quinta-feira, 29 de março de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de Os Lusíadas, de Camões)
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 

 
(continuação)...
 
PRÓLOGO
 
27

 Invocarei as cem forças do bem,

Para me ajudarem nesta tarefa;

Pois sozinho, serei um zé-ninguém,

No meio da multidão, da catrefa…

Duvido se chamarei mais alguém

Pra servir de cadilho, de sanefa.

Ai, se eu tivesse o apoio do Olimpo,

Pra este poema eu tornar limpo!

28
 
Pedirei ajuda aos bons poetas,

Escritores daquém e além mar;

A todos os deuses, aos mil profetas,

À natureza, astros, ao luar...

Tirarei manuscritos das gavetas,

Lançá-los-ei aos ventos, ao puro ar!  

Porém, peço-vos, ninguém me apresse,

Antes que Hermes ouça minha prece.

 
 
 
29

Eu só quero ter arte, o talento,

Pra vos dar uma obra acabada;

Passarei mil noites de sofrimento

Deitar-me-ei quase de madrugada.

Não haverá mais arrependimento,

Tédio, uma grande estopada…

Tudo isto farei com gozo, prazer,

Preferindo o trabalho ao lazer.

30

Resistirei à fome, ao cansaço,

Pedirei a Hércules sua força,

- (Que se torne ele madraço) - …

 Um cérebro veloz como a corça,

Um tronco mais forte do que o aço,

Pois o querer na luta se reforça...

E jamais o ser humano se esqueça:

Só deve criticar quem o mereça.

 
 
 
31

Vai causar assombro, admiração,

Esta esfarrapada epopeia;

Nasceu dum sonho, duma ilusão,

De uma estranhíssima ideia…

Pelo feito não vos peço perdão,

Os sonhos não se prendem na cadeia.

    Podem não valer dez réis estes versos,

Mas são puros, altivos, não perversos.

32

Peço-vos, não façam comparações:  

Virgílio escreveu a «Eneida»,

«Os Lusíadas» são obra de Camões;

 «Os Gatos» são de Fialho d’Almeida,

Omitindo mil outras criações

Inspiradas por Tétis a “Nereida”…

Lembro-vos só a «Divina Comédia»,

O Dante a brincar com a tragédia.

segunda-feira, 26 de março de 2018

SONETOS DO SOL E DA LUA
 
Por Joaquim A. Rocha






MORTE NO CAMPO

(152)

 

Numa tarde de ténue nevoeiro,

Caim, roído de ódio e inveja,

Leva ao reino do pardal, da narceja,

O pastor Abel, seu irmão inteiro.
 

Mata-o, como quem mata carneiro,

Sem dó, nem piedade que se veja,

Um suspiro de dor, leve que seja,

Com a crueldade de carniceiro. 
 

A essa hora está Javé dormindo,

Num sono profícuo e profundo,

A sua santa mente divertindo…
 

Quando acorda vê o moribundo.

A seu lado, o assassino rindo,

Achando-se vingado neste mundo.
 
 
 

sexta-feira, 23 de março de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha






