quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

DUAS VÍTIMAS DO TOMÁS DAS QUINGOSTAS


                                                                 Por Joaquim A. Rocha





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     Ao Tomás das Quingostas, quando foi batizado na igreja de São Paio de Melgaço, a 17/8/1808, atribuíram-lhe o nome de Tomás de Aquino; nascera dois dias antes, a 15/8/1808. Era o quinto filho de José Codesso e de Maria Teresa de Castro. Aprendeu a ler e a escrever, o que era raro nesse tempo. Não nos esqueçamos que São Paio era uma freguesia do concelho de Melgaço, onde a agricultura predominava. Sem grandes exageros, até se pode afirmar que a sede do concelho também era rural. As escolas do ensino primário eram poucas, a monarquia - salvo raras excepções - nunca investiu muito no ensino. No início do século XIX Melgaço era composto apenas por oito freguesias: Chaviães, Cristoval, Paços, Prado, Remoães, Rouças, São Paio e Vila. Castro Laboreiro era concelho; as outras freguesias pertenciam ao concelho de Valadares. Foi neste pequeno espaço que o Tomás, quando cresceu, alterando o nome para Tomás Joaquim (vá-se lá saber porquê) organizou a sua quadrilha. Manuel José de Caldas foi roubado por ele várias vezes; deve ter respirado de alívio quando o bandido foi abatido pela tropa da rainha a 30/1/1839. O senhor Fontes tinha de o servir, e à sua malta, sempre que ele o exigia. // Quem quiser saber mais sobre o Tomás das Quingostas leia o meu artigo publicado no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço de 2008, com o título «Tomaz das Quingostas - 2.º aniversário do seu nascimento». // Seguem as micro biografias dos dois homens que sofreram com as canalhices do Tomás das Quingostas.         

                                                                                   *

CALDAS, Manuel José. Filho de Manuel José de Caldas, lavrador e “cirurgião”, e de Rosa Álvares, lavradeira, residentes no lugar do Paranhão, freguesia de Penso. Nasceu em Penso, Melgaço, por volta de 1795. // Lavrador. // Era conhecido por “Cirurgião de Real”. // Segundo consta, foi uma das maiores vítimas do “Tomaz das Quingostas”. // Casou a 1/10/1855, em segundas núpcias, com Maria José Gomes de Sousa, de 20 anos de idade, filha de José Caetano Gomes de Sousa e de Vicência Rosa Ferreira, natural de Malhagrilos, Prado. // Morreu no lugar de Real, freguesia de São Paio de Melgaço, onde residia, a 26/2/1891, repentinamente, com 96 anos de idade, no estado de casado com a dita Maria José, sem testamento, e foi sepultado na igreja paroquial de São Paio. // Na segunda esposa gerou onze filhos. // Nota: foi pai aos 85 anos de idade. 




FONTES, Policarpo José. Filho de Joaquim Daniel de Fontes e de Inácia Joaquina Fernandes, proprietários, moradores no lugar do Cruzeiro. Neto paterno de Custódio de Fontes e de Francisca Dias, do lugar do Barral, Paderne; neto materno de Manuel Fernandes e de Antónia Gonçalves, da freguesia de Alvaredo. Nasceu em São Paio a 3/10/1802 e foi batizado dois dias depois. Padrinhos: Luís Manuel de Sousa, da Rua do Cais, Vila de Viana. // Proprietário e comerciante. Teve uma loja no Cruzeiro de São Paio, na qual teria sido capturado a 30/1/1839 o temível “Tomaz das Quingostas”. // Casou, só depois da morte do Tomás,  com Maria José, filha de Manuel Inácio da Costa Gomes Pinheiro e de Maria Angélica de Araújo Cunha. // A 22/2/1857 foi padrinho de Policarpo Besteiro, nascido em Alvaredo três dias antes; a madrinha era a sua esposa. // Morreu a 22/5/1891, na sua casa, sita no lugar do Cruzeiro, apenas com o sacramento da extrema-unção, devido ao seu cérebro estar afetado, no estado de viúvo, sem testamento, e foi sepultado na igreja paroquial. // Com geração. 




