segunda-feira, 2 de outubro de 2017

LEMBRANÇAS AMARGAS
 
romance
 
Por Joaquim A. Rocha








XVII

Entre dois fogos beijei a sereia

 
     Estas discussões entre mim e a minha mãe deixam-me sempre desolado. Se pudessem acabar… Agora, aproveitando o facto de ele estar de férias, vou contar ao meu irmão cenas de terror, acontecimentos que me apavoraram, que me deixaram marcas para toda a vida. Ouçam:

- Tinha eu dez anos, tu acabaras de partir para a capital do país. Sentado à mesa, pés descalços, esmagando com os pés pedras gigantescas de sal, encontrava-se o tendeiro: velho, bruxo e feiticeiro, capaz de quebrar nozes com uma só mão! Gritava como um possesso, pedindo aos maus espíritos, em altos berros, que se afastassem dele e daquela casa: «ide-vos, aqui não sois bem-vindos, ide para as profundezas do inferno, de onde nunca devíeis ter saído, ide para o mar coalhado, profundo, deixai esta casa e esta gente.» Eu chorava baixinho, tremia de frio e de medo. A mamã, disforme, espumava pela boca e de repente desatava aos gritos. Da sua garganta libertava-se uma voz rouca, áspera, que dizia: «não quero sair daqui, não quero.» Em seguida rebolava-se no chão da sala e as janelas abriam-se de par em par, agitadas por um vento estranho e violento. As meias portas batiam uma contra a outra com um estrondo medonho. Eu chorava, tinha vontade de sair para a rua, mas não podia, mão poderosa e cruel retinha-me ali, obrigava-me a assistir àquela dantesca cena. As cortinas da janela rasgaram-se em pedacinhos e voavam como pequenas aves. Depois o silêncio. O bruxo ficou com a cabeça deitada sobre a retangular mesa de pinho, cabelo desgrenhado, exausto, e a mamã estendida desajeitadamente no soalho da sala, desfigurada, com as pernas e parte da barriga à mostra. Desde que aquele homem-diabo tinha entrado em nossa casa estas cenas de espiritismo e feitiçarias repetiam-se com pontual regularidade. Falava constantemente no livro de São Cipriano, que eu nunca vi nem li, antes de ser santo teve um pacto com o demónio, segundo dizem, dizia que o tal livro continha segredos de tesouros escondidos, contou-nos que tinha ido uma vez ao monte de Santiago, aí estava, segundo ele dizia, enterrado um grande tesouro, joias, moedas em ouro, que levariam muitos meses a contar! Foi com ele uma mulher de corpo aberto, uma espírita, e um homem com uma enxada e uma picareta para desenterrar o fabuloso tesouro (talvez, quem sabe, daquele tempo em que sarracenos andaram pela Península Ibérica; aquando das investidas cristãs enterravam as joias junto às árvores para mais tarde, quando tudo acalmasse, as virem recuperar; por vezes alguns deles morriam e as preciosidades ficavam ali a aguardar que alguém as descobrisse).

     Esperaram que o sino da torre batesse as doze badaladas da meia-noite e começaram a escavar. De repente o céu ficou de várias cores, predominando a cor do enxofre a arder, os raios desenhavam figuras geométricas esquisitas, as faíscas eram tantas que pareciam capazes de incendiar todas as florestas do mundo. A mulher gritava como uma doida, parecia ter no seu peito todos os espíritos malignos da galáxia, espumava pela boca, os olhos saíam-lhe das órbitras, inchava como um sapo quando lhe dão a fumar um cigarro. O homem da enxada desatou a fugir pelo monte, todo borrado, o pânico apoderou-se dele, a mulher não aguenta a emoção e tomba desfalecida, com aspeto de morta. O velho feiticeiro, sozinho no meio daquele cenário sobrenatural, naquele palco de terror, capaz de arrasar os nervos aos mais valentes, abandona o local, o tesouro, fugindo a sete pés! No dia seguinte iria buscar o que ali deixara.

