quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico
 
Por Joaquim A. Rocha 
 
 
 
 
soldado com bazuca
 
 
                                                           15.º capítulo (continuação)
 
 
     Nós, pobres mortais, semicerrávamos os olhos para de imediato os abrirmos com medo de sermos caçados pela “raposa traiçoeira”, como simples galinhas dormindo sono profundo!

     Abri os olhos e, não querendo acreditar, esfreguei-os para me convencer de que não estava a dormir. Longe, por entre as incontáveis árvores, uma luz fraca passeava. Disse, entre dentes, ao soldado que se encontrava à minha beira:

     «Valongo, estás a ver o mesmo que eu?!» A resposta não se fez esperar: «É uma luz; talvez sejam os turras!» Eu então solicitei-lhe:

     «Atira-lhe uma bazucada.» Retorquiu ele: «És doido varrido! Estão distantes e por outro lado vamos pôr isto tudo em polvorosa.» Eu insisti:

    «Atira-lhe; aponta em direção àquela brecha.»

     Aquele silêncio estava a pôr-me num estado de semi-loucura, por isso desejava ouvir barulho, gritos, tiros, granadas a rebentar no solo estrondosamente! Queria que a luz das chamas substituísse aquela escuridão imensa – pretendia sair daquela espécie de letargia que me estava a enlouquecer.       

     O meu camarada bazuqueiro, ensonado, de olhos esbugalhados, fixa a poderosa arma no ombro direito e aí vai projétil.

     O estrondo do disparo, qual explosão nuclear, ecoou por toda a selva africana! Bichos e gente, num grito de raiva e de desespero correram algum tempo sem destino certo. Metralhadoras pesadas e ligeiras começaram a fazer-se escutar, sobrepondo-se aos gritos e aos movimentos frenéticos, desarticulados. As feras brotavam de dentro de nós e devoravam, sem piedade e sem dó, a natureza indefesa e inocente. De súbito, saindo de uma garganta funda, uma voz rouca e estridente, poderosa, parecendo vir do Olimpo adormecido, de um Zeus zangado, atroou os ares:

     «Calem as armas, suas bestas!» Era a descomunal voz do nosso comandante da Companhia. Estava furioso, impaciente, agressivo. Não encontrava qualquer motivo ou explicação, por mais que meditasse, para aquele tiroteio, para aquele festival saloio, para aquele desperdício de munições e energias.

     Os seus homens estavam tensos e ele sabia-o; não tinham tido a sua formação na Academia Militar, a sua preparação na arte de bem guerrear qualquer inimigo, a sua força anímica.

     «Bestas!» - repetiu, agora mais calmo e compreensivo: «Não dêem nem mais um tiro. Isto que não volte mais a acontecer…»      

- Não pregaram olho, nessa noite…

- Dormir! Os primeiros raios solares brindaram-nos com a sua presença. Levantámo-nos do incómodo chão e recomeçamos a marcha. Corpo cansado, roupa húmida, devido à impercetível mas danosa cacimba, espírito sob tortura. As probabilidades de virmos a sofrer uma cilada eram imensas, visto que a gente do PAIGC não perderia uma oportunidade destas: conhecia perfeitamente a nossa posição no terreno e a nossa força.

     Graças aos deuses, nada aconteceu; fomos seguindo, seguindo, com muita precaução, até ao aquartelamento dos camaradas que nos solicitaram apoio. Agora, face àquele dântico espetáculo, compreendia por que não tínhamos sido visitados pelo negro inimigo. Os guerrilheiros concentraram todas as suas forças no ataque ao quartel, ora transformado em escombros! Um pandemónio: berros e mais berros, ordens e mais ordens. Os helicópteros chegavam e partiam com os atingidos e mortos, num deambular macabro. Os rostos dos nossos companheiros refletiam o medo, espelhavam o terror, a ânsia e a tragédia.

- Um massacre! É inadmissível! – exclama Henrique, irritado.