Administradores do concelho de Melgaço 

 
- António Francisco de Sousa Araújo (Dr.) Filho de António Sousa Araújo e de Venceslã da Encarnação Pereira, melgacenses. Embora tenha nascido no Alentejo, a 24/2/1889, foi batizado e criado em Paderne de Melgaço. // Advogado. // A 9/1/1913 tornou-se responsável pela redação do “Jornal de Melgaço”. // Tomou posse de administrador do concelho a 14/5/1914. Nesse ano, no “Correio de Melgaço” n.º 120, de 13 de Outubro, cujo diretor e editor era o Dr. António Augusto Durães, perguntava-se: «Quando é que o senhor administrador se acusa perante o Ministério Público da tentativa do crime de concussão, previsto e punível pelo art.º 316 do Código Penal, visto que tentou receber por um acto das suas funções dinheiro que lhe não era lícito receber? Quando
     Os seus adversários, agrupados à volta do Correio de Melgaço, não o largam. Atacam-no impiedosamente: [É um caso curioso, e ao mesmo tempo picaresco, o que hoje vamos narrar, mostrando aos nossos leitores quem é a criatura que um governo de cordialidade pespegou à frente do nosso concelho, para desgraça nossa. Pouco tempo depois da sua posse recebeu uma queixa do padre pensionista, abade desta Vila, Manuel José Domingues, que dizia ter sido insultado pelo carcereiro José Dias. Sua Excelência manda tomar nota das testemunhas apresentadas pelo reverendo Domingues e ordenou se passassem mandados de intimação para elas virem depor à administração. Mas o oficial que recebe os mandados recebe ao mesmo tempo ordem para dizer às testemunhas que não venham, que não é preciso!!! Assim cumpriu, e uma destas, estranhando o facto, foi referi-lo ao reverendo abade, que imediatamente se dirigiu à administração para perguntar ao senhor Araújo se Sua Excelência tomava o caso a sério ou era preciso queixar-se diretamente ao Senhor Delegado? O senhor Araújo ficou muito atrapalhado, chama o secretário, e pergunta-lhe se dera alguma ordem naquele sentido. O secretário responde negativamente e chama então o oficial Amadeu, que desassombradamente confessa ter-lhe sido feita essa recomendação pelo amanuense Rafael. É chamado este então e o senhor Araújo pergunta-lhe o motivo por que tinha dado aquela ordem tão bizarra. O amanuense hesita, perde a linha, balbucia qualquer coisa, e por último só encontra esta resposta para salvar a dginidade do seu superior: «só se percebi mal o que o senhor administrador me disse!» É evidente que a resposta do amanuense só foi para encobrir a falta do seu administrador, pois de outra forma seria punido, com o rigor de que agora se usou com o secretário. E sendo assim, por que é que o senhor António Francisco de Sousa Araújo se não acusa do crime de prevaricação, previsto e punível pelo artigo 286, do Código Penal, que castiga todos os juízes ou autoridades administrativas que se negarem a administrar justiça depois de se lhes ter requerido?]

     Em Fevereiro de 1915 demitiu-se – entregou o lugar ao vice-presidente da Câmara Municipal, quando devia, segundo os do “Correio de Melgaço”, entregá-lo ao presidente. // Foi de novo administrador a 19/5/1917. Deixou o cargo ainda nesse ano, depois de subir ao poder Sidónio Pais (revolução de 5/12/1917). // Voltou em 1919 para substituir o Dr. José Joaquim Abreu, e em 1921, aquando da queda do ministério de Bernardino Machado, ele pediu a demissão. // Em 1922 foi de novo administrador. // Morreu no concelho de Monção a 16/11/1951, com sessenta e dois anos de idade.

domingo, 18 de março de 2018

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha







O BOMBEIRO

 

     É com mágoa, não com raiva, que escrevo este artigo. Nunca quis imiscuir-me em assuntos que por sua natureza são suscetíveis de melindrar pessoas e instituições. E sou daqueles que pensa que apesar de Melgaço ser a nossa terra, logo que a deixamos (não se discutem aqui as razões de tal ato) perdemos em relação a ela alguns direitos, indo eventualmente adquiri-los no lugar para onde se vai habitar. De acordo com esta filosofia, Melgaço é daqueles que lá residem: nós somos apenas melgacenses dispersos pelo mundo, que gostamos imenso desse torrãozinho que nos viu nascer, mas que só de fugida, uma vez por ano, o visitamos, o acarinhamos, como se eternamente nos estivéssemos a despedir. O concelho tem instituições, como todos os concelhos do país; umas são bem geridas, outras nem por isso. Podemos nós exigir perfeições, nós que em nada contribuímos para isso? Não! Isto vem a propósito de uma escultura feita pelo escultor melgacense Acácio Caetano Dias. Levou muito, muito tempo, a elaborá-la, a dar-lhe forma, quase a dar-lhe vida. Trata-se, obviamente, do bombeiro em tamanho natural que esteve exposto nas Festas da Cultura deste ano. Eu presenciei, uma ou outra vez, a sua feitura. Com que atenção, cuidado, ternura, o artista ia, pouco a pouco, trabalhando aquele material informe! Os seus olhos brilhavam de alegria ao contemplá-la! Desde o primeiro dia que a destinou aos Bombeiros Voluntários de Melgaço, sua terra de nascimento. Não lhe passava sequer pela cabeça que essa obra fosse parar a outro lado – nem que dessem rios de dinheiro! Pois bem: terminou-a em fins de Julho, princípios de Agosto, e fez chegar, através de determinada pessoa, essa informação à Associação dos BVM. Entretanto, a Câmara Municipal pediu-lhe para ele expor algumas peças aquando das festas. Para esse efeito teria um pavilhão com as dimensões adequadas. O Acácio não só aceitou, como ficou radiante com tal pedido. Uns dias antes de começarem as referidas festividades, o presidente da Câmara dá ordens para vir uma carrinha a casa do escultor buscar as peças para exposição. Bombeiro e demais esculturas seguiram assim para Melgaço, acompanhadas de seu autor. Primeira decepção: quiseram, a comissão organizativa das festas, à rebelia de qualquer critério estético, dividir o pavilhão com uma mostra equestre! O artista opôs-se, ameaçou retirar as suas obras de arte, e as coisas recompuseram-se. Segunda decepção: a direção dos bombeiros voluntários não se interessou minimamente pela escultura designada «O Bombeiro»! O Acácio tinha decidido entregá-la pelo preço de quinhentos contos (valor aproximado com as despesas em matéria-prima), mas depois, e a pedido de uma pessoa ligada a essa Associação, baixou o preço para quatrocentos e cinquenta contos. Em Lisboa já alguém lhe tinha oferecido mil e duzentos contos por essa obra!