domingo, 28 de janeiro de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha






Escritores melgacenses


GONÇALVES, Catarina Alexandra (Dr.ª). Filha de Amadeu Júlio Gonçalves, guarda-fiscal, e de Júlia Salgado, doméstica. Nasceu em Paços a 15/3/1980. // Em 1999 frequentava a Universidade de Lisboa, no Curso de Línguas e Literaturas. Estudava português, espanhol, e latim. // Colabora em “A Voz de Melgaço” (ver A Voz de Melgaço n.º 1128). // Como escritora publicou apenas «A Avó do Mundo - a lenda de Santa Ana» e «O Jantar do Bispo», de Sophia de Mello Breyner, na perspectiva do direito canónico administrativo. // No ano letivo 2017/2018 lecionava Teologia na Universidade Católica, era juíza no Tribunal Eclesiástico, e estava terminando o doutoramento em Direito Canónico. // Não se pode considerar uma escritora no verdadeiro sentido da palavra, pois a sua obra atual não lhe permite esse estatuto, mas como ainda é jovem e talento não lhe falta, vai ter tempo e saber para nos dar outras obras literárias e científicas. // «A avó do mundo» é um opúsculo com vinte páginas, onde se narra a lenda da avó de Jesus. Essa lenda nasceu na freguesia de Paços, concelho de Melgaço. Um lavrador encontra uma imagem de pedra maciça, perto do rio Minho, e, por ser pesada, pede aos conterrâneos que o ajudem a transportá-la. Decidem levar a imagem num carro de bois até à igreja paroquial, onde a colocaram perto do altar. No dia seguinte, de manhã cedo, algumas pessoas dirigiram-se à igreja a fim de venerarem a imagem da santa, porém já lá não estava! O que teria acontecido? 
     O homem que a encontrou, inspirado, sugeriu aos presentes: «e se fôssemos ao local onde a imagem apareceu?»  Pois é: a santa lá estava, a amamentar a sua filha Maria, e a olhar para a Galiza. Os pacenses levaram novamente a imagem para a parte alta da freguesia, construíram-lhe uma capela, e a santa ficou sempre virada para os seus queridos galegos, para os proteger nas horas más.   

       Nota: no Brasil existe uma variante desta lenda. 



quinta-feira, 25 de janeiro de 2018


QUADRAS AO  DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
deus Pã perseguindo as deusas
 
 
As nódoas dessa toalha
são mais limpas do que crês;
sujas sim - e tu não vês,
cobre-as aquela mortalha.
 
O padre da minha aldeia
gosta muito das patrícias;
dá-lhes hóstias de manhã,
À noite faz-lhes carícias.
 
O meu telhado é de vidro,
pedras não posso atirar;
não o quero ver partido,
ver por ele chuva entrar.
 
A geada queima a flor,
a raiz não queima, não;
teus olhos queimam, amor,
o meu frágil coração.
 
Se eu penso, logo existo,
dizia um sábio outrora;
pois eu existo e não penso,
porque a paixão me devora.
 
Roubei ao tempo as horas,
                          Ficou triste, a chorar;
                   Perguntei-lhe: porque choras?
                      - Sem elas vou soçobrar!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

LINA - FILHA DE PÃ
        (romance)


                                                                     Por Joaquim A. Rocha






 
                                4.º capítulo (continuação)
 
 
         O “Brilhantina”, como era conhecido, entrou, mas receoso. Aquele cão assustava-o deveras. Está bem, ela acalmava-o, mas nunca fiando. Por outro lado, se o patrão dela se apercebe disparava sobre ele, pois os juízes andavam armados; tinha-lhe dito, isso mesmo, o empregado do tribunal. Estava a arriscar a vida, mas por a sua amada tudo valia a pena. Ela pegou-lhe na mão e levou-o para a garagem. Depois fechou a porta e diz-lhe com meiguice:

 - Então aqui não estamos muito melhor?