- Não, não estava certo! Aquele quartel, se assim se lhe podia chamar, no interior da floresta, à mercê de um belzebu astuto e calculista, granítico, e – de certa maneira – poderoso, apesar de à primeira vista não o parecer.

     Os “gajos” utilizavam, com mestria, os morteiros, talvez fornecidos pela União Soviética, através de Cuba. E possuíam canhões! E armas sofisticadas. Tudo!

- Sozinhos não poderiam ter feito frente ao exército português – afirma Henrique, categoricamente.

- Também acho. Nós já suspeitávamos, tínhamos a bem dizer a certeza, que militares cubanos faziam parte das forças contrárias. Como Salazar, e os seus esbirros, estava longe da realidade! Ele pensava, cérebro envolto em naftalina, ainda na idade média do desenvolvimento intelectual, que os “turras” eram gente de pé descalço, tipo movimento da “Maria da Fonte”, e usavam ainda a tradicional catana. Pobre pacóvio de Santa Comba!

     Encerrado num gabinete, os seus grandes pés sempre enfiados naquelas botarras pretas, rodeado de velhas múmias conselheiras, bebendo o chã da sua Mariazinha, não podia, se calhar não queria, aperceber-se do que se passava nas colónias. E bastava que os diplomatas portugueses lhe dissessem: «Senhor Presidente do Conselho de Ministros, Portugal encontra-se completamente isolado, nenhuma nação se solidariza com a nossa causa, ninguém nos dá razão. Só nos resta ceder.»

- Acha que o país estava numa situação dessas que descreveu?

- O PAIGC era apoiado por peritos, por especialistas, neste tipo de lutas. E as armas que as nações apoiantes lhe forneciam mostravam ser de certo modo adequadas à região africana, e essa coincidência não era por mero acaso. Estas guerrilhas serviam de balão de ensaio às grandes potências para outras guerras mais importantes e rendíveis. Mas não falemos disso, pois trata-se de uma matéria complicada e eu, meu amigo, não tenho competência para a abordar com rigor e isenção.

     Naquele tempo os nossos terríveis adversários ainda não utilizavam a aviação, à excepção do helicóptero, nem carros de combate; no entanto, iam paulatinamente deitando abaixo os nossos aparelhos e destruindo as nossas viaturas: especialmente as de transporte! As suas emboscadas surtiam quase sempre o efeito pretendido, isto é, conseguiam matar um ou dois dos nossos homens, desmoralizar os restantes, e inutilizar toneladas de mantimentos!

- Uma tática infalível!

- Usavam a Rádio Internacional, nomeadamente da Argélia, para emitir propaganda política, nela surgindo frequentemente vozes de cidadãos portugueses conhecidos, opositores ao regime corporativista e colaboradores dos movimentos de libertação.

- Vozes essas que se ouvem em nossos dias na Assembleia da República!

- E ainda bem! Sinal de que há democracia. Depois da revolução, Portugal tornou-se um país onde todos os portugueses têm lugar.          

- De acordo – concordou Henrique – no entanto deviam pedir perdão aos ex-soldados, pois indiretamente prejudicaram-nos.

- Isso agora é secundaríssimo. Para mim, até me provarem o contrário, o grande culpado foi o santa-combense e os seus capangas. Não tiveram visão do futuro, estavam por demais agarrados ao passado. Não souberam distinguir o essencial do acessório. Mas permites que continue a minha história?

- Com certeza. Até agradeço.
 
// continua...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018


     A Sr.ª D. Umbelina Augusta da Cunha faz hoje, dia 15 de Janeiro de 2018, cento e um anos de idade. É uma idade bonita, como diria o meu conterrâneo Alfredo do Paço, mais conhecido por "Pachorrego".  Tinha poucos meses de idade quando ficou órfã do pai, abatido pelos alemães aquando da Grande Guerra 1914-18. Apesar de ela (e uma sua irmã) ter ficado sem o progenitor, foi crescendo, trabalhando, e ei-la agora com mais de cem anos de idade. Penso que não é a pessoa mais idosa do concelho de Melgaço, mas é - sem quaisquer dúvidas - uma das mais idosas. Faço votos para que viva mais uns bons anos, com saúde se possível, e também com alegria. Os jovens melgacenses deixam a terra natal em busca de uma vida melhor, mas viver melhor do que em Melgaço não é possível: bom clima, paisagens lindíssimas, boa comida, boas frutas, bons vinhos, o melhor presunto e enchidos do país, uma história quase milenar, etc., tornam esta terra um pequeno paraíso terrestre.       

