pois em 1935 o Dr. Francisco A. Peneda foi colocado nos Arcos de Valdevez. // O seu marido morreu na freguesia de Salvador, Arcos de Valdevez, a 15/9/1966. // Ela faleceu na freguesia de Pousos, Leiria, a 23/7/2003, com 94 anos de idade.

     NOTA: segundo me informou a Sr.ª D. Maria João Lopes, neta do casal D. Maria da Conceição Salgado e do Dr. Francisco de Almeida Peneda Junior, os seus avós não chegaram a embarcar para Moçambique. // Agradeço a informação. JAR     
   

domingo, 1 de abril de 2018

GENTES DE MELGAÇO
(micro biografias)
 
Por Joaquim A. Rocha





desenho de Luís Filipe G. P. Rodrigues (melgacense)


FERNANDES, Francisco (Padre). Filho de José Fernandes e de Isabel Maria Fernandes, ela do lugar de Cainheiras e ele do lugar de Mareco, onde moravam. Neto paterno de Manuel Fernandes e de Ana Rosa Esteves; neto materno de Sebastião Fernandes e de Anastácia Afonso. Nasceu na freguesia de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço, a 28/3/1885 (*) e foi batizado a 29 desse mês e ano. Padrinhos: Francisco Alves e sua mulher, Isabel Gonçalves, do lugar de Dorna (assistiu ao acto, com procuração do padrinho, o padre-cura José António Afonso). // A 18/7/1905, sendo estudante do 2.º ano do Curso Teológico, no seminário de Braga, serviu de testemunha na boda de Bernardo António Pereira de Castro e de Ludovina Rosa Domingues, realizada na casa do noivo, em Eiró, Rouças. // A 5/9/1907, na igreja de Lamas de Mouro, ainda era estudante minorista, foi padrinho de Laura de Jesus Domingues (1907-1997). // Ainda em 1907 concluiu, em Braga, o 3.º ano do dito Curso (Jornal de Melgaço n.º 689). Tomou ordens de subdiácono nesse ano (JM 702). Foram-lhe concedidas ordens sacras de presbítero em 1908 (JM 753). Cantou missa nova na igreja da sua terra natal a 4/10/1908. Assistiram à missa, além de outros, o político João Pires Teixeira, da Vila de Melgaço, os párocos de Fiães, Lamas de Mouro, Rouças, Prado, Cubalhão, o Dr. Manuel Gonçalves, o comendador Matias de Sousa Lobato, os padres João Nepumoceno Vaz, Manuel José Rodrigues, Manuel José Esteves, José António Alves e José António Afonso.

desenho de Luís Filipe G. P. Rodrigues (melgacense)

     A 21/7/1912 foi preso; morava em Cavaleiros, Rouças. Informa-nos o Correio de Melgaço n.º 13, de 1 de Setembro desse ano: «Em harmonia com o disposto no § 1.º do art.º 337 do Código do Processo Criminal foi mandado constituir o tribunal marcial de Braga, a fim de no mesmo serem julgados os presos políticos, nossos conterrâneos, reverendos Francisco Fernandes, Manuel Joaquim Domingues, ausente em parte incerta, e o seminarista João Evangelista Rodrigues…» // Parece que tinham colaborado na intentona monárquica de Paiva Couceiro. Há quem afirme que cantaram: «E viva Paiva Couceiro/viva, viva, outra vez;/ele é que nos demonstra/ser um grande português.» // Mas a sua luta, para derrubar o regime republicano, continuou. // Juntamente com o seminarista João Evangelista Rodrigues, também natural de Castro Laboreiro, foi julgado no tribunal marcial de Braga, tendo sido ambos condenados no tempo em que permaneceram detidos; eram acusados de conspiração contra a República. Chegaram à Vila de Melgaço no dia 24/9/1912, comemorando o evento com os amigos no “Café Melgacense” (Correio de Melgaço n.º 17, de 29/9/1912). // O seu nome surgia de vez em quando nos jornais. Lê-se no Correio de Melgaço n.º 119, de 6/10/1914: «Quando é que o Sr. administrador [Dr.] António Francisco Sousa Araújo, oficia ao delegado do Procurador da República nesta comarca, acusando-se do crime de prevaricação, previsto e punível pelo art.º 287 do Código Penal, visto que, dolosamente, e a pedido do padre Francisco Fernandes, faltou às obrigações de seu cargo, mandando sustar o andamento de um processo de liquidação de legados pios, dando ao mesmo tempo ordem ao secretário (Maker), que agora enviou para juízo (acusado de peculato), para que dali em diante se não instaurassem processos daqueles, pois era mais conveniente avisar particularmente os devedores??? Quando?» // Lê-se no Correio de Melgaço n.º 166, de 19/9/1915: «Pela autoridade administrativa foram detidos dois indivíduos que deram os nomes de Manuel Esteves e José Maria Pereira, o primeiro de Viana e o segundo de Roças, Vieira; supõe-se que sejam conspiradores saídos das cadeias de Guimarães, ou pássaros bisnaus de olho vivo, avaliando pelas declarações contraditórias que prestaram ao administrador do concelho. Este, depois de inquirir também os reverendos Francisco Fernandes, de  Cavaleiros (residente),  e João Evangelista Rodrigues, de Castro Laboreiro, que abonaram os presos numa hospedaria qualquer, requisitou dois agentes da Polícia Judiciária, a fim de procederem a averiguações e custodiarem os detidos até Viana, onde já se encontram de “perfeita saúde” e … sem liberdade