     As festas terminaram e nada ficou resolvido. A esposa do Acácio sugeriu-lhe que a trouxesse de volta, pois parecia-lhe que brincavam com os seus sentimentos e valor artístico. Ele não desejava de forma alguma fazer isso. Tinha investido muito do seu tempo, da sua arte, do seu amor pela terra, para tudo acabar assim abruptamente. E lembrou-se então de que um seu colega escultor, José Rodrigues, tinha feito por encomenda a estátua de Inês Negra, tendo recebido por ela milhares de contos de réis! Colocada na Alameda Inês Negra, foi inaugurada com toda a pompa e circunstância pelas autoridades do concelho. Que diferença de tratamento! Seria por ele ser melgacense? Eu julgo que sim; fosse o Acácio de fora do concelho, fosse ele acarinhado pelas televisões e revistas da especialidade, e ei-lo a colher os frutos dessa fama. Assim, e porque é da terra, tratam-no como se ele fosse a Melgaço vender os seus trabalhos a fim de arranjar dinheiro para se alimentar a si e aos seus! Pobres diabos sois, se dessa maneira pensais. Ele, felizmente, não precisa desse dinheiro. Graças ao seu trabalho e talento, vive desafogadamente.

     Quero contudo felicitar o presidente da Câmara Municipal pela atitude digna que tomou. Quando soube que a direção dos bombeiros não tomava a iniciativa de adquirir a escultura, mesmo tendo a possibilidade de arranjar essa verba através de uma coleta (soubemos que alguns comerciantes disponibilizaram importâncias significativas para esse fim), foi falar com o escultor e disse-lhe que a obra fica em Melgaço, nem que para esse fim a Câmara tivesse de entrar com algum dinheiro.

     O bombeiro ficou e o Acácio regressou a casa desiludido, amargurado, doente. Sofria há muito do coração e toda essa “novela” mexeu com ele. A família levou-o a um especialista e este foi peremptório: tinha de ser operado. Na quarta-feira, 20 de Setembro, no hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, o Acácio submeteu-se a essa melindrosa operação. Para bem de nós todos, tudo correu «às mil maravilhas». O cirurgião sentia-se satisfeito, dizia mesmo que fora um êxito. Agora o nosso amigo vai recuperar, mas claro, dificilmente poderá executar obras de grande tamanho. Dedicar-se-á certamente a criar obras mais pequenas, mas que nem por isso deixarão de ter a marca de qualidade do mestre que ele é.         

     Não acuso ninguém. Não personalizo. Só deixo um aviso aos artistas da nossa terra: não se iludam, nem alimentem falsas expectativas. Em pequenas localidades o que vem de fora é que é bom. Sempre assim foi! «Santos da casa não fazem milagres». Não me refiro a inveja, espero bem que essa terrível doença tenha desaparecido do nosso termo, pois ela era causada sobretudo pela miséria e ignorância, males que agora parecem estar arredados desses sítios.