     Levantou-se manhã cedo, dirigiu-se ao sítio onde o presumível tesouro estaria escondido e ficou boquiaberto, pois estava tudo como quando lá chegara no dia anterior. Nem enxada, nem picareta, nem o buraco escavado, nem mulher, zero, absolutamente zero! Dava a impressão de que ali nada tinha acontecido. Pensou que se enganara, percorreu aqueles espaços circundantes, nadinha! Parecia um sonho. Resolveu ir ter com o homem da enxada: «ó tio Hipólito, então aquilo de ontem à noite assustou-o a valer.» O camponês olhou para o bruxo com temor, espelhado naqueles olhos pequenos e manhosos, e disse-lhe: «não me fale nisso, senhor Acúrsio, olhe que cheguei a casa em cinco minutos, e ainda era caminho para bem meia hora; voei como as aves!» «Vossemecê borrou-se todo, homem!» «Pudera! Aquilo assustava o mais destemido, não me convide para outra, vá o senhor Acúrsio sozinho, já está habituado a essas coisas da bruxaria

     O feiticeiro dirigiu-se depois a casa da medium, veio esta abrir-lhe a porta, olhando-o com azedume: «ó senhor Acúrsio, ia-ma arranjando bonita, por um triz não fui desta para melhor, aquilo é dose excessiva para o meu corpo, fique sabendo que fui transportada pelos ares até à minha porta. Fui, fui! Aquilo não está ao nosso alcance, deixe lá o tesouro, está muitíssimo bem guardado, o São Cipriano fez um bom trabalho, ninguém o tira dali, a não ser que ele assim o queira.» «Vossemecês são uns cobardes, aquilo que viram é só fogo-de-vistas, é só para assustar, se não fugissem, hoje estávamos todos ricos, nem saberíamos o que fazer a tanta moeda de ouro.» «Está bem, está! O mais certo era estarmos todos mortos, a caminho do cemitério, com espíritos daqueles jaez não se brinca

     Contava também histórias de ciganos, vendiam burros velhos por novos, davam aos porcos uma determinada erva, depois de ingerida acabavam por morrer, e então eles depois iam desenterrá-los e comiam-nos; os guardas prendiam-nos, mas eles terminavam sempre por se livrar das acusações; certa vez, não tendo nenhuma espécie de alimento, comeram a sua avó velha: «ai, mi abuela, mi abuela», gritava desesperada a pequenita Carmen, que adorava a sua avozinha. Histórias! Certa altura, um cigano novo roubou qualquer coisa a um lavrador e este acusou-o; a GNR prendeu-o, mas como era menor tiveram de chamar o pai dele. Então este virou-se para o ciganito e pediu-lhe: «fala a verdade Zé-Nega, diz tudo que sabes a estes senhores.» O rapaz, de imediato, replica: «meu pai, ainda aquela porta vá e venha se eu não estou dizendo a verdade.» Os guardas presentes, desconfiados, de pé atrás com a astúcia daqueles melros, ainda contrapuseram: «mas você está a pedir-lhe para ele negar!» «Nada disso! É mesmo o nome do catraio
 
     A mamã chafurdava na bebida, vinho e bagaço; dizia-se possuída de espíritos de pessoas que tinham morrido. A noite era para mim um calvário, aquela luz elétrica de 110 volts, cor amarelada, mal alumiava a casa (depois do feiticeiro sair deixou de se pagar e foi cortada pela empresa que a fornecia), as sombras dos móveis pareciam bailar a dança macabra dos mortos! Saía da escola primária a meio da tarde, ia jogar a bola com os colegas, à tardinha voltava para casa com o coração apertadinho, a assobiar, tentando desesperadamente distrair o espírito. A ceia podia decorrer sob o signo do terror, ou cenas de álcool, nunca decorria sob o signo da concórdia. Certo dia, levanto-me, como habitualmente, manhã cedo, cantavam os galos na capoeira, e vou caçar com as ratoeiras de madeira alguns pardais.