                                                                                 Joaquim A. Rocha


FELIZ ANIVERSÁRIO
 

CUNHA, Umbelina Augusta. Filha de José Maria da Cunha, natural de Chaviães, e de Zulminda Rosa Calheiros, natural da Vila de Melgaço. Neta paterna de Aníbal dos Anjos Cunha e de Rosa Rodrigues; neta materna de Silvina Rodrigues (Calheiros). Nasceu na Vila, SMP, a 15/1/1917 e foi batizada a 7 de Abril desse mesmo ano. Padrinhos: António Luís Fernandes e Umbelina Augusta da Cunha, casados. // Embora tivesse namorado na sua juventude, nunca se casou. // Mora na vila de Melgaço, em casa de sua irmã Julieta, viúva de Manuel Lima. No ano de 2015 foi entrevistada por João Martinho, jornalista de «A Voz de Melgaço». Sem geração.   
 
CUNHA, José Maria. Filho de Aníbal dos Anjos da Cunha, lavrador, do lugar das Carvalhiças, vila, SMP, e de Felisbela Cândida Alves, de Chaviães, onde moravam, no lugar da Portela do Couto. Neto paterno de Francisco Manuel da Cunha e de Caetana Maria da Cunha; neto materno de Caetano Maria Alves e de Maria Joaquina Rodrigues. Nasceu em Chaviães a 11/3/1893 e foi batizado pelo padre Bernardo António Rodrigues dos Passos a 19 do mesmo mês e ano. Padrinhos: José Cândido Salgado, casado, «de incerta profissão», e Maria Rosa Rodrigues, solteira, ambos de Chaviães. // Casou em SMP, na Conservatória do Registo Civil de Melgaço, a 24/8/1912, com Zulminda Rosa Rodrigues “Calheiros”, de 22 anos de idade, natural da Vila, filha de Silvina Inocência Rodrigues “Calheiros”. Testemunhas do acto religioso: Dr. António Pereira de Sousa, médico, e Artemisa de Castro e Silva, solteiros. // Embarcou para França integrado no CEP a 15/4/1917 (Brigada do Minho). Morreu em França, numa batalha, na 1.ª Grande Guerra, a 22/11/1917. Era o soldado n.º 659, de Infantaria 3, 1.ª Companhia (Jornal de Melgaço n.º 1188, de 22/12/1917). // Pai de Marieta Zilda (nasceu a 6/6/1915 e faleceu a 26/4/2008) e de Umbelina Augusta (nascida a 15/1/1917). // Nota: o Dr. Augusto César Esteves, in «O Meu Livro das Gerações Melgacenses», volume I, página 576, chama-lhe José Luís da Cunha; também a data de casamento não coincide).
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 13 de janeiro de 2018

GENTES DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





Dia de nevoeiro; ao fundo, o rio Minho


     A morte de um conterrâneo entristece-me sempre. Embora o destino lhe tenha pregado uma partida, pois nasceu quando a sua mãe estava de férias na praia, ele é - e será sempre - um melgacense. É certo que eu não tinha uma grande intimidade com o Dr. Elpídio, mas respeitava-o muito. Era um homem de caráter, culto, responsável, bom conversador. O seu nome é raríssimo no país. Ensina-nos o Dr. José Pedro Machado: «... do latim tardio Elpidius, nome de santos, um bispo de Lião (século V)...) A seguir vou publicar alguns dados da sua biografia:  