     O Acácio quis oferecer à sua terra o produto do seu esforço, do seu talento, da sua fidelidade. Algumas pessoas não o compreenderam assim. Pensaram, erradamente, que ele ia aí para receber e não para dar! Enfim, resignemo-nos. Aos bombeiros quero dizer-lhes que isto não é nada com eles, que os admiro, que louvo a sua coragem e dedicação.

 
Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1038, de 15/10/1995.

quarta-feira, 14 de março de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha



                                                  escritores melgacenses
 
 
 
 
 
 
 
 
     Lê-se com gosto e prazer a sua poesia. É óbvio que alguns poemas agradarão mais do que outros. Eu gostei de alguns deles, mas sobretudo agradou-me o seguinte soneto:
 
 

Oh Musa, como dói ser nesta lida!
Sonho hoje, com lágrimas saudosas,
Os teus beijos, palavras amorosas,
O desditoso dia da partida.
 
Aqui fiquei e julgo-te perdida, 
Sozinha, como eu, mas entre rosas...
Bonitas como tu e desejosas
Do teu regresso assaz (*) à minha vida.
 
Pois anda minha luz, só tu me guias...
Nesta vida que sem ti é um inferno...
Em denso labirinto à tua espera.
 
Sem ti, nas minhas noites, nos meus dias...
Sou eu a ave triste deste inverno,
Na ânsia do raiar da primavera.
 
(*) Julgo que a palavra assaz substitui a palavra breve.
 

domingo, 11 de março de 2018

LINA, FILHA DE PÃ
romance
 
Por Joaquim A. Rocha
 

igreja de São Vicente - Braga
 

5.º Capítulo
 

      O tempo foi escorrendo, a vida em Melcarte era carregada de monotonia, eternidades de tédio, sempre igual, uma autêntica pasmaceira. O Doutor Juiz já estava saturadíssimo daquela terra obscura e dos seus desenxabidos habitantes. À amante começa a notar-se-lhe a gravidez. Já tratara da papelada para o casamento. Um determinado dia dirige-se à rapariga:

- Então, já disseste ao lambisqueiro que estás grávida?

     Ela estremeceu. A barriguinha crescera e ela não podia esconder por mais tempo o seu estado.

- Hoje mesmo vou dizer-lhe. Ele até já me falou em casamento, mesmo não sabendo! Senhor Doutor Juiz, vou pedir-lhe um grande favor: – empreste ao Mário o dinheiro para ele embarcar para o Brasil ou para a Argentina – ele depois manda-lho. Assim, eu ficava aqui, casada, e continuávamos a ser ternos amantes. Ninguém desconfiaria de nada. 

- A ideia até não é má! Tens bons raciocínios. Matavam-se dois coelhos com uma cajadada: tu vias-te livre dele, e eu ficava à vontade contigo. Vou pensar nisso.

     O magistrado ficou a ruminar no assunto. Inteirou-se dos preços da viagem, uma bagatela, para ele nada significava; meteu mãos à obra. Mas primeiro tinha de os casar.

     A boda realizou-se a um domingo de manhã, na igreja matriz da Vila. O juiz entrara com as massas para a cerimónia. Não lhe saíra barata a brincadeira, mas fora melhor assim: a criança nascia dentro de um lar, embora humilde, e ele via-se livre de encrencas. Ficara bem visto no concelho: era amigo da empregada, estava ali no seu casamento, pagara as despesas, que mais ela queria? Agora era tempo de zarpar. A transferência já estava resolvida. Ia para Évora, no Alentejo, durante os próximos três anos, bem longe dali. Ela nunca saberia do seu paradeiro. Provavelmente jamais veria o bastardo, não saberia se era rapaz ou rapariga, mas que interessava? Mais tarde casaria com uma fidalga rica e teriam os seus próprios filhos – os autênticos. Dirigiu-se à empregada e diz-lhe:

- Estás muito bonita! O teu marido teve muita sorte.

     Ela enrubesceu, e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Por que chorava? Acaso tinha quaisquer ilusões? Alguma vez o Senhor Doutor Juiz a tomaria por esposa? Nunca! Nunca!              

- Obrigada, Senhor Doutor. Hoje é um dia muito triste e ao mesmo tempo feliz para mim. O Mário é um bom rapaz e vai tratar bem da nossa criança. Não se preocupe.

- Sim, hoje é um dia especial para nós todos. Haja alegria. Não te arrependerás da decisão tomada.