- Eu é que as deixei ficar quando fui para Lisboa.

- É verdade, já o esquecera. Tinha sido dia de feira na véspera e no chão ficavam sempre restos: grãos-de-milho, grãos de centeio, etc. Armei as ratoeiras, e ao fim de uma hora já apanhara onze pardais. Pedi à minha mãe que os cozinhasse para a ceia, onze já davam uma boa arrozada, ela quando queria cozinhava divinalmente, ia ser um verdadeiro petisco. Porém, eu não contava com a gulodice do velho bruxo; quando regressei das minhas brincadeiras (nesse dia demorei mais do que o costume, o jogo tinha-se prolongado, teríamos de encontrar um vencedor, estava mesmo renhido) uma incrível surpresa me esperava: a besta-fera tinha comido quase todos os pardais, nem os ossos se aproveitavam! Fiquei, como calculas, irritadíssimo, não quis cear nessa noite, tanto trabalho, tanto entusiasmo, para encher a pança àquele labrego, àquele barrigudo guloso. Ainda bem que a mamã se zangou com ele, ficámos mais mirrados de bens, mas mais livres, mais independentes, sem bruxedos, pensava eu; no entanto, ela herdou essa perigosa arte, continuando a queimar ervas nos cruzamentos, a esconjurar os espíritos malignos com sal e estranhas rezas, a berrar e a espumar pela boca como cão rafeiro, a levar-me àqueles terríveis e enfadonhos velórios. Afogava-se em vinho e em bagaço, embirrava com toda a gente, espiava, através das cortinas já rotas e sujas, a casa dos vizinhos, sobretudo a da que botava as cartas, a fim de descobrir segredos de alcova que depois revelava com pormenores delirantes. As suas amizades eram as pessoas rudes dos campos, as raparigas namoradeiras que procuravam nela a alcoviteira, a recadeira barata e inócua, pois tudo o que ela revelasse já ninguém acreditava, não tinham crédito as suas palavras, começou a arranjar moças novas para o ricaço da terra, o Atílio, em troca recebia umas sujas e magras moedas de níquel.

- E pensava eu que tinhas ficado na melhor, caramba, sofreste para raio! Eu, apesar de ter trabalhado que nem um mouro, não assisti, felizmente, a essas diabólicas cenas; mas também te digo uma coisa: comigo eles não faziam farinha, acabava-lhes depressa com essas histórias de espíritos e bruxarias, que fosse fazer feitiçarias para a terra dele, caramba, ia ele, ia tudo, pela porta fora, ali em casa é que eu não consentia que o bandido fizesse essas coisas.

- Isso dizes tu agora, queria ver-te lá, no meio daquela gente desfigurada, eu nem reconhecia a mamã, parecia outra, e então com aquela voz que não era a dela, era voz de homem mau, roufenha, assustava qualquer um, ainda hoje tremo só de me lembrar, na altura já nem sabia se era melhor estar em casa ou fora dela, a luz elétrica ia-se abaixo de vez em quando, era fornecida pelos espanhóis, fraca e incerta, quando se apagavam as lâmpadas só via fantasmas à minha volta, se ao menos tu estivesses em casa, os dois sempre seria melhor.
 
- É preciso tê-los no sítio, tu sempre foste um medricas, se tivesses ido, como eu fui, alta noite, por esses montes fora, com treze anos de idade apenas, os lobos a uivar, eu carregado com os alimentos para a semana, urinavas-te todo, pedias a todos os santinhos que te socorressem; eu ia afoito, a cantarolar, como se nada fosse comigo. Na maior parte das vezes levava por companhia o “Cabras”, mas semanas houve que não quis, ou não pôde ir, não compareceu, disse-me mais tarde que esteve doente, o que o tipo não queria era dar o corpo ao manifesto, que aquilo era a doer. E então, quando caía neve, nem queiras saber, os pés enterravam-se, mais de um metro de altura, os trabalhos tinham de ser interrompidos, não se podiam plantar os pinheiros com a neve a cair, ficávamos completamente isolados e impotentes.             