GONÇALVES, Elpídio (Dr.) Filho de Manuel Batista Gonçalves, natural do lugar de Lobiô, freguesia de Rouças, emigrante na Argentina, e de Júlia Rosa Domingues, natural do lugar de Soutomendo de Baixo, freguesia de Fiães. Neto paterno de Manuel José Gonçalves, natural de Rouças, e de Ana Rosa Domingues, natural de Fiães; neto materno de António Manuel Domingues e de Maria Marques, naturais da freguesia de Fiães. Nasceu em Vila Praia de Âncora (*) a 10/9/1928 e foi registado na Conservatória do Registo Civil de Melgaço, como sendo natural da freguesia de Fiães, concelho de Melgaço. // Depois da instrução primária continuou a estudar; após o ensino secundário ingressou na Universidade de Coimbra, onde tirou o Curso de Direito. // Em Dezembro de 1961, ano em que concluiu o Curso, foi nomeado Notário e Conservador do Registo Civil de Castro Marim, Algarve. // Foi também advogado, além de subdelegado do Procurador da República em Carrazeda de Ansiães e Ponte da Barca. // Permaneceu catorze anos em Guimarães como notário, e alguns anos em Vila Verde. // Aposentou-se em 1996. // Casou com a professora Maria da Paz Dias Figueiredo. // Residiram em Braga. // Morreu na capital da província do Minho a 10/1/2018 e foi sepultado no cemitério da cidade.
 
 
Cruzeiro de São Julião - Melgaço
   Pai da Dr.ª Helena Maria (professora do Ensino Secundário, casada com Luís Miguel, engenheiro eletrotécnico da Empresa Philips no Porto, filho do coronel António de Oliveira Pena e de Maria Antónia Figueiredo); e do Dr. Octávio Manuel (tirou a licenciatura em 1987 na Faculdade de Economia do Porto, onde lecionou ano e meio; foi bolseiro da Junta de Investigação Científica e Tecnológica; em 1992 fez o doutoramento na Universidade de Grenoble, França, com a classificação de «très honorable»; julgo que foi professor na Universidade do Porto; casou com a Dr.ª Eliseth Angelina, professora do Ensino Secundário, filha do Dr. Luís Miranda e da Dr.ª Maria Eliseth Moutinho da Silva, professores do Ensino Secundário, naturais de Montalegre, tendo por padrinhos da boda o major da GNR Alberto Magno Pereira de Castro e esposa, professora Maria Armanda Dias Figueiredo, tios do noivo, e o engenheiro João Luís Miranda, irmão da noiva, e a professora Ana Maria Moutinho, prima da noiva, cujo acto religioso teve lugar no Bom Jesus de Braga). Pai também de Ana Rosa e de Maria José. 
 
     (ver Notícias de Melgaço n.º 1416, de 12/11/1961; NM 1421, de 24/12/1961; VM 963; A Voz de Melgaço n.º 984, de 1/5/1993; VM 990, de 1/8/1993; e VM 1056). /// (*) Os seus pais estavam a gozar férias na praia quando ele nasceu.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





Ao lado da CGD estava a CASA DO CAMPO DA FEIRA 

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CASA DO CAMPO DA FEIRA

 
     Um dos seus proprietários foi o padre Francisco Gomes de Abreu, filho de Manuel Esteves da Costa e de Isabel Gomes de Abreu de Magalhães, e irmão de Sabina Gomes de Abreu, casada com Jerónimo Gomes de Magalhães, da Casa da Calçada. O dito sacerdote justificou a sua nobreza em 1736. Descendia, segundo a carta de brasão, da linhagem dos Costa, Gomes, Abreu e Magalhães. Faleceu na Vila de Melgaço a 10/1/1765. / Essa Casa, com a pedra de armas no frontispício, onde funcionou durante anos a estação dos CTT, ficava perto da Escola Conde Ferreira (agora Agência da Caixa Geral de Depósitos); foi derrubada na segunda metade do século XX. Dela restam apenas as fotografias. (ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, volume II, p.p. 60 e 61; e “Padre Júlio Apresenta Mário”, p. 121).