     Depois do acto religioso, dirigiram-se todos para um restaurante de um hotel das Termas, onde lhes foi servido o almoço, bem regado com o vinho da região, um verdadeiro néctar, segundo os apreciadores.

     À tarde houve baile. O togado despediu-se de todos, desejando felicidades aos noivos. Lina ficou atordoada. Pressentia bem que o perdera para sempre. Provavelmente nunca mais dormiria com ele. Chorou amargamente. O noivo perguntou-lhe:

- Por que choras, meu amor?

     Ela, banhada em lágrimas, respondeu-lhe:

- É por estar tão feliz; não ligues. As mulheres choram, quando amam.

 O Doutor Juiz cumpriu a sua promessa: entregou algum dinheiro ao Mário, a fim de ele tentar ir para a América do Sul. O primeiro passo estava dado. A seguir o recém-casado teria de marcar uma inspecção médica – sem um atestado de boa saúde não poderia obter os papéis; e sem documentos não o deixavam embarcar. O problema era aquela sombra no pulmão direito. Devido a isso, as Repartições Públicas não permitiam que ele emigrasse. Diziam-lhe constantemente: «Cure-se primeiro; depois terá o passaporte.» Para se tratar clinicamente precisaria de muito dinheiro, de apoios. Onde os iria buscar? A Santa Casa da Misericórdia estava praticamente falida, com os seus cofres vazios, não o podia ajudar. As Instituições governamentais não estavam em condições de prestar qualquer tipo de auxílio. A quem recorrer? 

     Trabalhou no porto de Leixões, durante uns meses, na expectativa de partir clandestinamente num daqueles navios, mas o trabalho era duríssimo, demasiado pesado para as suas débeis forças, ainda por cima mal remunerado, e assim, desiludido, cabisbaixo, regressou à sua terra natal.

     A criança já vira a luz do dia. O parto decorrera na maternidade do Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Era uma menina. Foi batizada na igreja matriz da Vila, na maior das simplicidades. Puseram-lhe o nome de Lisete, por assim se chamar a irmã da caridade, a parteira que ajudara a trazê-la ao mundo. Os seus padrinhos foram a Senhora do Rosário e Santo António. Toda a gente ficava a olhar para ela, procurando semelhanças com o pai, mas de Mário nada tinha. As bisbilhoteiras comentavam:

- Aqui há marosca: a Lisete não se parece nada com o Mário! Será que é filha dele? Não será filha do Doutor Juiz? Com esse parece-se! – aventou a Isolina, cuja língua viperina era temida em toda a Vila e arrabaldes. 

- Não sejas má-língua, mulher! Olha que Nosso Senhor Jesus Cristo castiga-te – retorquiu a Palmira, aparentemente mais moderada do que a sua vizinha.

- E que me dizes tu, Palmira, a ter nascido antes do tempo? Nessa não acredito eu!

- Ó Isolina, achas mesmo que é filha do Senhor Juiz?!

- Não tenho bem a certeza mulher, mas do Mário não me parece ser – é tão diferente!

     Os comentários foram aumentando à medida que a menina crescia. A semelhança com o verdadeiro progenitor era espantosa. A cor do cabelo, a testa grande, aqueles olhos inteligentes e observadores. Não havia qualquer dúvida: a Lina ludibriara o ingénuo do “Brilhantina”.

- «Que coirão – exclamava a irmã do rapaz – e meti-os eu em casa. Não a quero mais aqui. Rua!»

     O Mário andava abatido, destroçado. Fartava-se de trabalhar para alimentar a catraia, que afinal de contas não era sua filha. A Lina agora era criada de servir em São Cristóvão, a dez quilómetros da Vila. A irmã dele já não queria a criança, dizia que não lhe era nada, não era sua sobrinha, que a levasse para outro lado. Ele estava desesperado, tinha os nervos num frangalho. Arranjou um quartinho, onde outrora existira uma oficina de barbeiro, e instalou-se lá como pôde. Alguns vizinhos tiveram pena dele e deram-lhe algumas roupas de cama, mantas velhas, uns cobertores descoloridos, mas que permitiriam aconchega-los, aquecê-los no inverno.