desenho de Luís Filipe G. P. Rodrigues (melgacense)

    No Correio de Melgaço n.º 192, de 26/3/1916, lemos: «No tribunal desta comarca respondeu em audiência de polícia correccional, a 20/3/1916, o reverendo Francisco Fernandes, de Cavaleiros (residente), por ter promovido a tal reunião (política) do Peso, de que já nos ocupámos. Não terminou, porém, em virtude da falta de tempo, sendo marcado o dia 27 para a continuação.» // Concluiu-se na segunda-feira, 27/3/1916, a audiência referida. O réu foi condenado em 30 dias de multa a $50/dia, e custas e selos do processo. O advogado de defesa, Dr. António Francisco de Sousa Araújo, (morador no lugar) do Granjão, Paderne, apelou da sentença para a Relação do Porto (Correio de Melgaço n.º 193, de 2/4/1916). // No Jornal de Melgaço n.º 1175, de 15/9/1917, lemos: «O (…) padre Francisco Fernandes, de Cavaleiros (residente), foi encarregado de pastorear a freguesia de Couto de Gondufe, Ponte de Lima; sentimos a sua ausência, pois era capelão da Misericórdia de Melgaço, cargo que sempre desempenhou com toda a correcção.» // Em Abril de 1919 era anunciada no jornal do concelho a sua visita à família e à terra natal. Morou no lugar de Cavaleiros, freguesia de Rouças, na Quinta que o seu irmão Manuel José ali comprara. Segundo consta, foi pai de três filhos: uma rapariga e um rapaz, gerados numa mulher, e de mais um rapaz, gerado noutra. Também consta que um certo dia foi apanhado por dois homens, numas mimosas, com uma rapariga de 17 anos de idade, órfã de pai, e com a mãe doente. Eles julgavam que era o “padre-nunca” (João Evangelista Rodrigues) e comentaram jocosamente: «Com que então, malandro!» Virou-se para eles, furioso, e disse-lhes: «Se tivesse aqui uma pistola matava-vos!» // No Jornal de Melgaço n.º 1298, de 25/7/1920, informava-se de que ele regressara de Braga. Deve lá ter ido falar com o arcebispo! // Em 1933 era pároco da freguesia de Castro Laboreiro (NM 206, de 27/8/1933). Nesse ano esteve em exercícios espirituais em Braga; com ele estiveram também o padre de Paderne, António Domingues “Amigo”, e o padre de Fiães, Manuel José Rodrigues (NM 209, de 24/9/1933). // Morreu na vila de Castro Laboreiro a 20/2/1940. /// (*) No seu registo de óbito está escrito que ele morreu com 65 anos de idade; se estivesse correto, ele teria nascido em 1875.