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CASA CARIOCA

(Importação e Exportação)

 

     Sita em Manaus, Estado do Amazonas, Brasil. Os seus propritários são António Conde e esposa, Alzira Monteiro, melgacenses (VM 1176, de 15/2/2002).

 
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                    CASA CASTREJA
 

     Lê-se em A Voz de Melgaço n.º 936, de 1/4/1991: [Em Assembleia Distrital, presidida pelo Governador Civil do Distrito, foi decidido «mandatar uma Comissão para se deslocar a Castro Laboreiro, com o fim de verificar o estado actual de construção da “Casa Castreja” que o Centro Cultural de Castro Laboreiro pretende adquirir para sua propriedade.»] / No “Melgaço Hoje” n.º 3, página 9, de Fevereiro de 1995, fala-se na «Casa Regional “A Castreja”.» / A concepção artística da réplica da Casa Castreja deve-se a Carlos Indalécio Oliveira, na altura finalista do Curso Técnico-Profissional de Conservação e Restauro, numa Escola do Porto. / O telhado é de colmo (Revista Municipal n.º 34, de Dezembro de 2004).     

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha






 
 

     Tal com em tempos escrevi sobre o escultor Acácio Dias e sobre o fotógrafo San Payo, hoje escrevo sobre um grande historiador das coisas de Melgaço: Aldomar Rodrigues Soares, mais conhecido por “Mário”. Nascido na freguesia de Prado, concelho de Melgaço, a 10/9/1913, falece na Peneda, Gavieira, Arcos de Valdevez, à meia-noite do dia 6 para o dia 7 de Setembro de 1962, apenas com 49 anos de idade! O Aldomar pertenceu à Polícia de Segurança Pública, mas devido a uma grave doença teve de se retirar; «isolou-se» depois na sua casa de Prado, tornando-a num Centro de Cultura, num viveiro de História. Logo que se funda A Voz de Melgaço, em 1946, o “Mário” torna-se num colaborador assíduo, contribuindo imenso para o prestígio do jornal e até da nossa terra. Os seus artigos, as famosas «Efemérides», eram verdadeiras lições de história local; noutros, sob a designação de «Gentes e Coisas de O Meu Ficheiro», biografava pessoas simples, como por exemplo o meu avô materno, Belchior Herculano da Rocha, e o meu tio-avô José Maria Alves, mais conhecido por “Zinona”, narrando pequenas peripécias da sua vida, histórias que na altura andariam de boca em boca, mas que o tempo posterior fez esquecer. Penso que o “Mário” nunca se interessou muito pelos ricos e poderosos, ao contrário do Dr. Augusto César Esteves, que em «O Meu Livro das Gerações Melgacenses» quase esquece por completo as famílias humildes – dedica a maior parte das páginas aos Castro fidalgos, Figueiredo, Sotomaior, Cunha Araújo, Magalhães, etc. E as outras famílias não existiram? Eram demasiado plebeias para o senhor Dr. Augusto César Esteves? Talvez! Isto não significa desvalorizar o trabalho, a obra histórica e genealógica do Dr. Augusto César Esteves; os seus escritos merecem ser aplaudidos e acarinhados.

     Não sei, não faço a mínima ideia, onde foi o “Mário” colher tanta informação, tanto saber! Frequentou a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional, Museus e Arquivos. Tudo bem! Contudo, a visita a essas instituições não dá por si só o conhecimento; é preciso ir munido, técnica e cientificamente, com métodos de investigação, adquiridos ao longo de árduos anos com os mestres. Saber o que se procura e como se procura exige preparação prévia, de contrário perde-se tempo e faz-se perder tempo aos outros. O “Mário”, por aquilo que li, não tinha curso superior, não frequentou a universidade, logo, era um autodidata, um homem insatisfeito, sôfrego de saberes.