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





 

     «Destinos» é o título de um maravilhoso livro escrito pela senhora professora Lydia San Payo. Penso que o seu objetivo principal ao escrevê-lo foi homenagear e perpetuar a memória de seu pai, o artista-fotógrafo Manuel Joaquim Alves, mais conhecido por Manuel Alves de San Payo, natural do lugar de Baratas, freguesia de São Paio, nascido a 15/4/1890 e falecido a 8/5/1974. Como esta obra não chegou a ser lançada nos circuitos comerciais, só alguns privilegiados (entre os quais me incluo) a possuem. Confesso-vos que já li muitos livros: uns agradáveis, outros assim-assim; este, pela maneira poética de escrever, de narrar, pela ternura que as suas páginas emanam, pela sua quase religiosidade, foi sem dúvida um dos livros mais interessantes que passaram pelas minhas mãos. Para mim foi uma surpresa, e uma revelação, este encontro com a vida e a obra de um melgacense que em quaisquer circunstâncias sempre soube honrar o seu nome e o nome da sua e nossa terra. É possível que alguns preconceitos subsistam relativamente à sua pessoa; contudo, a arte deverá estar acima de mesquinhas e efémeras paisagens ideológicas. É sob o signo da Arte e do Sublime que eu escrevo estas linhas sobre San Payo.

     Com dezanove anos de idade, juntamente com um vizinho, embarca no navio alemão ”Bahia”, rumo ao Brasil. «Não foram fáceis os primeiros tempos e o duro sobreviver no Rio de Janeiro», escreve sua filha. Mas também a vida na aldeia rural não era com certeza fácil. Os agricultores dependiam sobretudo dos produtos da terra e em maus anos agrícolas a miséria rondava-lhes a casa. Manuel Joaquim ainda frequentou o seminário antes de partir para a sua aventura americana, mas a sua vocação era outra – o espírito da arte tinha-se apossado do seu ser.

     O Brasil era o destino de muitos minhotos, o país das grandes oportunidades. Porém, o nosso conterrâneo tinha a alma de artista e os artistas não buscam o vil metal; em lugar de trabalhar como um mouro e aferrolhar como um avaro judeu, inscreve-se na Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro e frequenta as aulas de desenho e de pintura. O seu emprego no «atelier» do patrício Bastos Dias, como retocador de chapas fotográficas, rasga-lhe horizontes no mundo do retrato artístico «que imagina poder ser feito como uma pintura». O seu nome artístico, San Payo, começa a ser conhecido. Como não tem sala de trabalho sua, e talvez cansado de andar a fotografar de casa em casa, certo dia dirige-se a Petrópolis. É aí que conhece a futura esposa, Erna, descendente de colonos alemães, fundadores dessa cidade brasileira. Manuel Joaquim tinha nessa altura 29 anos de idade. «Em 1918, chegado a Petrópolis, Manuel Alves de San Payo toma conta do atelier da fotografia situado na Avenida 15 de Novembro e instala-se na cidade…»

     Roído de saudades, a 27/10/1920, regressa a Portugal. Nesse ano ele e Erna passam o natal em casa de seus pais, em Melgaço «… um natal bem diferente dos quentes natais petropolitanos…» Em Janeiro de 1921 encontram-se em Lisboa e nasce-lhes a primeira filha, Ruth. San Payo trabalha sem descanso. Finalmente em Novembro de 1921 toma de trespasse, na Praça dos Restauradores, um ateliê, de sociedade com Manuel Carreira. Passados poucos anos já a fama lhe tinha batido à porta. Em 1924 expõe os seus trabalhos artísticos na Casa Castanheira Freire, à Praça Luís de Camões; no ano seguinte volta a expor, mas agora na Casa Aguiar, na Rua do Carmo. Foi um estrondoso êxito. O seu nome de artista-fotógrafo torna-se uma referência para a gente chique da capital. Em 1925, com o seu amigo Lourenço Fernandes, viaja pela Europa, visita os grandes museus «procura inteirar-se das novas tendências no domínio das artes.» Na cidade de Madrid expõe no Hotel Ritz «e teve boa aceitação por parte do público que ali acorreu». A Europa civilizada mostrou-lhe que a sua arte tinha valor e que a sua técnica estava na vanguarda do que de melhor então se fazia por esse mundo fora. Basta uma só fotografia para o provar: Erna com sua filha Ruth; verdadeira obra-prima!