- Eu desejei tanto este momento; estar a sós contigo, beijar-te, ter-te só para mim.

     Tremia como varas verdes. O coração ameaçava saltar do peito. Pensava que o que se estava a passar era um simples sonho, um devaneio; quando acordasse tudo se dissiparia. Ela, esperta como era, apercebeu-se da sua agitação, pega-lhe na mão direita e coloca-a nos seus seios. Esfrega-os e ele, pouco a pouco, vai aderindo. Põe-lhe a mão esquerda nas costas, encosta-a mais a ele, abana-a como se fosse peneira, e espreme-a como se fora esponja; procura a sua boca e beija-a com sofreguidão, entrando em êxtase. Ela baixa-se, estende-se numa manta que ali colocara durante o dia, sobe as saias e fecha lentamente os olhos.  

- Mas tem mil cuidados – diz-lhe; - eu estou pura, virgenzinha, nunca tive nada com homem nenhum; és tu o primeiro.

     Ele baixa apressadamente as calças, cheias de remendos, os quais reagem mal àqueles movimentos bruscos, como que pedindo mais calma, pois o tempo e as sucessivas lavagens no tanque público tinham causado algumas mossas; ajoelha-se e deita-se sobre aquele corpo aparentemente sedento de brincadeira. Passado um pouco resfolegava, parecia um animal no período do cio. Ela não sentia nenhum prazer. Aquele indivíduo metia-lhe asco, nojo! Só o suportava por causa da criança que transportava no seu ventre.

- Não tenhas pressa – solicitou-lhe ela. Olha que o mundo não acaba hoje.

- Bem sei, mas é a primeira vez que eu faço estas coisas com uma rapariga. Fui algumas vezes à tia Rosela, mas aquilo não presta – está velha e cheira mal, ia vomitando.

- Metes-te com bandalhos! E ainda por cima pagaste. A partir de agora não precisas de procurar esse coiro, tens-me a mim.

      Ela brincou demoradamente com ele, fez-lhe cócegas, rebolaram pelo chão, riram-se com vontade. Diz o rapaz:

- Tu é que me surpreendeste: pareces magrinha, mas afinal és cheiinha, não se te notam os ossos.

- Alimento-me bem, não sou como tu, que passas lazeira!

- Ainda hei-de ser rico, vais ver. Quando puder vou para o Brasil.

- Só se fores abanar a árvore das patacas. E quem é que te manda ir?                    

- Isso… não sei; não conheço nenhum parente que esteja lá. Nem sequer amigos. Mas se Deus quiser tudo se consegue.  

- Tenho uma ideia. Se viermos a ser um do outro, marido e mulher, peço ao Senhor Doutor Juiz que te empreste o dinheiro para a viagem.

- Fazes isso?! Disseram-me que os barcos saem de Leixões, ali para os lados do Porto. Até lá, ia de camioneta e de comboio.

     Ela, saturada de tanta conversa, já com sono, as pálpebras fechando-se, diz-lhe:

- Bem: se não te apetece mais, vamos dormir. Eu tenho que me levantar cedo para fazer compras e o pequeno-almoço do Senhor Doutor.

- Deixa-te estar mais um bocadinho – mendigou o rapaz, numa voz quase sumida.

     Dali a pouco levantaram-se, ela levou-o até à saída e despediu-se dele com um beijo nos lábios. Subiu as escadinhas, abriu a porta e dirigiu-se ao seu quarto. Não estava em condições de se apresentar ao seu senhor – sentia-se suja, emporcalhada.