     O senhor padre Júlio Vaz já disse que vai publicar a obra histórica do “Mário”; é um grande gesto, uma homenagem ao autor, mas também ao nosso concelho. É com estas obras que Melgaço se torna maior, mais digno de admiração. Deixem-me só desabafar: que anda a fazer o vereador da cultura? Já está como o nosso primeiro-ministro: não lê, não sabe?! A minha modesta opinião é esta: quando se assume um lugar na administração pública tem de se estar minimamente preparado para ocupá-lo com dignidade. Quem é o nosso vereador da cultura? O que fez até agora na sua área? Se algo fez que o diga, que se orgulhe, que se envaideça – nós não lhe levaremos a mal por isso. Há pessoas que estão para a cultura como eu estou para a pesca submarina: nem sequer sei mergulhar! É de facto uma vergonha que sejam pessoas singulares a fazerem o trabalho que compete à administração pública. No entanto, não devemos esquecer que esta Câmara Municipal já editou alguns cadernos, embora pouco cuidados a maioria deles, mas de uma grande importância para a cultura melgacense. Nesse campo há ainda imensa coisa a fazer. As estradas, as casas, etc., são sem dúvida fundamentais para o desenvolvimento de um concelho, de um país; porém, a cultura é tanto ou mais importante do que as rodovias – a cultura é a estrada que nos pode levar à felicidade espiritual, bem mais agradável e duradoura do que a felicidade material, apesar desta não se poder dispensar. 

     Dizia eu que o Aldomar foi uma sumidade no que diz respeito à historiografia melgacense. Trabalhava metodicamente, cientificamente, sem os instrumentos que ora nos apoiam, ou seja: computadores, microfilmes, vídeos, etc. Se tivesse vivido mais algum tempo deixar-nos-ia certamente uma obra fabulosa; mesmo assim, aquilo que nos legou já é bastante. Não sei quem tem o seu espólio; provavelmente a sua viúva, ou os seus filhos. Esse espólio sem preço, esse valioso tesouro, deveria ser adquirido pela Câmara Municipal de Melgaço para a Casa da Cultura ou para o Arquivo Municipal. Ficaria à disposição dos estudantes e investigadores da história local.

     Aproveito para dizer que ando a tentar construir uma pequena história genealógica da minha família (Lourenço, Alves, Barbeitos, Melo, Rocha), e quanta dificuldade tenho encontrado, em parte porque os livros dos registos paroquiais foram retirados à igreja católica pelos republicanos depois de 1910 e encontram-se agora no Arquivo Distrital de Viana do Castelo. Os ficheiros do “Mário” poderiam ajudar, mas onde estão?

     A família hoje está dispersa; por outro lado, perdeu-se o conceito de «família alargada». Em nossos dias ela consta apenas de pais e filhos, e pouco mais! Para a sua destruição contribuíram a primeira grande guerra, a fome, as epidemias, a segunda guerra mundial, a guerra colonial, e a emigração. O “Mário”, com nomes, datas, acontecimentos, contribuiu imenso para a sua recuperação. Porque não tenham quaisquer dúvidas: a história de um país, de uma nação, é a história das suas gentes, das famílias, das comunidades. É bom que nós saibamos quem são os nossos antepassados, a fim de podermos homenagear ou criticar (por que não?) a sua memória. O nosso corpo, grande ou pequeno, gordo ou magro, não é apenas comida: é, acima de tudo, espírito. Geralmente não se recorda aquilo que no passado comemos ou bebemos, mas sim o que vivemos, o que gozamos na companhia de outrem, os momentos agradáveis e tristes. Agora dá-se mais atenção ao carro, à roupa, aos comes-e-bebes! Isso é viver a cinquenta por cento. O “Mário” quis cumprir a vida na sua totalidade; quis deixar para as gerações vindouras o resultado das suas investigações; quis, enfim, merecer a sua posteridade. Deixou-nos uma obra, e graças a ela não morreu. Por vezes desafiou os doutos; não perdeu na contenda. Não os venceu, é certo, mas também esse não era certamente o seu objetivo. O seu objetivo, creio eu, era esclarecer o leitor, dizer a verdade sobre os factos ocorridos. Que bom seria se aparecessem mais “Mários” no nosso concelho!                  