     Começou a andar no contrabando, na frota, como na altura chamavam ao comércio ilegal. Levavam certos produtos para a Galiza e lá traziam outros. Fora o irmão mais velho que o convidara:

- Ouve, Mário: tu andas para aí aos caídos, aos biscates, mas, se quiseres, o Abílio do Tojal dá-te trabalho, na frota. Claro que é perigoso: dum lado os guardas-fiscais; do outro, os carabineiros. É certo que muitos deles, ou todos, têm as mãos untadas, mas às vezes andam mal dispostos e disparam, sobretudo quando sabem que anda por perto o tenente. Nós temos de ter muita cautela. Por outro lado, começou há pouco tempo a guerra civil espanhola, e anda tudo em alvoroço – podemos levar um tiro em qualquer ocasião.

- E quando se faz o serviço: de dia ou à noite?

- É tudo feito à noite. Logo que escurece a gente mete-se a caminho do rio, com os sacos de café às costas, e depois é só atravessar o rio na batela; do outro lado estão uns quantos galegos que levam a mercadoria.

     O Mário estava com vinte e dois ou vinte e três anos de idade. Fora à inspecção militar na altura própria e ficara isento. Casado, com uma filha, que afinal não era dele, tinha de conseguir algum dinheiro, senão morria à fome.

- Está bem, aceito. Quando começo?

- Pode ser hoje mesmo. Vai cear logo connosco, assim já falamos melhor. Quanto à Lisete, leva-a lá para casa, a tua cunhada toma conta dela.

- Obrigado! Vou já tratar disso.

     E foi assim que o jovem foi ganhando uns dinheiritos para o dia-a-dia. Quando viu que já tinha umas magras economias, arrendou uma casinha e disse à mulher para vir novamente para a Vila, ele e a filha precisavam dela. Porém, a Lina já arranjara um novo amante. Ela nunca estivera apaixonada pelo marido, como já atrás ficou esclarecido; fora apenas um ardil para salvaguardar a reputação do juiz, e a sua própria, porém agora não necessitava mais de fingir. O juiz entretanto fora embora, e nunca mais dera sinal de si. Era de momento, na sua agitada vida, apenas uma recordação. Ficara a criança, que mais tarde seria, tal como a mãe, uma simples criada de servir, ou então casaria com um operário, ou com um camponês fardado. Nada mais poderia esperar da fortuna, ali naquele recanto do mundo, onde Salazar jurara nunca mais lá voltar, quando lá estivera em 1934. Na ponte de São Cristóvão, junto de alguns ministros, Governador Civil, e Presidente da Câmara Municipal de Melcarte, na altura o farmacêutico, Dr. João Magalhães, disse com algum desprezo e enfado: «Isto aqui é o fim do mundo! Está tudo velho, tudo a cair… Não me convidem para vir cá mais.» E de facto o ditador jamais retornou a Melcarte. Nos seus discursos dizia sempre: «De Valença a Timor…» Este concelho e o vizinho tinham desaparecido pura e simplesmente do mapa! E fez mais: a maioria dos professores do ensino primário passou a ser composta por regentes, apenas com a quarta classe do ensino primário!

quarta-feira, 7 de março de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha







O vento fala comigo

e eu não sei o que ele diz:

«trago novas de um amigo,

lamentos de uma infeliz
 

Açoita meu rosto pálido,

afaga meus brancos cabelos;

nivela meu olhar cálido,

 aviva e agita meus desvelos.

 
Traz-me à ideia a infância,

onde a pobreza reinava,

e, sem fé, nem esperança,

os tristes dias passava!

 
Vento! – Que novas são

as que trazes no teu bojo?

Diz-me, que meu coração

está já a pedir, de rojo!

 
Diz-me onde estão meus amigos,

Se vivem bem no outro mundo;

Se tem por lá inimigos,

Um novo amor profundo.

 
Diz-me que comidas comem,

Se são servidos por anjos;

Se em macias camas dormem,

Se têm asas como arcanjos.

 
Diz-me tudo o que lá se passa,

Tudo eu quero saber;

Diz-me se por lá há desgraça,

Se há ódio e malquerer.

 
Diz-me tudo, que eu não sei

O que por lá acontece;

Diz-me se há rainha ou rei,

Se a aranha ainda tece.

 
Diz-me tudo, tudo, tudo,

Neste tão longo e triste dia;

Eu, para te ouvir, fico mudo,

 Indiferente à maresia.