     Levantou-se por volta das sete horas. Dirigiu-se à padaria a fim de comprar pão acabado de sair do forno. Que cheirinho! Dava gosto. O Senhor Doutor adorava aquele pão, barrado com manteiga. E que prazer ela sentia em servi-lo, com uma boa chávena de leite de vaca, acabadinho de chegar, sobre o qual deitava meio decilitro de café, a fim de lhe tirar aquela cor branca e dar-lhe outro sabor.

     Era mesmo uma vila rural: tudo cheio de hortas, de campos, de gado a pastar nos baldios próximos, e até suínos e galináceos se viam pelas ruas! Desde que houvesse dinheiro, nada faltava. O pior é que nem toda a gente ganhava o ordenado do juiz, a maioria do povo português, nesses anos trinta, passava imensas necessidades. Os produtos do campo eram vendidos ao desbarato, ainda por cima às vezes o temporal estragava tudo, o milho escasseava, o centeio era pouco, trigo não se dava naquele clima inóspito de inverno e escaldante no verão. A hortinha ia colmatando algumas falhas alimentares, mas era preciso comprar azeite, arroz, bacalhau, carne de vaca e de vitela, peixe fresco, etc. As conservas de atum e sardinha, compradas ali perto, na Galiza, a preços baixíssimos, iam completando algumas refeições. Para arranjar dinheiro vendiam-se os presuntos, lacões, um ou outro salpicão, mas também havia que dar ao médico, ao pároco…, por isso não se podia vender tudo. O regime político saído da Ditadura Militar era severo, controlava tudo, a produção, os preços, os salários, nada era deixado ao acaso. Ser pobre era um desígnio, quase uma fatalidade.

      A primeira República fora um autêntico desastre, diziam os adeptos do Corporativismo, tinha deixado o país na penúria, os cofres do Estado vazios. A nossa entrada na I Grande Guerra exaurira o Tesouro Nacional. Às tantas já não havia dinheiro nem para mandar cantar um cego! Os governos caíam como tordos! Sem dinheiro, não havia progresso. A fome alastrava por todo o país. As colónias ficaram esquecidas, ninguém lhes ligava! Os militares que saíram de Braga, chefiados pelo general Gomes da Costa, puseram cobro à bagunça. Acabou-se a República. Mas, pelos vistos, eles também não desejavam a monarquia. Chamaram um Professor Catedrático, que leccionava em Coimbra, e escrevia sobre matérias financeiras num jornal nacional, a fim de dirigir as Finanças do país. O que aconteceu toda a gente o sabe: pouco a pouco foi-se apoderando do poder e às tantas transforma-se no Chefe, no Senhor Supremo do Estado e da Nação. Criou um modelo político, inspirado na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, nem República nem Monarquia, um caldo, uma autêntica miscelânea, mistela repugnante, embora houvesse presidente da “República”, sempre um militar, mas praticamente sem quaisquer poderes, um presidente a bem dizer a fingir!
 


    
O Mário saíra satisfeito do primeiro encontro. Fora rápido de mais, desajeitado, não gozara o suficiente, mas diacho: que experiência é que ele tinha dessas coisas? Ela disse-lhe que estava intacta, e ele acreditava, pois nunca a vira namorar com ninguém. Aos bailes ia acompanhada pela mãe, andavam por perto os irmãos, e por isso estava bem vigiada. Por outro lado, era muito nova, dezasseis anos, ainda não tivera tempo para grandes aventuras amorosas. «O piormeditava eleé se fica prenha.» Que condições tinha para a sustentar? Nem sequer ganhava para ele! Os patrões, prenhez não a quereriam, com certeza, mandá-la-iam logo embora. E como era menor, e órfã de pai, teria de casar com ela. Que chatice! O melhor era não pensar nisso.  // continua...

sábado, 20 de janeiro de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha





SAUDADE

 
Essa palavra saudade,

de raiz bem portuguesa,

não tem tempo, nem idade:

nasceu com a humanidade,

cresceu com a natureza.