       

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1030, de 1/6/1995.

sábado, 6 de janeiro de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de Os Lusíadas de Camões)
 
Por Joaquim A. Rocha







Prólogo
(continuação)

15

Que achais que o mundo de nós espera?

Apenas o que nós esperamos do mundo:

Em paz, e em progresso, sem fome fera

Ir caminhando – longo passo fundo;

Criando a Fase de Ouro, a nossa Era,

Deixando pra trás tudo que é imundo;

Negando a fabulosa identidade,

Pois o tempo já é, e também a idade. 

 
16


E eu, sem oráculo ou profeta ser,

Prevejo que o dia luso vai chegar;

As trevas vão na luz esmorecer,

As ciências da vida despontar;

Vampiros na noite vão perecer,

Os déspotas atirar-se-ão ao mar.

As iras e paixões serão banidas

Pra que os homens tenham melhores vidas.

 
17

 
Não se apague em nós a má memória

Dos reis guerreiros, pequenos Cipiões,

Uns buscando a terra e outros glória,

Afonsos, Sanchos, Pedros, Sebastiões.

Penetrando na senda assaz ilusória

De um mundo vazio, já sem sensações;

Dando à terra as costas, o mar olhando,

Miríade de frágeis naus o mar sulcando.

18

 
Não se esqueçam os Filipes espanhóis,

Que esta terra livre tornaram sua.

Vã presença, ruins recordações,

Tempo onde a dor pátria flutua;

Sonhos de liberdade, aspirações,

Horas em que o medroso não recua.

Fogo que arde no nobre templo erguido

Em honra de um país nunca esquecido.

 
19

 
É Camões que morre, é Portugal,

Sonho de alta glória que se esvai;

E do bem que havia surge o mal,

Das feridas abertas o sangue sai.

 A língua mãe cobre-se com cal,

E a vil desonra sobre ela cai;

Das entranhas do ser o medo nasce,

Pede-se a Zeus que o rebanho pasce.

 
     20

 
É a alma portuguesa que perece,

O esplendor das descobertas se apaga;

O mundo todo de nós já se esquece,

Não há mais para nós a nobre saga;

Os passados feitos já não merece,

A nobre prosa que a ação sagra.

E pra que dos vis não reze a História,

Farei dos traidores a suja escória.


// Continua...

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VENDA DE LIVROS DO AUTOR
 
 
DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO, I e II
LINA, FILHA de PÃ (romance)
OS MEUS SONETOS e os do frade
OS NOVOS LUSÍADAS (...)
 
Nota: os pedidos devem ser feitos através do seguinte e-mail  joaquim.a.rocha@sapo.pt  

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

LEMBRANÇAS AMARGAS
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha



desenho de Luís Filipe G. P. Rodrigues



XIX

Privilégios de macho cavalgam sábias fêmeas
 

     O leitor vai ficar abismado com tudo aquilo que se vai passar a seguir. Perguntar-se-ão: «como é possível?» Pois é: eu também fazia das minhas. Claro que naquela época, talvez ainda hoje, havia dois pesos e duas medidas: a traição da mulher pesava mais na sociedade, era suscetível de uma condenação severa; ao contrário, era de bom-tom o homem dar a sua escapadela! Mas já chega de retórica, venham todos assistir à malandrice:

- Cândido: nem sei como haverei de começar. A tua mãe não te disse nada?

- Se é o que estou a pensar, disse; mas já sabes como ela é.   

- Bem, ela falou comigo, disse-me que não gostava nada que tu casasses com a Bera, é uma leviana, não te vai respeitar, eu tive aquele problema, mas pronto, isso aconteceu porque aquele manco do diabo pensa que tem de tirar o virgo a todas as filhas dos caseiros, enquanto não faz isso não descansa, eu tinha apenas dezasseis anos de idade, era uma pobre inocente, não tenho culpa nenhuma, ameaçou despedir os meus pais da quinta, olha que sou uma rapariga séria, respeitar-te-ei sempre, comigo podes contar para a vida e para a morte, estarei sempre ao teu lado.