     A 20/2/1930 é inaugurado na Praça Marquês de Pombal novo ateliê de San Payo, estúdio que eu próprio visitei nos finais dos anos sessenta. O bom gosto e o saber casavam-se naquelas decorações, naquele requinte de simplicidade e harmonia. Havia poesia em todas as coisas. Escritores, políticos, artistas, todos quiseram estar presentes nesse dia especial. O que muita gente não sabe é que o retrato oficial de Salazar, aquele que se encontrava nas salas de aula, e de Óscar Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás, foram tirados por San Payo! Se o artista tivesse antes, na I República, adquirido a fama que depois teve, teria feito certamente o retrato de Manuel de Arriaga, de Teófilo Braga, de Bernardino Machado, Sidónio Pais, e de tantas outras figuras públicas. Para nós, melgacenses, o que conta é que San Payo soube como ninguém elevar a sua arte, enobrecê-la, aproximá-la estatutariamente das outras artes. Em 24 de Agosto de 1933 foi feito Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada. Não se envaideceu. Ironicamente comentou: «Tenho porém de ir levar lá cento e dez escudos, para poder usar daqui por diante penduricalhos ao peito».

     Em Julho de 1934 falecia, com trinta e sete anos de idade, a sua esposa. Deixava seis filhos: Ruth, Lydia, Nuno, Walter, Irene e Vasco, este último com apenas quinze meses de idade! Para San Payo foi um rude golpe. No ano seguinte, 1935, viaja até África, e aproveita essa magnífica ocasião para realizar o filme «O Primeiro Cruzeiro de Férias às Colónias». No Brasil já tinha realizado o filme policial «A Quadrilha do Esqueleto», «A Cabana do Pai Tomás» (tragédia), e «O Senhor de Posição», além de vários documentários. Esse filme foi projetado pela primeira vez no cinema São Luís, em Lisboa, no dia 29/6/1936. Seguiram-se várias exposições. A última ocorreu no Palácio Foz, em Março de 1950, e intitulou-a «Trinta Anos de Fotografia».

     Manuel Joaquim nunca esqueceu a sua terra. Logo que lhe foi possível mandou construir na freguesia de São Paio, em granito da região, uma casa de férias para si e seus descendentes, com adega e poço de água, e rodeada de pomar e vinha. A fama não lhe subiu à cabeça, como a tantos outros! Em 1968 quis ainda visitar essas Américas longínquas. Tinha família no Canadá e na Argentina e imensas saudades do Brasil – havia quarenta e dois anos de separação! Essas impressões de viagem, publicou-as no jornal Novidades, mais propriamente no seu suplemento Letras e Artes, com o título «Memórias de um Fotógrafo».

     Depois de muito viver, Manuel Alves de San Payo morre a 8 de Maio de 1974. É com mágoa que a autora de «Destinos» nos diz: «A notícia da sua morte, nesse tempo tão conturbado, não teve o realce que merecia…» Dorme o sono eterno no cemitério de São Paio, junto de sua querida esposa Erna Belger. O seu estúdio da Rotunda do Marquês já não existe; o edifício foi demolido e nesse espaço vê-se agora o Banco do Brasil. A arte cede perante o capital. «O espólio fotográfico do artista San Payo foi considerado património cultural nacional…» e encontra-se no Arquivo Nacional de Fotografia do IPPC.