 

Essa palavra saudade,

que revela nosso sentir,

não tem tempo, nem idade:

é velhice, é mocidade…

exprime o passado, o devir!

 

Essa palavra saudade,

que trago sempre no peito,

não tem tempo, nem idade:

diz tristeza, felicidade…

todos lhe prestamos preito!

 

Essa palavra saudade,

que sempre nos acompanha,

não tem tempo, nem idade:

fala angústia, ansiedade…

vive na paz, na campanha!



quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico
 
Por Joaquim A. Rocha 
 
 
 
 
soldado com bazuca
 
 
                                                           15.º capítulo (continuação)
 
 
     Nós, pobres mortais, semicerrávamos os olhos para de imediato os abrirmos com medo de sermos caçados pela “raposa traiçoeira”, como simples galinhas dormindo sono profundo!

     Abri os olhos e, não querendo acreditar, esfreguei-os para me convencer de que não estava a dormir. Longe, por entre as incontáveis árvores, uma luz fraca passeava. Disse, entre dentes, ao soldado que se encontrava à minha beira:

     «Valongo, estás a ver o mesmo que eu?!» A resposta não se fez esperar: «É uma luz; talvez sejam os turras!» Eu então solicitei-lhe:

     «Atira-lhe uma bazucada.» Retorquiu ele: «És doido varrido! Estão distantes e por outro lado vamos pôr isto tudo em polvorosa.» Eu insisti:

    «Atira-lhe; aponta em direção àquela brecha.»

     Aquele silêncio estava a pôr-me num estado de semi-loucura, por isso desejava ouvir barulho, gritos, tiros, granadas a rebentar no solo estrondosamente! Queria que a luz das chamas substituísse aquela escuridão imensa – pretendia sair daquela espécie de letargia que me estava a enlouquecer.       

     O meu camarada bazuqueiro, ensonado, de olhos esbugalhados, fixa a poderosa arma no ombro direito e aí vai projétil.

     O estrondo do disparo, qual explosão nuclear, ecoou por toda a selva africana! Bichos e gente, num grito de raiva e de desespero correram algum tempo sem destino certo. Metralhadoras pesadas e ligeiras começaram a fazer-se escutar, sobrepondo-se aos gritos e aos movimentos frenéticos, desarticulados. As feras brotavam de dentro de nós e devoravam, sem piedade e sem dó, a natureza indefesa e inocente. De súbito, saindo de uma garganta funda, uma voz rouca e estridente, poderosa, parecendo vir do Olimpo adormecido, de um Zeus zangado, atroou os ares:

     «Calem as armas, suas bestas!» Era a descomunal voz do nosso comandante da Companhia. Estava furioso, impaciente, agressivo. Não encontrava qualquer motivo ou explicação, por mais que meditasse, para aquele tiroteio, para aquele festival saloio, para aquele desperdício de munições e energias.

     Os seus homens estavam tensos e ele sabia-o; não tinham tido a sua formação na Academia Militar, a sua preparação na arte de bem guerrear qualquer inimigo, a sua força anímica.

     «Bestas!» - repetiu, agora mais calmo e compreensivo: «Não dêem nem mais um tiro. Isto que não volte mais a acontecer…»      

- Não pregaram olho, nessa noite…

- Dormir! Os primeiros raios solares brindaram-nos com a sua presença. Levantámo-nos do incómodo chão e recomeçamos a marcha. Corpo cansado, roupa húmida, devido à impercetível mas danosa cacimba, espírito sob tortura. As probabilidades de virmos a sofrer uma cilada eram imensas, visto que a gente do PAIGC não perderia uma oportunidade destas: conhecia perfeitamente a nossa posição no terreno e a nossa força.