- Estás a colocar-me numa situação difícil, melindrosa, eu não quero prometer-te nada, é certo e verdade que a Bera ultimamente anda esquisita, não aparece aos encontros marcados, farto-me de lhe mandar recados, não sei o que ela tem, se calhar já não me quer, eu dou em doido, porque gosto profundamente dela.

- Eu ouvi dizer que vai casar com o Artur, sempre foi uma vaidosa, não dá confiança a ninguém, pensa que é importante, coitada, tem tanto como eu.

- Agradeço-te que não fales da Bera na minha presença, isso não admito a quem quer que seja, se ela me trocar pelo Artur está no seu direito, mas garantiu-me que isso não passa de um boato e prometeu esperar o meu regresso da tropa, depois casamos e já calaremos as más-línguas.     

- Espera-lhe pela volta, mas se não queres falar nesse assunto não fales, eu gosto de ti e estou às tuas ordens, se quiseres já sabes onde me encontrar, no domingo à tarde é o melhor momento, porque o meu pai anda aí pelas tabernas e a minha mãe não sai de casa, os meus irmãos ainda são pequenos, não se aperceberão de nada.

- Está bem, no domingo à tarde apareço, faço sinal cá de cima da avenida, mas não quero que te vejam comigo, se a Bera sabe então é o bom e o bonito, rompe logo comigo.

                                        *

- Cá estou eu, ninguém te viu?

- Não, hoje há futebol no monte de Santiago, veio cá jogar o Limiano, foi toda a gente para lá, o meu pai a estas horas já deve estar bem bebido, a minha mãe está na cozinha a fazer a ceia, nem aos domingos tem direito ao descanso.

- Vamos arranjar um cantinho, daqui vê-se a tua casa, vamos mais para além, ali deve servir, a erva está seca, não há urtigas, esperemos que ninguém nos veja.

- Tanto medo, eu é que devia estar com esse receio, sou uma rapariga solteira, nem sequer sou tua namorada, nem sei porque vim, só porque gosto muito de ti, se quiseres vou-me embora.

- Desculpa, sei que estás a arriscar bastante, mas compreende, sou o namorado da Bera, se ela sabe, mas olha agora estamos aqui os dois e vamos pensar só em nós, deita-te aqui, assim, estás mesmo bem, és muito atraente, só tenho tido olhos para ela, mas tu não lhe ficas atrás, que pernas bonitas, macias, parecem de veludo, que seios, rijos, que bem me sinto aqui à tua beira, que lábios, parece que nunca beijaram, e tens os olhos lindos, nunca tinha reparado neles, nem sequer me tinha apercebido da cor deles, são verdes, ia jurar que eram castanhos, quase todas as raparigas daqui têm os olhos castanhos, o cabelo, brilhante, mais louro do que castanho, que bem me sinto entre as tuas pernas, deixa-me estar assim muito tempo, sempre.

*

- Até te esqueceste das horas, é quase noite, temos de ir embora, se não depois não podemos passar o regato, ainda caímos, foi uma tarde maravilhosa, não será a última, vamos passar muitas tardes assim, juntos, não estejas com essa cara de aflito, ninguém saberá.

- Promete-me, Celina, promete-me solenemente, que nunca dirás a ninguém o que se passou aqui, se ela sabe estou desgraçado, então é que eu a perco para sempre.

- Estás a ser-lhe mais fiel do que ela te está a ser a ti, mas podes confiar em mim, da minha boca não sairá uma única palavra a este respeito, nem sequer à tua mãe eu direi.  

- Sobretudo à minha mãe, se lho disseres espalhará por todo o lado, só para prejudicar a rapariga, vai botar tudo a perder, não lhe contes nada.

- Também, quem é que acredita naquilo que a tua mãe diz?

- Nunca fiando.