     San Payo foi também um teorizador. Os seus escritos «A fotografia e o futurismo», «Como se deve encarar a crítica de arte», etc., provam isso mesmo. San Payo possuía mais um predicado que me é especialmente caro: escrevia poesia! Em «Destinos» encontra-se um magnífico poema seu dedicado à sua filha Lydia. Pouco conheço da sua obra, mas brevemente irei ao A.N.F. deliciar-me com ela.

     À sua filha Lydia San Payo agradecemos a oferta e o excelente livro que escreveu. Revela uma grande sensibilidade e cultura.

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1022, de 1/2/1995.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha







Macróbios

// continuação...
 
FERNANDES, Maria Joana. Filha de --------- Fernandes e de -----------------------. Nasceu na freguesia de Penso por volta de 1803. // Lavradeira. // Faleceu a 22/7/1897, no lugar de Casal Maninho, com todos os sacramentos da igreja católica, com noventa e quatro anos de idade, no estado de viúva do seu conterrâneo Francisco Luís Rodrigues de Azevedo, sem testamento, com filhos, e foi sepultada na igreja.   
 

GOMES, Joaquim. Filho de Manuel Luís Gomes, lavrador, de São João de Sá, Monção, e de Maria Joaquina Gonçalves, lavradeira, de Penso, moradores em Rabosa. Neto paterno de João Manuel Gomes e de Maria José Alves de Sousa; neto materno de Manuel João Gonçalves e de Josefa Fontão Esteves. Nasceu na freguesia de Penso a 3/10/1888 e foi batizado no dia seguinte. Padrinhos: os seus avós paternos, rurais. // Casou na igreja de Penso, a 28/2/1954, com a sua conterrânea Maria Rodrigues. // Morreu em Penso a 9/3/1980, com noventa e dois anos de idade.    
 

LAMAS, Maria Joaquina. Filha de João Manuel Lamas e de Luísa de Castro. Neta paterna de Francisco da Lama e de Maria Rodrigues; neta materna de Domingos de Castro e de Caetana Alves Araújo, todos do lugar de Barro Grande. Nasceu na freguesia de Penso por volta de 1830. // Casou na igreja da sua freguesia natal a 15 de Setembro de 1856 com José António Garcia, filho de Francisco Manuel Garcia e de Ana Luísa Rodrigues Vilarinho, seu conterrâneo. // Faleceu na sua terra de nascimento a --/--/1933, com cerca de cento e três anos de idade (ver Notícias de Melgaço n.º 215, de 3/12/1933). // Deixou geração.
 
// continua...

domingo, 24 de setembro de 2017

GENTES DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha







UM HOMEM EMPREENDEDOR


ALVES, Manuel. Filho de António Joaquim Alves e de Maria Esteves, lavradores, roucenses, residentes no lugar de Paçô, freguesia de Rouças, concelho de Melgaço. Neto paterno de Francisco José Alves e de Carlota Joaquina Rodrigues; neto materno de Manuel Esteves e de Ana Alves. Nasceu em Rouças a 4/3/1911 e foi batizado na igreja católica a 12 desse mês e ano. Padrinhos: Manuel Alves, solteiro, camponês, da freguesia de São João de Sá, concelho de Monção, e Laurinda Esteves, solteira, camponesa, do lugar de Paçô, Rouças. // Por ter fugido aos carabineiros, quando levava contrabando, foi atingido com duas balas (*). Informa-nos o “Notícias de Melgaço” n.º 560, de 26/10/1941: «regressou a Melgaço Manuel Alves, de Paçô, Rouças, depois de lhe ter sido amputada uma perna no hospital de Ourense, em consequência de ter levado dois tiros.» (**) // Apesar disso, continuou a trabalhar com a mesma energia de sempre. // Casou a 25/11/1943, na capela da Senhora das Dores, sita em Cavaleiros, Rouças, com Virgínia de Jesus Guerreiro, filha de Manuel Guerreiro (Nelo de Cevide) e de Teresa Fernandes. // Foi proprietário de um talho na Praça da República, Vila, que adquiriu por trespasse a António Augusto do Paço (NM 896, de 17/4/1949) e de uma Pensão (restaurante) e talho na Rua do Rio do Porto, SMP, cujo prédio – fronteiro à Pensão Braga – comprou ao advogado, Dr. Artur Anselmo, e sua esposa, o qual reconstruiu em 1958 e para ali mudou o talho em Junho de 1959, e ali fixou residência com a sua família. // Em 2002 ainda estava vivo, mas já não reconhecia as pessoas. // No verão frequentava - juntamente com os seus familiares - a praia de Moledo. // Era um homem bem disposto, conversador, amigo do amigo. // Morreu na freguesia da Vila, SMP, a 25/11/2004, com noventa e três anos de idade. // Pai de um filho (Aristeu) e de duas filhas.
 