     Graças aos deuses, nada aconteceu; fomos seguindo, seguindo, com muita precaução, até ao aquartelamento dos camaradas que nos solicitaram apoio. Agora, face àquele dântico espetáculo, compreendia por que não tínhamos sido visitados pelo negro inimigo. Os guerrilheiros concentraram todas as suas forças no ataque ao quartel, ora transformado em escombros! Um pandemónio: berros e mais berros, ordens e mais ordens. Os helicópteros chegavam e partiam com os atingidos e mortos, num deambular macabro. Os rostos dos nossos companheiros refletiam o medo, espelhavam o terror, a ânsia e a tragédia.

- Um massacre! É inadmissível! – exclama Henrique, irritado.

- Não, não estava certo! Aquele quartel, se assim se lhe podia chamar, no interior da floresta, à mercê de um belzebu astuto e calculista, granítico, e – de certa maneira – poderoso, apesar de à primeira vista não o parecer.

     Os “gajos” utilizavam, com mestria, os morteiros, talvez fornecidos pela União Soviética, através de Cuba. E possuíam canhões! E armas sofisticadas. Tudo!

- Sozinhos não poderiam ter feito frente ao exército português – afirma Henrique, categoricamente.

- Também acho. Nós já suspeitávamos, tínhamos a bem dizer a certeza, que militares cubanos faziam parte das forças contrárias. Como Salazar, e os seus esbirros, estava longe da realidade! Ele pensava, cérebro envolto em naftalina, ainda na idade média do desenvolvimento intelectual, que os “turras” eram gente de pé descalço, tipo movimento da “Maria da Fonte”, e usavam ainda a tradicional catana. Pobre pacóvio de Santa Comba!

     Encerrado num gabinete, os seus grandes pés sempre enfiados naquelas botarras pretas, rodeado de velhas múmias conselheiras, bebendo o chã da sua Mariazinha, não podia, se calhar não queria, aperceber-se do que se passava nas colónias. E bastava que os diplomatas portugueses lhe dissessem: «Senhor Presidente do Conselho de Ministros, Portugal encontra-se completamente isolado, nenhuma nação se solidariza com a nossa causa, ninguém nos dá razão. Só nos resta ceder.»

- Acha que o país estava numa situação dessas que descreveu?

- O PAIGC era apoiado por peritos, por especialistas, neste tipo de lutas. E as armas que as nações apoiantes lhe forneciam mostravam ser de certo modo adequadas à região africana, e essa coincidência não era por mero acaso. Estas guerrilhas serviam de balão de ensaio às grandes potências para outras guerras mais importantes e rendíveis. Mas não falemos disso, pois trata-se de uma matéria complicada e eu, meu amigo, não tenho competência para a abordar com rigor e isenção.

     Naquele tempo os nossos terríveis adversários ainda não utilizavam a aviação, à excepção do helicóptero, nem carros de combate; no entanto, iam paulatinamente deitando abaixo os nossos aparelhos e destruindo as nossas viaturas: especialmente as de transporte! As suas emboscadas surtiam quase sempre o efeito pretendido, isto é, conseguiam matar um ou dois dos nossos homens, desmoralizar os restantes, e inutilizar toneladas de mantimentos!

- Uma tática infalível!

- Usavam a Rádio Internacional, nomeadamente da Argélia, para emitir propaganda política, nela surgindo frequentemente vozes de cidadãos portugueses conhecidos, opositores ao regime corporativista e colaboradores dos movimentos de libertação.

- Vozes essas que se ouvem em nossos dias na Assembleia da República!

- E ainda bem! Sinal de que há democracia. Depois da revolução, Portugal tornou-se um país onde todos os portugueses têm lugar.          

- De acordo – concordou Henrique – no entanto deviam pedir perdão aos ex-soldados, pois indiretamente prejudicaram-nos.

- Isso agora é secundaríssimo. Para mim, até me provarem o contrário, o grande culpado foi o santa-combense e os seus capangas. Não tiveram visão do futuro, estavam por demais agarrados ao passado. Não souberam distinguir o essencial do acessório. Mas permites que continue a minha história?