     /// (*) As balas atingiram as duas pernas, mas uma delas teve de ser amputada devido à bala da carabina ter ficado aí alojada e fragmentado.
 
     /// (**) Existe outra versão dessa história: Manuel Alves e os outros contrabandistas rodearam o carabineiro e tentaram tirar-lhe a arma e desancá-lo; o espanhol, vendo-se acossado, disparou para as pernas do mais aguerrido, precisamente o Manuel, obrigando os companheiros a pôr-se em fuga, ficando com o ferido apenas a sua irmã. Outros carabineiros apareceram e decidiram pôr fim à vida do baleado, mas a irmã protegeu-o com o seu próprio corpo; então eles levaram-no para Ourense, no comboio, a fim de ser tratado. Não nos esqueçamos que a guerra civil espanhola tinha acabado há pouco tempo e em 1941 estava a decorrer a 2.ª guerra mundial.  

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

ENTRE MORTOS E FERIDOS
 
romance
 
Por Joaquim A. Rocha 





// continuação...

- A que se refere concretamente? – pergunta o jovem, algo perturbado.

- Refiro-me aos africanos das antigas colónias. Muitos deles, milhares, depois da descolonização e independência, refugiaram-se em Portugal e por aqui vão permanecendo, desenraizados. Em Lisboa e arredores: Almada, Amadora, Odivelas, Sacavém, Loures, eu sei lá bem, e até um pouco por todo o país, instalam-se em barracas e habitações degradadas, desta maneira aumentando incomensuravelmente as dificuldades dos municípios em termos de habitação e segurança, não falando já na estética. Vieram também gerar inúmeros problemas sociais: são as escolas, os centros de saúde, os hospitais, que vêem em pouco tempo aumentar o número de utentes; são os empregos que faltam; o crime que cresce dia a dia; são os seus costumes que chocam, colidem, com os dos autóctones; o problema da língua, pois a maioria não falava, por incrível que isso pareça, português. Por outro lado, as mulheres africanas dão à luz um filho praticamente todos os anos e durante vários anos. Isso significa que dentro de vinte ou trinta anos Portugal não terá capacidade económica para assegurar a toda a população um nível de vida adequado. E a Segurança Social? Aguentar-se-á com tanta despesa?

     Será novamente a emigração, a debandada para outros países mais ricos? Mas como, se as novas tecnologias reduzem o número de operários? Será que a Alemanha, a França, a Suíça, precisam de mão-de-obra portuguesa?! Qualquer dia nem o Canadá, ou os Estados Unidos, necessitarão de operários estrangeiros.