- Com certeza. Até agradeço.
 
// continua...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018


     A Sr.ª D. Umbelina Augusta da Cunha faz hoje, dia 15 de Janeiro de 2018, cento e um anos de idade. É uma idade bonita, como diria o meu conterrâneo Alfredo do Paço, mais conhecido por "Pachorrego".  Tinha poucos meses de idade quando ficou órfã do pai, abatido pelos alemães aquando da Grande Guerra 1914-18. Apesar de ela (e uma sua irmã) ter ficado sem o progenitor, foi crescendo, trabalhando, e ei-la agora com mais de cem anos de idade. Penso que não é a pessoa mais idosa do concelho de Melgaço, mas é - sem quaisquer dúvidas - uma das mais idosas. Faço votos para que viva mais uns bons anos, com saúde se possível, e também com alegria. Os jovens melgacenses deixam a terra natal em busca de uma vida melhor, mas viver melhor do que em Melgaço não é possível: bom clima, paisagens lindíssimas, boa comida, boas frutas, bons vinhos, o melhor presunto e enchidos do país, uma história quase milenar, etc., tornam esta terra um pequeno paraíso terrestre.       

                                                                                 Joaquim A. Rocha


FELIZ ANIVERSÁRIO
 

CUNHA, Umbelina Augusta. Filha de José Maria da Cunha, natural de Chaviães, e de Zulminda Rosa Calheiros, natural da Vila de Melgaço. Neta paterna de Aníbal dos Anjos Cunha e de Rosa Rodrigues; neta materna de Silvina Rodrigues (Calheiros). Nasceu na Vila, SMP, a 15/1/1917 e foi batizada a 7 de Abril desse mesmo ano. Padrinhos: António Luís Fernandes e Umbelina Augusta da Cunha, casados. // Embora tivesse namorado na sua juventude, nunca se casou. // Mora na vila de Melgaço, em casa de sua irmã Julieta, viúva de Manuel Lima. No ano de 2015 foi entrevistada por João Martinho, jornalista de «A Voz de Melgaço». Sem geração.   
 
CUNHA, José Maria. Filho de Aníbal dos Anjos da Cunha, lavrador, do lugar das Carvalhiças, vila, SMP, e de Felisbela Cândida Alves, de Chaviães, onde moravam, no lugar da Portela do Couto. Neto paterno de Francisco Manuel da Cunha e de Caetana Maria da Cunha; neto materno de Caetano Maria Alves e de Maria Joaquina Rodrigues. Nasceu em Chaviães a 11/3/1893 e foi batizado pelo padre Bernardo António Rodrigues dos Passos a 19 do mesmo mês e ano. Padrinhos: José Cândido Salgado, casado, «de incerta profissão», e Maria Rosa Rodrigues, solteira, ambos de Chaviães. // Casou em SMP, na Conservatória do Registo Civil de Melgaço, a 24/8/1912, com Zulminda Rosa Rodrigues “Calheiros”, de 22 anos de idade, natural da Vila, filha de Silvina Inocência Rodrigues “Calheiros”. Testemunhas do acto religioso: Dr. António Pereira de Sousa, médico, e Artemisa de Castro e Silva, solteiros. // Embarcou para França integrado no CEP a 15/4/1917 (Brigada do Minho). Morreu em França, numa batalha, na 1.ª Grande Guerra, a 22/11/1917. Era o soldado n.º 659, de Infantaria 3, 1.ª Companhia (Jornal de Melgaço n.º 1188, de 22/12/1917). // Pai de Marieta Zilda (nasceu a 6/6/1915 e faleceu a 26/4/2008) e de Umbelina Augusta (nascida a 15/1/1917). // Nota: o Dr. Augusto César Esteves, in «O Meu Livro das Gerações Melgacenses», volume I, página 576, chama-lhe José Luís da Cunha; também a data de casamento não coincide).