       Henrique, embora reconhecendo algumas verdades no raciocínio de Cândido, não quer dar o braço a torcer, e replica:

- O meu amigo Cândido é um pessimista. Traça e prevê um futuro apocalíptico, catastrófico, para Portugal. Não acha que os portugueses poderão um dia emigrar para esses novos países africanos? Eles vão precisar de mão-de-obra especializada, de tecnologia, de engenheiros e arquitectos, de professores, de médicos, enfermeiros…

     Cândido não se dá por vencido com esse argumento:

- Só o amanhã o dirá, só o amanhã o dirá… Mas não te esqueças de que outros países mais poderosos do que o nosso, tais como a China e o Japão na Ásia, os Estados Unidos na América, a Inglaterra, Alemanha e França na Europa, Rússia etc., com outros recursos, quer científicos, quer tecnológicos, aguardam com extrema paciência, e perspicácia, a oportunidade para entrarem com armas e bagagens nesses territórios africanos, recentemente elevados a Estados.

- Haverá lugar para todos. O Cândido revela uma pontinha de racismo!

- Não! De modo algum. E penso que o povo português, de uma maneira geral, também não o é. A prova disso consiste no facto de diariamente: nos transportes públicos, nos centros comerciais, nos cinemas, em todo o lado, convivermos com indivíduos de outras raças não os hostilizando. Além disso, o nosso Governo e a nossa Assembleia da República nunca legislaram no sentido de expulsar estrangeiros do solo pátrio, mesmo aqueles que o mereciam. Mais: já começa a ser vulgar vermos rapazes negros a namorar com raparigas de raça branca, e vice-versa. Olha que no continente africano é quase um fenómeno assistir-se a isso. Crê-me: reconheço que era difícil a esta gente permanecer em Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné e cabo Verde, depois da descolonização.

- Posso saber por quê?

- Por duas razões fundamentais: a primeira porque muitos deles estavam demasiado ligados, de uma forma ou de outra, ao regime salazarista para não virem a sofrer retaliações, represálias, por parte dos Partidos que ascenderam ao poder; a segunda, porque os restantes, não quiseram participar num conflito entre irmãos, ou seja, na guerra civil (casos de Angola e Moçambique). Quanto a Cabo Verde, como sabes trata-se de um país muito pobre, sem grandes riquezas no subsolo, sem chuvas normais, pouco desenvolvido. Quando conseguirem, com a ajuda da tecnologia estrangeira, tornar a água do mar potável, então sim, esse arquipélago poderá crescer economicamente. Enquanto aguardam essa ajuda terão de viver quase exclusivamente da emigração.

- O meu amigo Cândido omitiu o povo de Timor. Também temos alguns timorenses em Portugal.

- Sim, ia-me esquecendo deles. De qualquer modo, o seu número não é significativo e pelo que tenho observado logo que lhes seja possível regressarão à sua pátria. Por outro lado, estão muito próximo da Indonésia e da Austrália, pelo que a influência desses países far-se-á notar de imediato, e eles, pouco a pouco, irão esquecendo Portugal.           

// continua...

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha





Olhou pra mim e sorriu,

Tal Mona Lisa de agora;

Eu sei que me confundiu,

Por isso se foi embora.

*

Falei com a natureza

Numa noite de luar;

Inda lhe resta beleza,

Mas em vias de findar.

*

Falei com a natureza,

Achei-a muito doente;

Olhou pra mim com tristeza,

Fugiu assim de repente.

*

Eu sou assim como sou,

Não podia deixar de o ser;

Não sei quem me modelou,

Se o fez com algum prazer.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

SONETOS DO SOL E DA LUA
 
Por Joaquim A. Rocha






 
Naquela cama triste de hospital,

Esperando uma milagrosa cura,

Fugindo da parca, da sepultura,

O doente espera vencer o mal.

 
O esforço da medicina é colossal,

Médicos não se cansam na procura…

Querem evitar o fim, a rutura,

Matar a besta, seu olhar letal.  

 
Jorra pelos brancos lençóis o sangue,

Litros de soro percorrem as veias;

O pobre paciente está exangue…

 
Ao longe já cantam belas sereias,

Embriagadas com haxixe, bangue, 

Esperando, sedentas, lautas ceias.